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Dicas para escrever cartas de amor com Os Beatles 21/06/10

            Pra começo de conversa, esse texto vai ser grande e sem piada. Então, se você é preguiçoso, ainda dá tempo de ir ler umas piadas por aí. Bom, vamos lá.

            Hoje mesmo recebi um e-mail de um sujeito – cuja identidade não será revelada – me pedindo, nas palavras dele, “dicas para escrever bem. Principalmente escrever uma carta de amor pra minha namorada”. Farei melhor. Vou ensinar o jovem mancebo a escrever uma carta de amor dando como exemplo ninguém menos que a maior banda de rock de todos os tempos e foda-se se você não acha: os Beatles.

            Os Beatles – e não só o John e o Paul – foram a banda que mais revolucionou a música na história da humanidade. Não vou dar aula de Beatles aqui, vou falar só do que interessa. Os Beatles – os quatro – eram ótimos letristas e, cada um ao seu jeito, construíram músicas geniais a granel, como diria vovô. Gênios da música ecoam em uníssono a também genialidade das letras da banda. E isso tudo sem intelectualce, sem ser pobre, de maneira simples e descomplicada. Só os gênios sabem ser simples.

            Então, farei o seguinte: escolherei algumas letras e as analisarei. Espero não cometer sacrilégios contra os três Beatles mortos, John, Paul e George. Vou pegar somente alguns versos, pra não fazer o texto ficar maior do que já vai ficar. Vamos lá, moçada? Ah, e pros que fugiram da aula de inglês, vou traduzir os trechos.

 

Dica Escutem as músicas antes ou durante a leitura. Os links estão do lado dos títulos.

 

 

 Exemplo 1

Música: For no One (http://migre.me/R7Cu)

Tema: Separação

             

Your day breaks, your mind aches, (seu dia nasce, sua cabeça dói)

You find that all her words of kindness linger on, (você descobre que todas as palavras de ternuna dela perdem o sentido)

When she no longer needs you. (quando ela não precisa mais de você)

She wakes up, she makes up, (ela acorda, ela se maquia)

She takes her time and doesn’t feel she has to hurry, (ela não tem pressa e não acha que deva se apressar)

She no longer needs you. (ela não precisa mais de você)

 

            Uma das minhas músicas preferidas. Combinação perfeita entre a letra e o clima que a melodia passa. Você sente as cenas.  Fosse uma banda emo ou algum desses sertanejos universitários, ia fazer uns versos como “ela faz sua cabeça doer”, “ela não liga mais pra você” e “tudo o que ela disse era mentira”. Porém, senhores, era o Sir Paul McCartney. Ao invés de frases batidas e expressões desgastadas, ele nos fez não entender, não sentir, mas ele nos fez VER o que ele quis passar. E quando digo ver. Não digo ver somente a cena, digo VER OS SENTIMENTOS. Nós vemos o sujeito acordando arrasado porque não é mais amado; nós vemos a moça cuidando dela mesma, sozinha, vazia de amor pelo homem. Nós não sentimos, nós VEMOS.

            E fazer o leitor ver o que você quer passar é muito mais eficaz do que fazê-lo sentir. Um sentimento é esquecido em algum tempo. Uma imagem não. Tivesse Paul nos feito sentir o clima da canção, seria mais uma canção que faz chorar. Mas Sir Paul McCartney nos fez ver, nos fez entrar na canção, nos fez sofrer junto com o homem e nos fez sentir a liberdade da moça que se maquia sem pensar em ninguém. Uma carta de amor não deve fazer o leitor sentir, pensar nem refletir: deve fazer o leitor ver o seu sentimento de tal maneira que ele consiga descrever a cena, sem que você a tenha descrito. Ou vai dizer que vocês não imaginaram a cor do lençol da cama, o tamanho do espelho onde ela se maquia ou a cor dos cabelos dela. ISSO, amigos, é o que deve fazer um belo texto.

 

 

Exemplo 2

Música: Something (http://migre.me/R7Fx)

Tema: Declaração de amor

 

Something in the way she moves (alguma coisa no jeito como ela se mexe)

Attracts me like no other lover (me atrai como nenhuma outra)

Something in the way she woos me (alguma coisa no jeito como ela me seduz)

-

Somewhere in her smile she knows (em algum lugar em seu sorriso ela sabe)

That I don’t need no other lover (que eu não preciso de nenhuma outra)

Something in her style that shows me (Alguma coisa em seu estilo me mostra)

I don’t want to leave her now (Que eu não quero deixá-la agora)

You know I believe and how (Você sabe que eu acredito e muito)

 

 

            Nada mais nada menos que a mais bela canção de amor de todos os tempos, eleita por diversas revistas e artistas renomados. A autoria é do meu Beatle preferido, George Harrison. Bem ao meu estilo: uma declaração de amor que não se declara. Não diz que ama deslavadamente e que quer pra sempre. Nem fala que não pode viver sem ela pra sempre, que morreria sem ela nem que traria a lua pra ela. Direta e cotidiana.

            A letra fala de coisas simples, mas que denunciam um homem apaixonado: o embasbacamento pelo andar da mulher amada, pelo jeito como ela o olha, pelo seu sorriso. Assim, simples e sem poetice nem palavras difíceis e verbos decassílabos rimados. E é assim que deve ser uma carta de amor: simples, sem exageros poéticos bobos, sem chavões, sem proparoxítonas desnecessárias. Assim, como George: simples, sincera e bonita. Com acontecimentos do cotidiano, porque é ISSO, camarada, que vai fazê-la acreditar. A lua você não pode pegar, muito menos você vai mesmo morrer de fome se seu amor não for correspondido. Mas se encantar para sempre com o olhar e o jeito de andar da sua amada, ISSO sim vai fazer diferença pra ela.

 

 

Exemplo 3

Música: When I´m Sixty Four (http://bit.ly/a8Qjq)

Tema: Declaração de amor eterno

  

When I get older losing my hair, (Quando eu ficar mais velho, perdendo meus cabelos)

Many years from now. (Daqui a muitos anos)

Will you still be sending me a Valentine. (Você ainda vai me mandar um cartão de Dia dos Namorados)

Birthday greetings bottle of wine. (Parabéns de aniversário e garrafas de vinho)

If I’d been out till quarter to three. (Se eu ficar for a até quinze para as três)

Would you lock the door. (Você vai trancar a porta)

Will you still need me, will you still feed me, (Você ainda vai precisar de mim, você ainda vai me dar de comer)

When i’m sixty-four. (Quando eu tiver 64 anos)

 

You’ll be older too, (Você também vai estar mais velha)

And if you say the word, (E se você disse a palavra)

I could stay with you. (Eu poderia ficar com você)

 

Até mesmo os gênios caem no lugar comum de quando em vez. E Sir Paul McCartney conseguiu, com maestria, entrar no lugar comum sem cair no lugar comum. Coisas que só um Beatle consegue. Porém, por incrível que pareça, a letra de uma das músicas mais dedicadas a meninas em todo o mundo não foi escrita para uma mulher. Mas se tivesse sido, teria o mesmo efeito em nós.

Paul cai no lugar comum de prometer o amor eterno mas o faz com uma destreza ímpar. Ele não fala nominalmente em ficar para sempre ou nunca abandonar. Mais uma vez, as coisas e promessas simples encantam muito mais do que promessas de matar dragões ou catar estrelas. São promessas que podem ser cumpridas e, ao mesmo tempo, estão longe, o que demonstra a vontade do autor em permanecer com a amada. Coisas como envelhecer juntos, dar de comer e cartão de Dia dos Namorados, ao SESSENTA E QUATRO ANOS, formam uma declaração de amor quase irresistível. Portanto, mulheres gostam do lugar comum, mas sem cair no lugar comum. Entendeu?

 

 

              

Bom, meninada, é isso. Por mim eu citava todas as músicas deles, mas vocês não têm tempo pra isso, nem eu tenho paciência. Essas dicas são importantíssimas. Sério. Eu as uso nos meus textos. Em todos. Façamos um acordo: escrevam uma carta de amor para a sua namorada, esposa, noiva, amiga colorida ou manicure, se você for metrossexual. Depois venha aqui e me diz o resultado. Pode acreditar que você vai se surpreender.

