Autor: Léo Luz 10/11/10
Este conto é uma versão para a música do Noel Rosa "Quando o samba acabou". Leia a letra neste link. As letras dos sambas foram escritas pelo Leonardo Lanna, AKA @microcontoscos. Mas na época ele não era famoso e foi uma honra pra ele escrever pra mim.
Naquela última sexta-feita de um outubro marcado pelos fins de semana chuvosos, não havia chovido. Claro que a chuva não fazia parar o samba, mas naquela sexta, sem chuva, o samba teria rolado mais alegre que de costume. Teria. Naquele dia o sol, ao raiar, sentiria falta do que viria buscar nas primeiras horas da manhã: o samba. O sol iria subir, absoluto e, depois de anos e anos no mesmo ofício, naquela manhã não poderia, ao nascer, levar embora o samba. Ainda que ninguém soubesse disso no morro. Mas outra coisa seria levada pelo sol naquela manhã de primavera. Coisa essa tão estimada pelos moradores do morro quanto o próprio samba. E por mais que o sol fizesse sempre a tristeza dos malandros ao levá-lo embora, o que ele levaria naquela manhã haveria de entristecer o morro como jamais se havia visto. E ao se levantar para anunciar o novo dia, traria consigo não a euforia por mais uma noite de samba, mas sim uma enorme cruz de madeira, enorme, bem no alto do morro.
Esta estória começaria a tomar contornos dramáticos há algumas horas. Rosinha era dessas negas de parar passeata do PT. Secretária em uma agência de publicidade na zona sul, andava sempre nos trinques: cheirosa, cabelos com cachos compridos cuidadosamente esculpidos toda manhã, roupas que não chegavam a ser vulgares, mas que também passavam longe de esconder todo o material. Era conhecida por não dar bola pra ‘vagabundo’, como ela mesma dizia. No caminho de casa pro trabalho, descendo o morro, em menos de quinhentos metros andando a pé, sua passagem causava dezenas de torcicolos, centenas de assovios e alguns beliscões das esposas enciumadas. E se pra trabalhar ela se arrumava assim e causava esse efeito, imagina o amigo como essa mulher ia pro samba às sextas-feiras.
Rosinha era responsável por pelo menos metade da lotação do samba. Todos os homens – e algumas mulheres, maldita modernidade! – esperavam ansiosos a chegada de Rosinha ao samba para, enfim, tomarem parte na festa. Sempre desacompanhada, Rosinha se fazia de desentendida e se acabava de sambar, se rindo toda por dentro sabendo do furdunço que causava. E nem adianta. Nada abalava as estruturas de Rosinha: engomadinho, nego perfumado, sambista cheio de ginga, nada disso merecia sequer dois dedos de sua prosa. Mas naquela sexta-feira, sete dias antes da cruz no alto do morro, isso haveria de mudar.
Dois malandros resolveram sair mais cedo do samba. Um, um nego engomado, cordão de outro e anel com brasão, com a fome que tava teve que ir embora mais cedo pra matar um angu no Seu Chico. O outro, um branco com ar de vagabundo, cabelo desalinhado, jeans e regata branca, se cansou das mulheres cheias de pompa lá naquela noite, se empombou e foi-se embora. Estavam os dois, um tomando um refrigerante depois de comer o angu, e o outro fumando um cigarro antes de tomar o rumo de casa. Estavam, sem se conhecer, a menos de dez metros de distância um do outro. Foi quando o destino, morrendo de inveja das peças de Nelson Rodrigues, resolveu criar uma situação com os três que eu não vou falar qual é pra não estragar o resto da estória.
Pois então. Enquanto o branco abaixava a cabeça pra acender o cigarro a salvo do vento e o preto limpava uma gota de refrigerante que caíra na sua blusa, Rosinha despontou lá na esquina. Estavam os dois tão absortos em seus afazeres que nem perceberam a aproximação da beldade. Mas quando ela estava bem pertinho, mas bem pertinho mesmo, eles levantaram a cabeça ao mesmo tempo. Parece que foi pelo cheiro. E Rosinha, encantada com os dois, fitou a ambos: primeiro o preto, depois o branco. E ambos corresponderam, porque nenhum dos dois era do tipo que passava esmalte nas unhas pra ir pro samba. E assim ficaram, os três se olhando: eles pra ela, e ela pra eles. Cada qual achando que era para si. Só depois que ela parou de olhar, jogou o cabelo e saiu andando chacoalhando os quadris mais que Milk shake de fastfood é que eles perceberam a presença um do outro. E aí os sorrisos se desmancharam, o refrigerante foi jogado no lixo e o cigarro apagado num poste.
