Jonas era uma criança normal. Como toda criança míope, na vida de Jonas o esporte foi posto de lado, substituído pela leitura e pelo videogame. E mais tarde, fato que mudaria sua vida para sempre, pela internet. Aos catorze anos Jonas teve alguns segundos de fama, quando uma foto sua levando um cuecão (quando alguém puxa a cueca de outrem pra cima, causando exatamente a dor que eu sei que você pensou agora); quando sua foto levando o cuecão foi capa de uma revista semanal de circulação nacional, em uma reportagem sobre bullying.
À época, a rotina de Jonas se resumia à rotina normal de uma criança de óculos, gordinho, cabeçudo e sardento: apanhar dos amigos da escola, ler quadrinhos e fingir dor de cabeça pra não ter que fazer aula de educação física. Naquele 14 de março de 1991 a vida de Jonas ia começar a mudar. Para ele, apenas mais um aniversário: chuva de ovos na escola e algumas meias de presente. Mas eis que, ao chegar em casa, o objeto que faria sua vida tomar um novo rumo estava lá, esperando por ele: um computador. O pai de Jonas havia comprado um em uma viagem à Europa e achou que o filho ia gostar. E ele não só gostou como aquilo passou a ser sua vida.
Em alguns meses, Jonas programava páginas hpg.net cheias de gifs saltitantes e barulhentos, e modificava os códigos de jogos como Carmen San Diego e outros. Em um ano ele já participava de dezenas de BBS´s e já dominava uma dúzia de linguagens de programação. Montou um blog, e por alguns anos ficou conhecido como “consertador de computador” e “fazedor de site”. Mas de repente, não mais que de repente, como diria o poeta, as coisas mudaram. Seu blog começou a ter milhares de acessos diários. Centenas de comentários. E duas equipes de reportagem o procuraram para ele falar sobre o blog e, pela segunda vez, Jonas foi capa da maior revista semanal do Brasil, graças ao seu blog.
Depois de quatro anos com o blog, Jonas havia se tornado uma espécie de guru da internet. Seu blog não era nada demais – muito pelo contrário. Eram resenhas de games e piadinhas para nerds. Mas mesmo assim ele agora era endeusado. Programas de auditório, entrevistas, palestras… E com a chegada do Twitter, Jonas passou a ser A sumidade virtual brasileira. Seu blog tinha mais visitas diárias que a tiragem de pequenos jornais, e o dinheiro que ele ganhava com anúncios no blog dava pra ajudar a mãe a pagar as contas. Mas se Jonas ganhasse com o blog um décimo do que ele dizia que ganhava, ele já seria um homem rico a essa altura. Mas a vida era boa: presentes, viagens, festinhas… A vida de blogueiro famoso era tudo o que ele sempre quis.
Em blogcamps e outros eventos de internet, Jonas reinava: fotos, pedidos de links, puxação de saco e gente implorando conselhos eram coisas normais para Jonas nestes eventos. A vida de Jonas era perfeita, em sua opinião: ele se achava famoso, bem sucedido e tinha um ar eterno de James Bond que acabou de salvar o mundo e agora só está tomando um Martini no bar. Jonas havia feito faculdade de Análise de Sistemas, mas pouco trabalhou com isso. Seu blog (e seus trinta e cinco mil seguidores no twitter) era sua vida. Até que uma carta chegou por debaixo da porta.
A carta era um convite para uma festa de comemoração dos dez anos da turma que se formou com ele no segundo grau. Era a oportunidade ideal! Ele iria se vingar! Agora ele era poderoso, famoso, conhecido, dava palestras e aparecia em revistas! Sem pestanejas Jonas aceitou o convite. Ele estava animado. Ia ser engraçado ver a cara daquela gente agora que ele era um sucesso.
No dia, Jonas se atrasou um pouco de propósito, pra fazer uma entrada triunfal. Mas já na entrada, as coisas começaram a dar errado.
- Seu nome, senhor? – Perguntou a mocinha simpática na entrada.
- Jonas Medeiros – respondeu nosso herói
- Bom, senhor, o Pedrão disse que os crachás não vão ter os nomes, mas os apelidos. Qual era seu apelido?
- Apelido? Sei lá, eu não tinha apelido! Não vou usar um crachá com apelido! Que absurdo! Meu nome é Jonas Medeiros e é isso que vai ter no crachá! Você não sabe quem eu sou, menina?
- Não, por que? Deveria saber? – Perguntou ingenuamente a menina, diante da cara de “essa gente não conhece nada. Só deve ver novela…”.
Antes que a mocinha pudesse argumentar, alguém gritou lá de dentro.
- Graaaaaande Seboso! – Gritou Pedrão, vindo em sua direção.
E enquanto a mocinha tinha um ataque de risos, Pedrão pegou um crachá e escreveu com uns garranchos: “SEBOSO”, e pendurou no pescoço de Jonas, que, como queria causar boa impressão, não iria bater boca com o valentão da sala logo na entrada. Mas não perdeu a chance de alfinetar.