E pros Trolls de plantão não rosnarem que na teoria é muito fácil, vou botar aqui embaixo três textos de amor meus, onde eu uso exatamente tudo o que eu digo aí em cima. Leiam e me digam o que acharam:

 

 

Detalhes

E, se…?

Como tudo começou

 

 

 

 

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O texto mais difícil da minha vida, ou, Me desculpa… 05/06/10

 

            Você, que tá aí, sentado na sua cadeirinha macia, me lendo; você que tá no trabalho, morcegando, fingindo que tá lendo email e tá me lendo; enfim, você, que tá me lendo e costuma me ler, é, você mesmo. Você que além de me ler, me acha legal, divertido, engraçado. Pois nesse momento, às três da manhã, escrevendo enquanto a minha namorada chora, ali na cama, eu gostaria, na verdade eu desejaria, do fundo do meu coração, que você tivesse dentro da minha cabeça, por míseros cinco minutos. Cinco.

            Você não ia achar a menor graça. A menor, repito. Pras pessoas eu sou um bibelô, um cara “legalzinho” que fala pelos cotovelos, esquece tudo e não presta atenção em nada. Mas dentro da porra da minha cabeça, isso que você acham graça e ainda dizem “olha lá, que bonitinho, tão ciumento”, não tem graça nenhuma.         

            Experimentem ter trinta anos e não se lembrar da última pessoa em quem você confiou. Da última vez que confiei em alguém, o Google não existia, a China era comunista e a Rússia era União Soviética. De lá pra cá, sabem em quantas pessoas eu confiei? Nenhuma. Pra não dizer nenhuma, confiei nas minhas namoradas, e algumas me mostraram que eu não devia ter confiado é em ninguém.

            Agora juntem isso com uma personalidade possessiva, ciumenta que beira a doença, e uma impulsividade que faria o incrível Hulk se sentir a Penélope Charmosa perto de mim. Algumas namoradas e alguns amigos – mais do que eu gostaria – me mostraram que eu estava mesmo certo em não confiar nas pessoas. O problema é que eu não sei lidar com isso, e sempre ajo da maneira mais idiota e impulsiva possível. Isso sem falar que esse meu ar de quem sabe tudo NÃO É charminho. Mea culpa, eu sou assim.

            E agora, depois de ter falado poucas e boas, gritado e ameaçado, a minha namorada está ali, deitada na cama, tentando dormir enquanto eu digito isso. E ainda deve estar achando que estou escrevendo uma carta de despedida, terminando com ela. Porque como ela e todo mundo sabe, o meu Ego maior que meu pau não me permite admitir que estou errado, muito menos pedir desculpas. Por isso estou fazendo este pedido de desculpas público, fazendo papel de idiota e perdendo a metade dos poucos leitores que eu tenho com esse texto choraminguento de merda.

            Dê, me desculpa. Me entende. Me ajuda. Eu preciso de você, preciso de ajuda, mas, depois de hoje, meu orgulho não vai me deixar admitir isso nunca mais. Eu te amo, mas infelizmente eu n]ao sei conviver com os defeitos das pessoas, como eles convivem com os meus. Eu tento controlar as pessoas da mesmíssima maneira que eu odeio que me controlem. Mas eu admito isso. Pelo menos agora, às três da manhã. Eu quero mudar. Muito. Me entende, me ajuda, me dá a mão. Não foi nada fácil escrever isso agora, sabendo que eu vou me arrepender assim que eu postar e que, amanhã, quando alguém estiver me achando um completo idiota por estar escrevendo isso, eu mesmo vou me achar um idiota, meu orgulho babaca vai voltar e eu não vou te pedir desculpas. Então, to pedindo agora. Eu te amo, me desculpa.

 

 

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Detalhes 14/04/10

    Dizem os chineses que é através dos pequenos detalhes (com pleonasmo) que se descobre um mentiroso, uma pessoa apaixonada e um mau cirurgião plástico. Mentira, nenhum chinês nunca disse isso mas eu precisava corroborar minha tese. Enfim, continuemos. A idéia central deste ditado chinês do camelô é que as grandes características e traços são fáceis de fingir e falsear. Mas os detalhes, amigos, estes são as verdadeiras provas do crime.


    Em todos estes anos como Narrador Onipresente, admito que aquela foi uma das cenas mais cheias de significado que já presenciei. Era uma simples viagem de ônibus entre Porto Alegre e Caxias do Sul. Eu estava rondando por lá, procurando estórias em busca de um narrador, quando a vi. Ela jamais chamaria a atenção de uma pessoa normal. Mas eu, como Narrador Onipresente e com um ótimo faro para estórias interessantes, logo vi que ali estava uma personagem ímpar de uma bela estória. Bom, como todo narrador que se preza eu devo fazer uma descrição bem bacana da personagem e eu não vou fugir à regra.


    Eram umas onze da manhã e poucas pessoas dormiam no ônibus, apesar de a viagem ser um pouco longa – em torno de duas horas. Em uma poltrona no corredor, uma senhora tentava fazer uma criança parar de chorar, no que fracassou durante todas as duas horas da viagem. Do lado desta senhora, estava, como a denominei, a Menininha Ruiva. Ela estava com o banco recostado, como que deitada. O rosto colado no vidro, de olhos fechados. Era muito, mas muito branca. Poucas vezes vi uma pele tão branca. E seus cabelos eram vermelho fogo, e estavam presos em um coque no alto da cabeça. Até aí, uma pessoa normal que jamais chamaria a atenção de um Narrador Onipresente como eu. Mas dois detalhes me fizeram querer me embrenhar naquela estória: o sorriso e o casaco.


    Ela vestia um moletom horroroso, listrado, roxo com preto. Não combinava em nada com ela. Nada. Parecia mais um moletom de um mendigo ou de um desabrigado. Feio mesmo. Mas a maneira como ela o vestia era uma coisa simplesmente incrível. Ela estava, como disse, vestida com ele. Porém, as mangas, longas, ficavam sobrando nas mãos. E esta sobra de tecido, os punhos, estava embolada e servia como uma espécie de travesseiro. Mas não era só isso. Era um travesseiro que ela acariciava com a cabeça, como se fosse a mão ou o ombro do amado. Ora ela acariciava o tecido com o rosto, ora se afastava um pouco dele para olhá-lo com uma ternura que poucas vezes presenciei. Quando o sol começou a incidir sobre o ônibus, ela tirou o casaco, o embolou como um travesseiro gordo e o abraçou. Quem olhasse de relance acharia que ela abraçava um gatinho. Ela abraçava e acariciava o casaco com o rosto, com as mãos…  E o sorriso? Durante as duas horas e doze minutos da viagem ela manteve no rosto o mesmo sorriso que somente as pessoas que estão pensando no ser amado são capazes de sorrir.


    Chegando o ônibus ao seu destino, ela vestiu o moletom e saiu andando pelas ruas. Volta e meia ela esfregava a manga comprida no rosto e semicerrava os olhos. E isso se repetiu durante todo o dia. Como sou um Narrador Onipresente de boa estirpe, posso lhes dizer que aquele era o moletom do namorado da Menininha Ruiva, e eles haviam acabado de passar um fim de semana intenso e maravilhoso juntos. E, quando fui pesquisar mais sobre a estória dos dois, descobri que detalhes – como o sorriso ou o casaco – não só são importantes como são a tônica deste amor recente mas fiel.
Detalhes, como o email que ela envia TODOS OS DIAS, há exatos 25 dias, para ele, um pela manhã e um à noite. Um para ele ler no engarrafamento de ida para o trabalho, outro para ser lido na volta. Detalhes, como o fato de ambos que sempre foram completamente avessos a fotos, terem tirado algo perto de 100 fotografias juntos durante o fim de semana, e agora estarem as exibindo aos quatro ventos, para quem quiser ver que eles estão felizes. Detalhes que as pessoas não percebem. Que eles não percebem. Que ninguém percebe. Mas que, para um Narrador Onipresente como eu, são o suficiente para previr que esta estória do casaco ainda vai ver contada na mesa do jantar, para os netos, e vai ser motivo de boas gargalhadas e sorrisos de cumplicidade. Só espero que não se esqueçam deste humilde Narrador, que lhes prestou um serviço honesto e de coração, e ainda arrumou uma utilidade poética praquele moletom horroroso.
 