Prevendo uma briga mais feia que mudança de pobre se aproximando, Seu Chico sugeriu o seguinte: se eram os dois do samba e do morro, que resolvessem à velha maneira: aquele que improvisasse o melhor samba poderia ir atrás de Rosinha e, se já a houvesse perdido de vista, seria dono único de seus olhares na próxima sexta-feira. Mas claro que eles ainda não sabiam que não ia ter samba na próxima sexta, isso é um segredo meu e de vocês. Pois como num raio, o cigarro se acendeu de novo nas mãos do branco e um copo de cachaça foi pedido pelo preto. E com mais uns sete ou oito sujeitos ao redor, teve início a peleja.
Como não houvesse acordo de cavalheiros – nunca há quando um lombo daqueles está em jogo – Seu Chico declarou: – estamos no morro, então começa o preto. Nada pessoal, rapaz, nada pessoal. E começou o preto, num ritmo cadenciado de samba de Cartola, cantando quase sussurrando:
"Na zona sul ou no samba
Eu sou tudo que ela pode querer
Preto, do samba, alinhado
E não um branquelo como você"
No que o branco, pra espanto geral da pretaiada sambista ali presente, respondeu de bate-pronto:
"Pelo que se vê no samba
Preto alinhado não faz seu tipo
Lá ela passa a noite sonhando
"Não há nesse samba um só branco pro meu bico?"
O preto agora tava com mais pressão em cima do que zagueiro que fez gol contra. O branco mostrou que, apesar de branco, de samba também entendia. Mas sem muito pensar, o preto já engatou:
"No samba ela fica sozinha
De tanto branco pomposo que fica em cima
Mas isso é porque ela ainda não encontrou
Um preto assim tão bom de rima"
E o branco, calmo que só caixa de banco gorda lixando as unhas com os óculos no nariz, não se fez de rogado, e, rápido no gatilho, deixou o preto embasbacado (a rima aqui foi sem querer, mas modéstia a parte, se o narrador entrasse na disputa não tinha pra nenhum dos dois):
"A preta não procura rima
Nem linho nem adereço
Mas sim alguém que lhe aqueça as entranhas
E é aí, camarada, que eu a ganho com meu apreço"
O preto quase teve um troço. Tentou começar uma frase, mas gaguejou em três tentativas. Seu Chico teve que intervir. Declarou vencedor o branco, que em respeito e medo da pretaiada, nem comemorou. E antes de se virar para ir atrás da sua prenda, foi interrompido pelo preto, que lhe dera os parabéns e lhe pedia um cigarro com paga para o dia seguinte. O branco, humilde e se borrando de medo da cara de decepção dos presentes, falou antes de ir:
- Queísso, meu irmão. Toma lá o maço. Já tive minha alegria de hoje. Carece de paga não, pode ficar.
E se virou, mais alegre que criança em dia de Cosme e Damião. Que sua alegria contrastasse com a tristeza do preto, era de se esperar. Mas o que não se esperava é que os olhares de raiva e de frustração não fossem dirigidos a ele, mas ao preto. O preto havia envergonhado a todos e perdido a preta mais cobiçada prum branquelo de fala mansa. E no que, num canto da rua o branco sumia numa esquina atrás do que lhe era devido, o preto acendia um cigarro, com olhar distante, e se dirigia à outra esquina. E ficaram, no meio do caminho, os outros pretos, envergonhados e cheios de ódio do seu irmão de samba, de morro e de cor. A raiva era tanta que o punhal que estava guardado para uma eventual reação violenta do branco fora guardado e desistiram de usá-lo, tamanha decepção.
E por horas ficou o preto lá, sentado na esquina, com um olhar vago e o cigarro queimando entre os dedos. E assim o sol chegou, levando consigo o samba e jogando por terra o sangue do preto. Fora encontrado estirado na ribanceira, com uma estocada no coração, caído ao lado de um maço de cigarros. Naquele início de manhã ninguém cantou o fim do samba. E naquela manhã de primavera, a vida do preto havia sido levada pelo sol, junto com o samba. O preto era querido no morro. Amável, prestativo e educado. E hoje, sete dias depois, o sol subiu solitário. Não teve o samba como companhia. O morro ainda estava de luto pelo preto. A única coisa que fazia companhia àquele sol minguado era uma enorme cruz de madeira, fincada no alto do morro, perto da ribanceira. Fora Rosinha que a havia posto lá para homenagear o preto. E o branco? Bom, o branco não conseguiu beliscar a rosinha. Sabe como é, brasileiro adora ficar do lado de quem perde…