- Porra, Pedrão, você ainda não aprendeu a escrever não? Que letra horrorosa! Tá fazendo o que da vida, balconista de fast food?
- Seboso, Seboso, sempre fazendo piadinha. Eu sou médico, seu babaca. Com doutorado em cirurgia cerebral e professor da UFXX (insira aqui as siglas do seu estado). E você, tá fazendo o que da vida? Nerd do jeito que tu era, deve ser Gerente de alguma merda da Microsoft, Google, essas porras.
- Médico? Uhm, maneiro. Que bom. Não, não, eu trabalho pra mim mesmo. Eu tenho um blog. O nerd4eva.com. Conhece?
- Blog? Uhm… Legal, bacana. Não, conheço não. Mas eu também quase não entro na internet, não conheceria nem se fosse o mais famoso do Brasil!
- Mas é – respondeu um irritado Jonas.
- É? Que merda, eu tenho que me manter mais informado.
Pedrão respondeu e abraçou Jonas, e alguns segundos depois eles chegaram onde as pessoas estavam. Do meio da multidão irrompe um rapaz. Jonas não o reconhece, mas ele parece bem enturmado.
- Cara, nem acreditei que era você na capa daquela revista! Ah, desculpa, eu sou o Felipe, namorado da Carol, que estudou com vocês. Tava ali tomando uma cerveja e me mostraram a revista. Nem acreditei que você vinha, bicho!
E antes que Jonas terminasse de fazer um sorrisinho orgulhoso e pegasse a caneta para autografar a revista, alguém jogou um exemplar no seu colo: era a revista da reportagem sobre bullying, e lá estavam na capa, ele, com a cueca enfiada até os pulmões, e Pedrão, com um sorriso sádico, suspendendo Jonas no ar pela cueca. A risada foi geral. Jonas saiu de fininho pra pegar um Dry Martini.
Em alguns minutos estavam todos ali. A turma toda. Era como se fosse uma pequena representação da sociedade como um todo: havia médicos, engenheiros, professores, administradores… Até que chegou a fatídica hora.
- E você, Jonas, tá fazendo o que da vida? Aposto que abriu alguma dessas empresas que foram vendidas por milhões de dólares na internet. – Perguntou Sarah, que à época era a bonitinha fútil da sala, hoje gerente comercial de uma grande rede varejista.
- Bom, eu.. é… eu trabalho pra mim mesmo e…
Antes que ele pudesse terminar a frase, Pedrão praticamente gritou:
- Galera, ele é dono do nerd4eva.com! Porra, o maior blog do Brasil! – Disse Pedrão que, apesar de não conhecer o blog de Jonas, estava orgulhoso de ter ao seu lado o maior blogueiro do Brasil.
Como diria o narrador de Max Payne, o silêncio era tão palpável que dava até para cortá-lo com uma faca. As pessoas se entreolhavam, esperando alguém falar alguma coisa. Mas não adiantava: ninguém conhecia o blog de Jonas. Dentre as setenta pessoas ali presentes, nem umazinha sequer conhecia seu blog. E quando Jonas tentou falar que havia sido capa da revista com o blog, alguém falou que “ah, eu lembro disso. A reportagem sobre como ganhar dinheiro na internet, né?! Meu filho já ganha umas duzentas pratas com o blog dele, com só dezesseis anos”.
- E você vive disso? Porra, pra você só fazer isso deve dar muito dinheiro, uns dez paus por mês? – Perguntou Rafael, outro rapaz da turma.
Jonas só havia ganho dez mil reais uma vez, quando ganhou uma competição de hackers. Mas ele se safou, dizendo que não gosta de falar de valores, mas que a grana dá, sim, pra viver. E nos próximos quase cinqüenta minutos, Jonas tentava fazer com que alguém o reconhecesse: falou de twitter, da revista, do blog, dos Blog Camps etc. Mas ninguém sabia o que era twitter, Blog Camp nem nada disso. Eles começaram a ligar para os amigos, filhos, esposas, maridos, mas ninguém a não ser um ou dois filhos adolescentes sabiam quem era Jonas. Irritado, Jonas perdeu o controle e desembuchou:
- Vocês são uns ignorantes! Não conhecem internet, não conhecem nada! Vocês deviam se informar mais! Eu tenho o maior blog do Brasil, sou o maior blogueiro do país, porra! Seus imbecis!
Ao acabar de falar, Pedrão andou em sua direção, cabisbaixo.
- Desculpa, Jonas. – Disse Pedrão. – Eu sempre soube quem você era. Só fiquei com vergonha de falar na frente de todo mundo…
- Porra, até que enfim. Onde você já ouviu falar de mim então? Meu Nick é NinjaDragonXXX.
- Mas eu me lembro de você com outro nome. Estranho.
- É? Qual? Eu uso alguns outros Nicks como…
Pedrão interrompeu Jonas e, correndo em sua direção, gritou:
- SEBOSOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!! – E enquanto gritava, puxava a cueca de Jonas até tirá-lo alguns centímetros do chão…