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Luiz Fernando e Alice – Cena 1 02/04/10

 

Bom, alguns de vocês sabem que eu sou roteirista. E pela primeira vez, vou postar uma cena aqui. Está em formato de roteiro, portanto, a leitura é um pouco diferente. Toda vez que aparece um personagem pela primeira vez, seu nome é escrito em maiúsculas. E sei que muita gente vai estranhar, mas roteiro NÃO É literatura. Um roteiro é um filme escrito. Em um roteiro, só se escreve o que se pode ver. Pensamentos e opiniões ficam por conta das imagens. Detalhe é como se chama o Close em objetos. Close é usado para pessoas. Acho que com isso vai dar pra entender. Bom, espero que gostem e, em caso de dúvidas, comentem aí embaixo:

 


 

Detalhe de plantas na chuva. São vasos em uma bancada de concreto. A chuva é forte e dobra os galhos e as folhas. Ao fundo ouve-se o som de passos apressados e curtos, como se subissem uma escada. A câmera vira a vemos LUIZ FERNANDO, molhado e sem fôlego, na portaria de um prédio.

 

LUIZ FERNANDO

 

PORTEIRO (sem tirar os olhos da bíblia que estava lendo)

O som das pessoas falando é bem alto e, ao fundo, um som de videogame e crianças gritando. Com este som em BG (background), Luiz Fernando vai entrando e vai cumprimentando as pessoas. Um casal de uns cinqüenta, sessenta anos o abraça e ele beija ambos, com intimidade de longa data. Um rapaz alto, forte também o abraça e parece feliz em vê-lo. Ele vai entrando, falando com as pessoas, até que uma menininha de cabelos escuros e olhos grandes e expressivos, de repente, pula no seu colo. É LAURINHA, filha do aniversariante.

 

LAURINHA (praticamente gritando)


LUIZ FERNANDO

 

LAURINHA

 

E Laurinha sai puxando Luiz Fernando por entre as pessoas, até que chegam até LEO E FABIANA, respectivamente, o aniversariante e sua esposa.

 

LEO

 

LUIZ FERNANDO

 

LEO

 

E Leo guia Luiz Fernando até uma mesa. A câmera mostra, em CLOSE, uma por umas das pessoas que o Leo apresenta a Luiz Fernando. Antes disso, a câmera fica em Leo e Luiz Fernando, só saindo deles quando Leo apresenta a primeira pessoa.

 

LEO

 

Luiz Fernando levanta a mão e sorri. Ele ainda olha para o lado direito da mesa, e ainda não olhou para a mesa toda.

 

LEO

 

A câmera segue as pessoas conforme Leo fala seus nomes. Roberto e Alexandre fazem o gesto de “oi” com a mão levantada, no que são retribuídos no gesto por Luiz Fernando. Quando a câmera alcança ALICE, a palavra “Alice”, dita por Leo, ganha realce, e o som ao fundo cai, ficando somente o nome dela, repetido em eco umas três vezes. Neste momento, CAI O SOM AMBIENTE e sobe trilha. A música é Aint she sweet”, dos Beatles (http://www.youtube.com/watch?v=Oo7bdWJMYr0). Todo o trecho a seguir é sem som ambiente, somente com a trilha, em CÂMERA LENTA. Ela estava vendo algo no celular, e ao ser apresentada, levanta a cabeça e dá um leve sorriso sem jeito, fechando um pouco os olhos. Alice é uma mulher linda, de cabelos vermelhos, rosto afilado, pele muito branca e vestia um vestido claro, leve, como um vestido de pic-nic, destoando do clima de casacos e guarda-chuvas da noite. A câmera volta para Luiz Fernando, ainda em câmera lenta e mostra este embasbacado, olhando fixamente para ela. DE REPENTE, a trilha cai e ouve-se a voz de Leo, como se ele estivesse falando antes e Luiz Fernando não estivesse ouvindo.

 

LEO

 

Nisso, Laurinha vem correndo e puxando Luiz Fernando pelas mãos.

 

 

LAURINHA

 

Ela fala isso e sai puxando Luiz Fernando, que vai com ela mas continua olhando para trás, para Alice. A câmera volta para a mesa e fecha em Roberto e Alice.

 

ROBERTO

 

ALICE

 

Nisso Alice abaixa a cabeça e, disfarçadamente, fita Luiz Fernando, que já joga videogame com Laurinha. Depois de uns cinco segundos olhando para Luiz Fernando disfarçadamente, ela dá um sorriso suspeito, semi-cerrando os olhos e, nesse momento, a trila volta somente com os versos “Yes I ask you very confidentially: Ain’t she sweet?”. CORTA PARA.

 

Agora estão na mesa Alexandre, Roberto, Alice e Luiz Fernando. Luiz Fernando conversa efusivamente com Roberto algo que não conseguimos ouvir por causa do som ambiente. Ao fundo de Luiz Fernando e Roberto, vemos Alice, olhando fixamente para Luiz Fernando, sorrindo largamente. CORTA PARA

 

Sequência de cenas de trocas de olhares e sorrisos entre Luiz Fernando e Alice, com o som ambiente ao fundo. CORTA PARA.

 

 

As pessoas estão indo embora, e Roberto, Alexandre e Alice estão se despedindo. Ao se despedir de Luiz Fernando, Alice parece um pouco incomodada, tímida. Eles se despedem com beijos no rosto e a câmera flagra Alice olhando para trás enquanto vai embora, para Luiz Fernando. Tudo isso ainda com o som ambiente da festa. CORTA PARA.

 

Luiz Fernando está na cama. Pega o celular, pede o telefone de Alice para Leo e envia uma mensagem para ela. No celular, lemos o seguinte texto: “Vamos a um churrasco amanha, querem ir”? Luiz Fernando guarda o celular. DETALHE do relógio, em velocidade acelerada. Se passam uma hora e meia, até que a luz do celular acende e lemos “Nova mensagem”. Luiz Fernando abre e lemos uma mensagem, de Alice: “Pode ser. Vou falar com o Roberto, estou hospedada na casa dele. Beijos”. Luiz Fernando faz uma cara de desolado, fita o celular por alguns segundos e deita.

 

LUIZ FERNANDO

 

 Em alguns segundos, a luz do celular acende de novo e Luiz Fernando vai ver o que é. É uma mensagem de Alice, com o seguinte texto: “Luiz Fernando. 8542-5458”. Por uns instantes ele não entendeu a mensagem, no que recebeu outra, na sequência: “Desculpa. Fui salvar o seu número e te mandei uma mensagem sem querer”. Luiz Fernando dá uma gargalhada, guarda o celular e vai dormir, sorrindo muito, e pensa alto.

 

LUIZ FERNANDO

 

 

 

 

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A Fábula da Princesa e do Bardo 27/03/10

            Era uma vez uma linda Princesa de cabelos vermelhos. De cabelos vermelhos, pele alva como a espuma do mar e lindas bochechas rosadas. Ela era a Princesa na Cidade do Vento Gelado, que era, como o próprio nome diz, muito gelada. Não era uma princesa prisioneira, nem uma princesa obrigada pela madrasta a trabalhar. Não era uma princesa adormecida, nem uma princesa com rabo de sereia. Era só uma princesa. Linda, inteligente, dócil, mas ainda assim, só mais uma princesa. Morria de inveja das outras princesas, que sofriam muito no começo mas ao final viviam felizes para sempre com seus príncipes. Porque ela, apesar de não ser prisioneira, escrava, adormecida ou sereia, não havia encontrado o príncipe encantado. E, além disso, ela não era feliz. Ela namorava há alguns meses um príncipe da Cidade dos Ventos Quentes Pra Cacete. E como as cidades eram distantes uma da outra, em quase seis meses de namoro somente haviam se visto quatro vezes. Mas ela não era feliz. Ela sentia que não era ele quem ela queria. Até que decidiu viajar até a Cidade dos Ventos Quentes pra Cacete e terminar tudo. Só que o destino lhe sorriu como jamais havia sorrido antes. Mas isso fica pro terceiro parágrafo, porque eu preciso lhes apresentar outro personagem desta estória.


            Enquanto a Princesa de cabelos vermelhos vivia invejando outras princesas na Cidade do Vento Gelado, um Bardo alegre e talentoso circulava entre a realeza na Cidade do Vento Aprazível e das Mulheres Curvilíneas. Se você nunca jogou RPG e não sabe o que é um bardo, procure no dicionário porque se eu explicar a estória perde o ritmo. Eu falava sobre o bardo. Era um bardo muito esperto e talentoso que, por não ter nascido em família nobre, era livre como nenhum rei ou príncipe já havia sido. E o Bardo era muito amigo de dois condes: um da Cidade do Vento Aprazível e das Mulheres Curvilíneas e outro da Cidade onde Judas comprou um Nike Air Depois de Perder as Botas Três Dias Atrás. Eram amigos de infância, e o Bardo era padrinho do filho de um deles e muito querido pela filha do outro. Circulava entre as famílias como se membro delas fosse. Era tratado como tal, muito querido e sempre bem vindo. Suas fábulas, contos e canções sobre as crianças e sobre as famílias encantavam a todos, e o Bardo era bem quisto por todos nas duas cidades. Porém, o Bardo também não era feliz, pois as mulheres da cidade somente flertavam com ele. Só queriam uma aventura com um artista, mas depois se casavam com nobres. Nenhuma a levava a sério, e as poucas que levavam tentavam prendê-lo, cerceá-lo, e ele não queria perder seu espírito livre de menestrel. E ele estava, aos poucos, desistindo de encontrar uma mulher que o amasse sem querer mudá-lo. Quase.


            E eis que um evento aparentemente corriqueiro, o aniversário do Conde da Cidade do Vento Aprazível e das Mulheres Curvilíneas, se transformaria no catalisador da nossa estória. A viagem da Princesa para a Cidade dos Ventos Quentes pra Cacete fazia uma escala na CVAMC (para facilitar a leitura e não agravar a tendinite do escritor). E ela, querendo conhecer a cidade, esticou sua estada para três dias. E como havia conhecido o Conde da CVAMC um tempo atrás, fora convidada para o seu aniversário. Aniversário para o qual o nosso simpático e esguio Bardo também havia sido convidado. Porém ele tinha o aniversário da sobrinha do Conde da Cidade onde Judas comprou um Nike Air Depois de Perder as Botas Três Dias Atrás, e ele chegaria mais tarde ao aniversário do primeiro.


            Mas chegou. Chovia e o Bardo entrou atrasado, com seu bandolim debaixo da camisa para não molhar. Quando ele chegou, a Princesa já estava lá. Linda, os cabelos vermelhos soltos sobre os ombros e aquele olhar de estrangeiro analisando tudo ao redor. Quando o Bardo bateu o olho na Princesa, foi difícil parar de olhar. Foi amor a primeira vista, desses que o Bardo costumava cantar aos quatro ventos. Em circunstâncias normais, em meia hora ele a tiraria para dançar e destilaria sobre ela todo o seu veneno literário e poético. Porém, ela não estava com uma cara de bons amigos. Bom leitor de pessoas como é, o Bardo logou percebeu o que acontecia. Ela estava nitidamente incomodada e fechada, braços cruzados e um olhar nada convidativo. E ao lado dela estava o Bobo da Corte da Cidade. Com cara de contrariado e comendo a Princesa com os olhos, o Bobo da Corte foi a peça que faltava para que nosso astuto Bardo completasse o quebra-cabeças: o Bobo havia se declarado à Princesa, e ela o havia repelido e agora estava incomodada com a sua presença. A troca de olhares entre a Princesa e o Bardo foi intensa durante toda a noite. Também para ela havia sido amor a primeira vista, mas ela achava que o Bardo, cortejado e festejado por todos, jamais a escolheria. Mas ainda assim o Bardo a achou fechada, distante. No dia seguinte era aniversário do Conde da Cidade onde Judas comprou um Nike Air Depois de Perder as Botas Três Dias Atrás, e ele teve a audácia de enviar à Princesa um pombo correio a convidando para a festa. Ela aceitou, mas o seu anfitrião, um burguês que possuía uma loja de cartazes de propaganda, não estava muito disposto a ir. A Princesa, desiludida e carente, havia tido um affair de uma noite com o burguês, nada sério, e este, por sua vez, havia percebido as segundas intenções de nosso nobre herói. Mas a Princesa o convenceu e eles foram. Lá, ao contrário do dia anterior, ela e o Bardo conversaram bastante. Porém, o intenso calor incomodava a pele da Princesa, alva e acostumada com o vendo cortante da sua cidade,  e esta quis ir embora. Tinha carruagem marcada para a noite daquele domingo, para enfim chegar à Terra dos Ventos Quentes Pra Cacete e terminar tudo. E foi, e depois disso não mais se viram até sua viagem.


            Porém, durante a semana trocaram correspondências e algo de estranho aconteceu: uma afinidade ímpar, daquelas que só se tem com o balconista da seção de filme pornô da locadora do bairro, os acometeceu e, em poucos dias, já estavam encantados um pelo outro. Ele a convidou para ficar em sua humilde morada durante sua conexão de volta e ela aceitou, avisando que não mais ficaria na casa do Burguês. Eles contavam as horas para se ver, até que chegou o dia. Ela ficaria somente vinte e quatro horas  com ele, mas eles ansiavam por isso como se fossem passar anos juntos. O talento poético e literário do Bardo havia conquistado a Princesa, que também era uma escritora muito talentosa. Da mesma maneira, a Princesa conquistou  Bardo com seu jeito carinhoso e meigo. E passaram um fim de semana que dar inveja às outras princesas citadas no primeiro parágrafo. E a princesa percebeu que o que ela queria não era um príncipe. Que seu amado não viria em um cavalo branco com uma armadura brilhante, e sim e um cavalo velho e vestido com uma túnica xadrez e tênis Todo de Estrela. E o Bardo finalmente encontrou uma Princesa que o amasse, mesmo não sendo ele de família nobre, e que não quisesse mudar sua natureza. Pelo contrário, ela o amava exatamente por ele não ser garboso e cheio de si como os outros príncipes. E agora a Princesa não mais invejava as outras princesas. Ela agora tinha pena delas, pois seus príncipes não escreviam belos poemas e lindos sonetos, como o Bardo dela o fazia. E o Bardo desistiu da idéia de desistir de encontrar a Princesa. A havia encontrado. E ela o amava como ele era. Mais que isso: ela o amava pelo que ele era. E assim, a Princesa e o Bardo viveriam felizes por muitos anos mais. E um tempo depois, a Princesa de mudou para a Vila da Grande Poça, que fica ao lado da Cidade do Vento Aprazível e das Mulheres Curvilíneas e correu para os braços do nosso Bardo, que é onde mora nosso herói. E a Princesa e o Bardo viveram felizes para sempre. E se a Disney quiser comprar essa estória, eu quero o Robert Downey Jr. para o meu papel, e o Morgan Freeman para o narrador. E a Sandra Bulock pro papel da Princesa.
 

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Capítulos I e II do meu romance 23/03/10

 Bom, negada, é chegada a hora. Os dois primeiros capítulos do meu romance. Já tinha postado o capítulo zero. Estes são o I e o II. É um texto longo, então, se você não gosta de textos longos, não leia. Os capítulos são versões diferentes do mesmo fato. Sempre se intercalarão as visões do Pedro e da Júlia. Espero que vocês gostem. Dúvidas, críticas, elogios, pedidos de casamento e fotos nuas serão bem vindos.

 

p.s.: o texto não está revisado. Portanto, se encontrarem um erro, ao invés de fazerem um Porra Léo Luz!, me avisem.

 

Prólogo

 

    Eu queria começar este livro dizendo que esta é a história de amor mais triste já escrita. Ou a mais bonita. Mas não tenho essa pretensão. Sendo eu um leitor voraz e visitante constante das páginas dos clássicos, não teria a pretensão de dizer sequer que ela é, genericamente falando, a melhor história de amor que já vi. Já vi dezenas de histórias de amor, e já vivi outras tantas. Entretanto, e isso é a mais pura verdade, talvez ela seja a história de amor mais verdadeira da qual tenho notícia. Não pela minha habilidade como narrador, longe de mim tamanha falta de modéstia, mas pela sua natureza. E antes que me perguntem, a segunda versão da história não foi inventada por mim. E como, infelizmente, ainda não fui agraciado com o dom da telepatia, ela me foi transmitida à moda antiga: através de longas e esparsas conversas. 

    Sua natureza, dizia eu, é o que me parece que lhe dá a autenticidade. É uma história de amor contada pelos dois lados, ainda que me tenha doído bastante ouvir as divergências entre a minha versão e a dela. E em virtude da minha falha memória, não serão todos os trechos que terão esse tratamento especial. Somente os mais importantes. Por favor, não pré-julguem nenhum dos dois personagens desta história. Toda humildade, empáfia, timidez, ingenuidade, maldade, enfim, toda a sorte de sentimentos que povoa essa história deve ser analisada a luz do momento, como um todo. Jamais isoladamente. Porque é exatamente disso que se trata isso tudo: de um todo. Isto que venho lhes apresentar é muito mais que uma história de amor, é o todo, o conjunto que vai desde meses antes do início da história até muitos anos após o seu final. Ou seu então final. Ou o seu não final. Não vou adiantar nada, pois o narrador tem família para criar e precisa que você, caro leitor que está lendo este prólogo em pé na livraria, compre o livro, o leve para casa, o leia e fale bem dele a todos os amigos. 

    Deixo a critério de vocês decidir se esta história é a mais bonita, a mais incrível, a mais romântica ou a melhor história de amor que já viram. Não que eu ache que ela seja, nem que eu ache que não seja, pois falsa modéstia não é das minhas qualidades preferidas. Só posso lhes garantir – repito – que tudo o que vocês lerão nestas páginas é um complexo raio X – com o perdão da má comparação – de uma bonita, singela e em alguns pontos muito engraçada história de amor.

    

 

 

 

Capítulo um – Foi assim (Pedro)

 

Eu tinha dezenove anos. Ou dezoito, talvez vinte, por aí. Naquele dia eu estava de péssimo humor, e se fosse hoje em dia eu não me preocuparia, pois todo mundo sabe que história de amor que se preza sempre começa com um dos dois de muito mau humor, até que os dois se encontram. De péssimo humor, dizia eu. Eu fazia aulas particulares de inglês há cinco anos. Havia feito alguns cursos, coisa e tal, mas nunca havia me adaptado a nenhum deles, e agora eu precisava de um diploma. Procurei um curso qualquer, só pra freqüentar uns meses de aula, pegar meu diploma e voltar pro meu mau humor rebelde sem causa adolescente. Nada demais. 

E de péssimo humor eu cheguei o primeiro dia de aula no curso novo. Aquele clima de secretaria de curso de inglês já era o suficiente pra me fazer desistir, mas me distraí com algumas meninas que saracoteavam por lá e fiquei. Principalmente uma gostosa de casaco de tricot com a cara mais blasé do mundo, que estava conversando com o segurança do curso. Ela tinha a bunda e os peitos mais sensacionais que eu já tinha visto. Recuperei o foco e fui à secretaria, me identifiquei e uma moça bem simpática – que mais tarde vai virar personagem dessa estória – me disse que esperasse a professora, pois as aulas já haviam começado e eu deveria conversar com ela. Talvez com pena da minha cara mais entediante que itinerário de elevador, a menina me adiantou que na minha turma havia sete mulheres e somente um homem. Dois agora comigo. Bom, pelo menos isso.

Voltei pra minha cadeira e fiquei lendo um pouco. Quando levantei a cabeça, uma mulher de uns vinte e poucos anos estava conversando com a menina da secretaria, e olhando pra mim. A tal mulher se afastou da secretaria, foi em direção à porta de uma das salas e fez sinal para que eu fosse até ela. Catei minhas coisas e fui até lá, com a maior cara de entediado do mundo, pra ver se ela já percebia que eu não tava pra muita conversa. Ela parou na porta da sala e falou comigo.

 

- Olá! Você deve ser o Pedro. Bom, meu nome é Kátia, eu sou a professora. As aulas começaram semana passada, mas você não deve ter problemas pra acompanhar a turma. Vamos entrar?

- Vamos, né – Eu tinha opção?

 

Ela entrou na sala e parece que todo mundo já estava lá. As pessoas estavam sentadas meio juntas, em grupinhos de dois ou três. Perto da porta tinha uma menina morena, bonitinha até. Entre ela e a porta tinha duas cadeiras vazias. Pra não parecer chato, deixei a do meio vazia e me sentei na outra. Sentei, botei minha mochila no chão e já ia puxar assunto com a menina do lado quando tudo ficou em câmera lenta. As vozes foram diminuindo e começou a tocar “Aint she nice”, dos Beatles. Aí eu percebi que aquilo era uma cena romântica e fiquei quieto pra não perder nada. Foi quando entrou – ainda em câmera lenta – Ela. Lembram da gostosa de casaco tricot conversando com o segurança lá no segundo parágrafo? Então, era ela. Ela entrou com um chocolate e uma garrafa d’água nas mãos, soltou o cabelo – sempre em câmera lenta, claro – e botou a bolsa e a água na cadeia que ficou entre mim e a outra menina. Enquanto acabava de prender o cabelo em um rabo de cavalo ela olhou em volta e me viu. Me desculpem o linguajar, mas quase me mijei nas calças. Ela fez uma cara de “que porra é essa?” quando me viu, e eu desviei o olhar. Foi quando a professora salvou a minha vida.

 

- Olá, Júlia. Senta, senta. Bom, pessoal, esse é o Pedro. Ele vai fazer esse semestre com a gente.

 

Enquanto a professora falava eu fitava os peitos de Júlia como se tivesse hipnotizado, que nem um tarado. Júlia virou pra mim agora com uma cara meio de dúvida, com um rápido sorriso debochado. A professora, mais uma vez, me salvou.

 

- Pedro? Pedro? Pedroo! – Ela tentou me tirar do transe

 

Eu me virei desesperado e só tive reflexo de balbuciar um “oi, pessoal… Desculpa, é que eu tava pensando em outra coisa…”. E a professora, que de tanto me salvar já merecia uma medalha, falou com Júlia.

 

- Júlia, o Pedro está sem o livro, você pode sentar com ele pra ele poder acompanhar a aula.

- Uhum – Júlia balbuciou mexendo na bolsa, sem nem olhar pra professora, muito menos pra mim.

 

Júlia sentou, pegou o livro na bolsa, abriu em uma página qualquer e falou comigo como se me conhecesse há anos.

 

- Oi, Pedro. Então, como ela já falou, eu sou a Júlia. Eu ia falar com você antes, mas não quis atrapalhar seus “pensamentos”. – Eu queria deixar claro aqui que ela falou a palavra “pensamentos” virando a cabeça meio de lado e dando uma piscadinha. Ou seja: ela não só me viu querendo mergulhar dentro da blusa dela como ela queria que eu soubesse disso e desejasse morrer.

- Er… Oi, Júlia. Tudo bom? Pô, desculpa, eu tava distraidaço mesmo. Pode deixar que essa semana mesmo eu vou comprar o meu livro, ta? Desculpa te atrapalhar.

- Que nada, relaxa. Pode ler comigo. Mas se eu precisar me levantar e você resolver “pensar na vida” de novo, só cuidado pra não babar em cima do meu livro. – Nem preciso falar da piscadinha no “pensar na vida”, e depois deu o sorriso mais lindo do mundo. Eu não tinha onde enfiar a cara. Aliás, pelo que ela disse, ela sabia muito bem onde eu queria enfiar a minha cara…

 

Eu fingi que não entendi, sorri sem graça e comecei a procurar uma caneta na mochila, abaixei a cabeça e disse “Pode deixar, vou tomar cuidado”, completamente constrangido. Ela riu e eu ri também. De nervoso, mas ri. Foi quando a professora, pela quarta vez, me salvou da morte por envergonhamento.

 

- To atrapalhando vocês? Se vocês quiserem eu paro a aula pra não atrapalhar a conversa. – Ela disse, meio que sorrindo.

 

Nós dois balançamos a cabeça negativamente juntos. Eu abaixei a cabeça e fingi que tava lendo o livro e percebi que Júlia estava me olhando fixamente. Claro que eu não tive coragem de olhar pra ela, mas ela com certeza percebeu meu sorrisinho involuntário e eu pude reparar O olhar nela. Um olhar que me fez ter a certeza que ela seria minha, o que mais tarde eu iria descobrir não ser tão fácil assim, muito menos tão verdade. Ninguém notou. Quer dizer, ninguém notou, mas ela com certeza já sabia de tudo. Essa seria a nossa tônica: ela sempre sabendo de tudo, e eu sempre achando que sabia de tudo. Meu pensamento não podia estar mais longe da verdade. E essa tônica seria o nosso fim. E também o começo. E se vocês acham que eu estraguei a surpresa dizendo que já sabia que ela ia ser minha, vocês ainda não viram nada…  

 

 

 

Capítulo dois – Foi assim (Júlia)

 

Eu tinha acabado de terminar o segundo grau, ia me formar no inglês e entrar na faculdade no próximo semestre. Eu tava me sentindo poderosa, linda, prestes a dominar o mundo! Os primeiros dias depois que se termina o segundo grau são realmente mágicos, a gente se sente livre, e sabe que agora que a vida vai começar de verdade. Mas tinha uma coisa na minha vida que atrapalhava essa felicidade toda e despertava a poetisa depressiva dentro de mim: meu namorado, o Ronaldo.

Eu tinha dezessete anos, e só pra ratificar, o idiota lá do capítulo anterior não tinha nem dezoito, nem dezenove nem vinte, ele tinha vinte e um. E eu, dezessete. Mas deixa eu falar do Ronaldo. Nós namorávamos há três anos. No início era perfeito, como todo namoro é no início. Mas depois, por ser mais velho, as rotinas começaram a se desencontrar. Ele saía com os amigos sem mim duas ou três vezes por semana, ficava dias sem me ligar, não queria sair pra dançar ou pra ir ao cinema comigo, só queria me ver para fazer sexo. E como toda adolescente, eu ainda precisava de um namorado amigo, companheiro e blábláblá. E não tinha.

Mas se tem uma palavra que me descreve, como vocês já viram no primeiro capítulo, essa palavra é “blasé”. Eu não ia deixar um namorado chato e provavelmente infiel estragar meu bom humor e a minha vontade de dominar o mundo. E naquele dia eu queria mais do que tudo não deixar isso me incomodar. Cheguei mais cedo ao curso de inglês pra ficar de papo, mas não tinha ninguém conhecido. Então fiquei conversando com Cadu, o segurança. Sem falsa modéstia, eu sei que sou bonita e que chamo atenção, então naquele dia, ficar conversando com alguém bem no meio do pátio de entrada seria um bom começo pra minha semana.

Eu estava acostumada aos olhares incisivos e nada discretos pros meu peitos e pra minha bunda, mas tinha um garoto sentado sozinho que parecia que nunca tinha visto mulher na vida. Ele tava conversando com uma das meninas da secretaria, e depois só faltou pedir uma pipoca e um refrigerante pra ficar olhando pros meus peitos com mais conforto. Mas eu me distraí na conversa e de repente ele sumiu. Claro que eu não tava interessada naquele magricelas de brincos e All Star, mas achei curioso o jeito dele de Dom Casmurro ninfomaníaco.

Alguns minutos depois eu vi que a aula já tinha começado. Me despedi do Cadu e fui pra sala. Peguei um chocolate e uma água na cantina e entrei na sala. Quando eu entrei o pessoal tava conversando, e uma musiquinha chata, acho que dos Beatles, tava tocando baixinho. Entrei, botei a bolsa em uma cadeira e olhei em volta. E adivinha quem tava sentado na cadeira bem do meu lado, quase babando olhando pro meu decote? O magrelo da secretaria. A professora apresentou ele à turma; disse que o nome dele era Pedro, e que ele ia ficar com a gente um semestre. Coitado, deve ter morrido de vergonha quando me viu sorrindo debochada da cara de idiota que ele tava fazendo. A professora me pediu pra sentar do lado dele porque ele tava sem livro e eu falei que não tinha nenhum problema.

Eu sentei, peguei o livro e falei com ele. Tadinho, eu nunca tinha visto ninguém tão sem graça. Ele pediu desculpas e falou que ia comprar o livro aquela semana ainda, mas eu disse que não precisava se preocupar. Aquilo ia ser bem divertido… Até porque, mesmo tendo me comido com os olhos, ele me pareceu meio nerd, meio bicha… E devia pesar no máximo uns 60 quilos! Aquilo ia ser engraçado…

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Mais que uma estória de amor – Capítulo Zero 09/03/10

Este é o primeiro capítulo do meu próximo livro. Espero que gostem.
 
 


    "Julia, vamos ao cinema hoje?". Essa frase simples, banal, que é dita milhões de vezes todos os dias, foi o recomeço de tudo. Pedro havia ganho dois convites para uma pré-estréia e havia chamado outra pessoa, que havia recusado o convite pois nosso herói estava apaixonado por ela e ela tinha namorado e não queria confusão. Mas essa recusa, que em princípio deixou Pedro bem abalado, veio a se tornar um divisor de águas, como os amigos poderão ler já, já. E se deu que sem a companhia de sua mais nova paixão ele resolveu chamar uma amiga que ele tem certeza que gostaria do filme: Julia. O convite foi feito sem absolutamente nenhuma segunda intenção. Julia havia perdido o noivo, com quem se casaria em alguns meses, em um acidente aéreo e Pedro não seria capaz de nada a não ser fazer o que eles sempre fizeram um pelo outro: be there. E o convite foi feito e prontamente atendido.


    Se encontraram perto do cinema e, enquanto caminhavam, a própria Julia fez uma observação deveras importante para o andamento da nossa história. Enquanto andavam, ela falou um pouco sobre o noivo e, quando viu que ela iria chorar, Pedro segurou sua mão e deu um abraço nela. Normal, até aí nada demais. Porém, eles continuaram andando de mãos dadas, até que ela olhou paras as mãos e disse rindo:

    – Olha! É a primeira vez que nós andamos de mãos dadas! Nosso primeiro encontro de verdade em público.

    Neste momento eu devo exercer minha autoridade de narrador onipresente e explicar. Fazia onze anos desde a primeira vez em que Pedro e Júlia ficaram. Onze anos. Neste período, não houve um dia, um segundo sequer, que eles tenham se encontrado estando ambos descompromissados com outras pessoas. Foram onze anos. Onze anos, três mil, setecentas e oitenta e duas horas juntos, setecentos e doze beijos e sete namorados – ou namoradas – pra cada lado desde o primeiro beijo. E desde lá, nunca haviam andado de mãos dadas. Eu não disse quase nunca. Eu disse nunca. Sempre se encontravam quando um ou outro estava namorando ou enrolado, desde a primeira vez. E antes que me perguntem, estes dados são meus, logicamente que nenhum dos dois sabem estes números. E como eu sei? Eu sou O Narrador Onipresente. Eu sei de tudo, ora bolas.


    Bom, terminado o flashback romântico, voltemos aos dias de hoje. E de mão dadas eles entraram no cinema. Enquanto faziam hora para entrar na sala, entraram em uma livraria e lá passaram nada menos que quarenta minutos simplesmente andando e conversando. Neste meio tempo, a cabeça do nosso herói começou a ventilar idéias que não deveriam estar por lá. E nestas idéias, ele começava a ver Julia como mais que uma melhor amiga. Ele começou a vê-la como a quase namorada de onze anos atrás, que agora poderia, finalmente, sê-lo. E enquanto andavam, e andavam, e andavam, Julia agia com a inocência com a qual sempre agia com ele: falando pertinho, abraçando etc. Como alguém que fala com alguém de muita confiança, sem medo de nada.

    Avessa à essa confusão pela qual passava a pobre mente de Pedro, Julia vagava e vagava pela livraria, como uma orgulhosa fada caminha por entre suas flores preferidas. De repente, como se saísse de um transe, ela fala como se tivesse lembrado que esqueceu o ferro ligado em cima da cama:

    – Ei, eu não tenho seu livro! Nem o autógrafo! Eu li e reli aquilo mil vezes, revisei e nem tenho um!
    – Não tem?? Como assim? Vou te dar um, tá na mala do carro.
    – Acho bom, não volto pra casa sem o livro e sem o autógrafo do autor com uma dedicatória  daquelas pra quando você morrer eu usar ela como prefácio do meu livo!
    – Só o autógrafo? Não quer levar o autor pra casa também não? Até porque, eu vou passar uma vergonha tremenda se eu tentar te beijar e você recusar. Não estamos mais no meu quarto.

    E depois deste arroubo improvável de perspicácia e coragem, nosso herói, com as pernas mais bambas que castelo de cartas perto do ventilador, beijou Julia. E ali, na frente da seção de Psicologia Canina, bem escondidinho, Julia virou o rosto e recusou o beijo.

    – Desculpa pela vergonha… – Julia disse isso e saiu um pouco de perto. Pedro fcou triste mas entendeu, em virtude do que havia acontecido antes. Saíram da livraria e foram para a fila. Em alguns minutos a constrangedora situação já havia sido esquecida, e a conversa seguia animada. Entraram na sala e se sentaram bem na frente. O file era ótimo e tinhas várias passagens que causaram trocas de olhares entre os dois. Mas, já desesperançoso, Pedro sequer tentou algo. Com muito receio ele passou o braço por cima da poltrona, e, inesperadamente, Julia puxou sua mão e se aninhou no seu ombro. Aquela mulher de um metro e setenta e cinco de altura estava agora com as pernas dobradas de lado, com o braço de Pedro ao redor do seu pescoço, aninhada no seu ombro, com uma mão entre as pernas e a outra fazend carinho na mão de Pedro que caia sobre seu colo. E assim eles viram, na tela, beijos abraços, cenas de sexo e brigas. E Julia lá, aninhada, como uma menininha que vê um filme nos braços do pai, protegida do mundo.


    O filme acabou e eles decidiram ir andando até o carro, que havia ficado uns cinco quarteirões à frente. Ao sair do cinema, Pedro pegou a mão de Julia, e disse: "Agora a gente pode!", e Julia riu e deu a mão a ele. E eles andaram bons três quarteirões assim: de mãos dadas, balançando as mãos como dois adolescentes, conversando, rindo… Falando banalidades, sem preocupação sem parecerem inteligentes ou cultos. Aquela caminhada seria uma cena perfeita de um filme romântico, com os dois andando entre mendigos, pedintes, bêbados, passantes, estudantes e toda a sorte de gente que vaga pelas ruas nas madrugadas. Tudo alheio a eles. Nada importava, nada lhes chamava a atenção, nada os amedrontava, nada os prendia. Só eles dois existiam naquele momento. E eis que, como diria o poeta, não mais que de repente, Julia parou e, com um movimento brusco, tirou o braço de Pedro que lhe envolvia o pescoço. Pedro já abaixou a cabeça, arrependido, pensando que havia dito algo que a tivesse magoado. Neste momento, ela o puxa pela mão e o beija. Assim, só beija. E eles se beijam assim. Sem medo, sem cobrança, sem ter que esconder, sem preocupação. Só um beijo. Fora o primeiro beijo só deles, sem namorados, namoradas, casos, ninguém. Depois de onze anos, três mil, setecentas e oitenta e duas horas juntos, setecentos e doze beijos e sete namorados – ou namoradas – pra cada lado, eles finalmente deram o primeiro beijo deste novo recomeço. Mesmo sabendo que todo recomeço é novo e que isso é pleonasmo. Fica muito mais bonito. E pra vocês não ficarem curiosos – ou ficarem ainda mais curiosos – nos próximos capítulos eles vão contar como tudo começou, até chegar aqui. Eu acho que eu faria melhor o trabalho de narrador, mas eles quiseram contar por eles mesmos, fazer o que…

 

 

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A italiana 07/03/10

 
Um amigo me mandou esta carta-email e pediu para que eu publicasse. Me autorizou a mexer no texto, e eu, claro, mexi, adaptei, tirei seu nome e romanceei um pouco, pra vocês. Espero que gostem. Vamos lá.

 


“Camarada,

Você sabe que terminei meu noivado faz alguns meses. Foi um pouco traumático, como você mesmo sabe. Prometi para mim mesmo que não iria me envolver com ninguém por um bom tempo, mesmo sabendo – como todos os que prometem isso sabem – que essas promessas nunca duram muito. Inclusive prometi lhe visitar, mas mais uma vez não consegui ir.

Ah, claro, a promessa. É, amigo, a promessa, como era de se esperar, foi por água abaixo. Não só me envolvi como, em seis dias, estou perdidamente apaixonado por uma pessoa que conheci, como já disse, há seis dias. Isso mesmo, seis dias. Logo eu, que sempre demorei a aceitar a idéia de tentar um namoro, que sempre pensei cinco vezes antes de deixar alguém entrar na minha vida. Como esta carta vai para o seu blogue, não vou nomeá-la. Vamos chamá-la de, hhmm, a Italiana. Não, camarada, ela não é italiana de verdade, é só descendente, como o sobrenome denuncia, e como você saberia, caso eu lhe contasse seu sobrenome.

Quer dizer que eu me apaixonei em seis dias? Não, não. Foi em duas horas. Três e meia, pra falar a verdade. Eu e a Italiana já nos conhecíamos, mas não pessoalmente. Nos conhecemos em um fórum sobre fotografia do qual ambos somos habituées. Isso há anos. Mas um belo dia, estávamos conversando e chegamos a conclusão de que ela morava há menos de quinhentos metros do meu trabalho. E decidimos sair para comer alguma coisa. Não comi o que você pensa que comi, mas essa noite foi fatídica.

Como quase recém solteiro, em um dado momento o papo descambou para a minha ex e as outras ex e por que eu, com trinta e cinco anos, ainda não era um sujeito casado e sossegado. Falei dos problemas que tivemos, dos meus problemas, dos problemas dela, problemas estes que você já está cansado de saber, amigo, e não preciso elencá-los aqui. Mas enfim, durante a conversa, percebi que a Italiana era uma compilação de tudo o que eu gostava em uma mulher, e que abominava, tanto quanto eu, certas características que foram primordiais para o não sucesso de meus relacionamentos anteriores. E ela? Bom, ela se encantou quase que igualmente por mim. Quase.

O quase fica por conta de um simples motivo: ela tem vinte e três anos, e está em uma fase prática – nas palavras dela – e não quer se deixar envolver, pois tem planos de viajar para a Europa no meio do ano e planos profissionais, que ela acha que seriam, digamos, atrapalhados, caso uma paixão a arrebatasse a alma, como diria o poeta. Simples assim amigo. E sabe quando você tenta me convencer a gostar mais dos Stones que dos Beatles ou quando sua mulher tenta me convencer a acreditar em Deus? Pois é, ela está tão irredutível com relação a isto quanto eu sou nessas situações. Ela acha que eu seria um ótimo namorado, que eu sou um sujeito sensacional, que ela seria feliz ininterruptamente vinte e quatro horas por dia; mas não é o que ela quer agora. Veja que azar, amigo. É como se eu encontrasse um Pontiac GTO 1972, lindo, conservadíssimo, e tivesse o dinheiro para comprar, mas o dono não quisesse vender porque iria desmontá-lo e usar algumas peças no seu Chevette. Além de azar, um desperdício completo.

E você me pergunta se ela não é assim? Uma pessoa avessa às coisas do coração. Qual nada, camarada, qual nada. Ela é como nós. Ela precisa estar apaixonada para ser feliz. Logo, como você espertamente deduziu, ela não está feliz. Mas não quer estar agora. Ela tem essa idéia fixa de que um amor agora atrapalharia seus planos, no que eu discordo – como eu costumo dizer – cento e cinqüenta por cento. Acho que ela seria muito mais feliz em todos os setores de sua vida caso se deixasse levar. Mas não adianta. Ela é cabeça dura como só uma menina de vinte e três anos com planos de vagar pela Europa fotografando pode ser. Nós entendemos, já tivemos esta idade. Já tivemos este sentimento Born to Be Wild. Mas passou. E o dela também vai passar. Mas eu, do alto do meu egoísmo, queria que passasse agora, amiguinho.

Caso passe agora ambos concordamos que seria o relacionamento mais promissor de nossas vidas. Mas, mesmo sabendo isso, ela não quer. E, com medo de ceder, me pediu para não tentar mais fazê-la adiar ou compartilhar seus planos comigo. E foi o que aconteceu. E isso em sete dias. Tá bom pra você, camarada? Te surpreendi desta vez, hein?! Mas fica tranqüilo, tá tudo bem. Quanto menos se sobe na árvore, menos se machuca quando se cai. Eu queria muito subir mais e me machucar mais, mas não depende só de mim. É isso, amigo. Como disse o poeta, Um beijo na família, na Cecília e nas crianças, o Francis aproveita pra também mandar lembranças. Obrigado pelos ouvidos atentos e sempre dispostos a ouvir os lamentos deste amigo mais azarado que massagista da seleção Sueca de bronzeamento com a mão quebrada. Nos vemos em breve. E, se o destino quiser, conhecerá a Italiana pessoalmente. Aí você vai entender tudo.

Ósculos e amplexos, do amigo, J.R.”

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Humor no Twitter, ou, Ary Toledo Feelings. 22/02/10

 

          ary toledo Já que está na moda escrever sobre humor na internet, não vou poupar o mundo das minhas geniais e modestas opiniões. Bom, pra começar, vamos botar um pingo que fugiu do “i” e foi parar em um desavisado “o”. Há de se diferenciar humor de comédia. Humor é qualquer coisa que faça rir: uma piada, uma historinha engraçada, uma imitação, isso é humor. Daí HUMORISTA Stand Up. Por isso Ary Toledo era HUMORISTA. E comédia? Bom, comédia é o uso do humor de maneira dramatúrgica. É o uso do humor na dramaturgia. Uma novela, uma série, um livro, uma peça de teatro etc. Definido isso, vamos pra frente que atrás tem gente.
           Logo, o “manifesto” do Danilo Gentili é o manifesto de um HUMORISTA, não de um COMEDIANTE. E já que ele falou do mercado americano, uma “pequena” diferença entre lá e cá: lá, geralmente, um humorista de sucesso migra para a comédia, e vira roteirista ou redator. Por isso não cabe a comparação que ele faz, já que aqui o buraco é mais embaixo. Por aqui, são poucos os humoristas que migram para a comédia, mas estes poucos fazem valer a pena, como o Bruno Mazzeo, o Fernando Caruso, o Nizzo Neto, o Fábio Porchat, o Marcelo Adnet, o Gregório Duvivier, o Cláudio Torres Gonzaga etc. Mas, infelizmente, muitos deles – como parece ser o caso de quase todos os membros do CQC – ficam somente no humor. Eu disse parece porque não sou profundo conhecedor de suas biografias. E disse quase todos porque o Tas não entra nesse balaio. O Tas é um nível acima.
           Por isso os “humoristas” fazem mais sucesso nas redes sociais do que os comediantes. E o motivo deste sucesso na verdade, é também motivo do meu mau humor e  da minha implicância com eles (humoristas). O humorista de internet – vamos especificar: do Twitter – não é um cara que vive escrevendo dramaturgia, histórias, contos etc. Os profissionais – que ganham a vida com isso – vivem de fazer piadas. E deles se espera – pelo menos os fãs esperam – piadas! Então o Twitter dos humoristas só tem piada. Todo dia, o tempo todo, sobre qualquer assunto. Já o comediante não. Ele vive de comédia, não de piadas pontuais. Imagina o Mazzeo escrevendo microcenas do Cilada no Twitter? Nem ele faria nem o faz. Esses caras que citei aí em cima são pessoas físicas no Twitter: torcem pelos seus times, fazem elogios, reclamam, conversam. Eles não fazer to Twitter um palco virtual de um show de piadas.
           Mas aí você, leitor fã do Gentili, do CQC e do Pânico, me pergunta: mas piada é chato? Não, claro que não! Minha maior frustração na vida, depois de não ter ganho meu primeiro milhão antes do trinta e nunca ter comido a Luana Piovani, é não saber contar piadas. Se eu contar uma piada eu vou enfiar tanto detalhe nela que no final você nem vai lembrar do que se trata. Mas como se diz lá na minha terra, tudo demais é muito. Tudo que você faz muito enjoa. Menos ter um milhão e comer a Piovani. Imagino. Pra gente é muito bacana ouvir piada do Ary Toledo, mas se ele for como esses caras do Twitter, imagina ser filho dele? Piada de manhã, de tarde, de noite, piada no dentista, piada no carro, piada na oficina, piada no restaurante. Além de enjoar perde e espontaneidade.
           E isso provoca um fenômeno que eu acabei de batizar de “Assunto Pouco Minha Piada Primeiro”. São as chamadas piada obrigatórias. Dia da Consciência Negra, Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia da Amante, tudo é motivo de piada, o que acaba resultando em um sem número de piadas iguais e sem graça. Inclusive as do nosso amigo Gentili e de seus irmãos de preto. E aí, morre alguém, piada, nasce alguém piada, alguém engravida, piada, alguém é preso, piada. Mas então esses caras não fazem sucesso? Todo mundo acha eles uns malas? Qual nada, eles têm dezenas de milhares de seguidores, que retuitam e passam o dia rindo deles. Mas esse público não é o público da comédia de teatro, do Cilada, das sitcons mais elaboradas. É o público do Casseta e da Praça é Nossa, que também têm, claro, o seu valor, mas é um público que quer ouvir piada, sem tirar. Um público que não quer dramaturgia, que achou Os Aspones chato, que prefere stand up e piadas a uma peça ou um seriado de humor mais denso. Algo errado com isso? Lógico que não, eu acho o stand up dificílimo, e não tento por achar que não tenho talento pra isso. Mas que são públicos diferentes, são.
           E eu, como cara de texto, prefiro comédia a humor. Humor é legal, mas pra fazer boa comédia é preciso muito mais do que ser só engraçado. Você tem duas opções: ou você é filho do Chico Anysio ou você é um gênio. Estilo Monty Python. E fazer piada no Twitter não faz de ninguém comediante. Nem de um CQC nem de ninguém. E Twitter potencializa o que eu falei do público alvo. Com cinco, dez mil seguidores no Twitter, os perfis de humor se vêem na necessidade – cada vez mais – de fazer graça com tudo. E ter cinco, dez mil pessoas lendo e achando o que você escreve muito engraçado mexe com o ego das pessoas. Eu, por cem leitores por dia, já tenho o ego do tamanho dum bonde. Eu, por exemplo, só sigo um perfil de humor no Twitter, que é o @microcontoscos, que faz piada mas é meu amigo de infância, aí a gente releva, sabe como é. Os outros, se eu quiser ler piada compro o livro do Ary Toledo. Até porque, fazer piada é uma coisa, escrever uma peça, um roteiro de série de quarenta minutos por semana ou um filme são outros quinhentos. E antes de vir com a conversa do “eu tenho dois bilhões de seguidores. Se eu não fosse bom não tinha”, se lembre de que um dos maiores fenômenos da música brasileira, com milhões de discos vendidos, é a Banda Calypso, por exemplo…

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Mudanças 05/02/10

Bom, amigos, bons ventos trazem mudanças. Em virtude da minha vida profissional mais conturbada do que dia dos pais em puteiro, não tenho atualizado o blog como antes. Porém tenho pensado em textos pequenos e comentários sobre os mais diversos assuntos. Então, pensando exclusivamente em atrair leitores preguiçosos nas minhas dezenas de milhares de leitores, decidi mudar: o Ego agora não mais será um blogue somente de crônicas, e sim um blog de opinião!


Além do mais, "Blogue de Opinião" é muito mais bacana, mais moderno e tal. Então é isso. E claro que eu não vou abandonar as crônicas, vou tentar manter uma por semana ou algo perto disso. E intercalar os textos grandes com um conteúdo mais opintativo, rápido e de fácil atualização. Bom, é isso, galerinha do barulho. Tâmo junto, misturado e porra!, de quem é essa mão na minha bunda??


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