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Mais chuva e menos USB, ou, VIVAM DE VERDADE! 22/12/10

 

          O tema é clichê. Muito já se falou sobre essa coisa de vida online, vida offline, saia da internet e vá ler um livro etc. Mas eu vou falar também. Vou dar uma visão de alguém que trabalha com redes sociais, e detesta do fundo do coração cada uma delas. Pra começo de conversa, eu acabei de excluir meu Orkut. Pra quem não acredita, procura lá por Léo Luz ou Léo Alcoforado. Não tem mais. Por que eu fiz isso? Porque eu quero, cada vez mais, tirar minha vida da internet. Nada dessa palhaçada de privacidade não. Quando eu digo vida, quero dizer contato com as pessoas e coisas. E é exatamente esse o ponto do meu texto.

           Na internet é muito fácil ser popular. É muito fácil ser amado, ser o amigão, o cara que todos queriam conhecer. Mas essa facilidade é falsa. Ela se dá simplesmente porque na internet você só mostra às pessoas seu lado bom. Você não convive. Não divide nada. Não conversa horas a fio pessoalmente, olhando na cara. Na internet é muito fácil ajudar as pessoas achando um link ou ensinando uma bobeira qualquer sem importância.

           Mas na internet as pessoas não precisam do seu guarda-chuva em dia de chuva. Na internet ninguém precisa de cafuné depois de um dia cansativo. Na internet ninguém te pede pra ensinar origami, pra ensinar a fazer mágica com moeda ou pra trazer um guaraná quando você for na padaria comprar cigarros. Na internet não dá uma piscadinha pruma amiga que tá triste, você não cobre a sua namorada com o lençol porque agora tá frio, mas quando ela foi dormir tava calor e ela está descoberta. Na internet seu namorado não fica chateado porque ele chegou cansado do trabalho e você foi ficar no computador.

           Na internet é mais fácil pedir desculpas. É mais fácil aparecer depois de semanas sumido. Então, amigos, escutem este jovem velho de trinta anos: fiquem menos na internet, e mais com seus namorados, namoradas, amigos, família, porteiros, o que seja. Dêem mais atenção pra quem se importa e cuida de vocês DE VERDADE. Não pra quem lembra de você só porque o Orkut lembrou do seu aniversário. Cuidem das pessoas que pegam chuva por você, que te ensinam a assoviar, que levam chocolate pra você no trabalho. Se preocupem mais com as pessoas com as quais você briga falando de futebol, com as pessoas que vão realmente estar do seu lado quando você precisar. Porque mandar um recado no Facebook é fácil, difícil é sair na chuva só pra dar um beijo na sua namorada.

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Como é ter um gato (pra alguém que não gosta(va)de gatos) 29/11/10

    Eu tenho trinta anos e nunca tive um gato. Já tive, ao todo, sete cães. Entre Dobermans, Pastores Alemães, Cocker Spaniels e Boxers. Desde criança, até os 24 anos sempre tive ao menos um cachorro em casa, até que vim morar em apartamento. Sempre fui um amante de cães, e como tal, nunca tive nem nunca quis ter um gato. Mas eis que quis o destino que eu precisasse me mudar para outro apartamento, o que vai acontecer nos próximos dias. E quis também o destino que a minha namorada fosse uma amante de gatos. Como ela veio de outro estado só pra ficar comigo e ia ficar sozinha umas semanas no apartamento, engoli meu orgulho e dei um gato de presente pra ela. É esse ei da foto.


    Bom, o nome dele é Ringo. Eu o peguei de uma menina que acolhe gatos abandonados, trata dele e procura novos lares pra eles. O trabalho dela é bem legal, conheçam no site dela. Bom, pra começar que o desgraçado arranhou minhas mãos todas só pra entrar na porcaria da caixinha. Fiz a surpresa, ela adorou, chorou e levamos ele pro apartamento. Aí começam as minhas impressões de um gato.
Pra começar que gato é burro. O idiota fica meia hora correndo atrás de uma sacola plástica e não percebe que somos nós que mexemos as coisas. Ele acha que elas se mexem sozinhas, e vai, como um tigre faminto, atrás delas. Um tigre meio burro, mas um tigre. Outra coisa que notei: gato é de lua. A minha namorada também é, mas pelo menos ela não me arranha todo. Quer dizer, não quando eu não quero. Ele passa vinte minutos correndo atrás do urso de pelúcia dele e caçando minha sandália, e dois minutos dormindo, ora no MEU travesseiro, ora em cima da cabeça da minha namorada, ora em algum lugar que atrapalhe bastante qualquer pessoa que esteja por perto.


O Ringo é carinhoso quando quer, e caça nossas mãos e braços quando quer. Ele ora morde a gente, ora pede carinho. Não tem hora nem lugar. E como ele é pequeno, o passatempo preferido dele atualmente é escalar: ele escala o fogão, a escada, as paredes, as bolsas, nossas pernas, tudo que é mais alto que ele ele tenta escalar. Na maioria das vezes sem sucesso, mas ele cai e volta. É engraçado ver uma bostinha de um quilo pensando que é uma onça, e escalando escadas, caçando bonecas e destroçando perigosíssimas moscas.


Mas o Ringo tem algumas coisas que me surpreenderam. Pra começar, ele raramente machuca a gente. Quando machuca é tentando nos escalar para alcançar alguma presa indefesa por perto. Quando brincamos com ele e ele nos morde ou nos dá patadas, ele recolhe as garras e bate só com a bola das patas, e não morde com força. E ele é, principalmente com a minha namorada, que passa mais tempo com ele, muito carinhoso. Não raro ele deita em cima da perna dela, do lado, pede carinho etc. E a felicidade dele quando nós chegamos em casa é reconfortante. E o mais curioso é que a nossa presença alegra ele sem nenhum motivo, pois mal chegamos e ele volta a caçar sacolas e destruir bichos de pelúcia, ignorando completamente que nós chegamos, até cansar e vir pedir carinho.


Ter um gato não é tão ruim quanto eu pensava, mas também não é como ter um cachorro. Eu estou gostando mais do que achei que fosse gostar. O Ringo é bacana. Mas ainda acho que ele merece um irmãozinho canino…

 

Vejam fotos do Ringo neste link.

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Quando a esmola é muita, o dinheiro deve ser roubado 19/11/10

 

                Maria Helena tinha super poderes. Na verdade ela não tinha super poderes, tinha um super poder só: fazer clones dela mesma. De alguma maneira que a ciência não explica e eu vou explicar menos ainda, ela podia fazer vários clones dela mesma, e eles agiam de forma independente um do outro, mas todos controlados por ela. Na verdade não eram clones, eram várias dela mesma. Todas eram ela. Ela era todas elas. Entenderam?

            Mas Maria Helena não era uma super heroína. Ela só era uma pessoal normal – advogada, a bem da verdade – que tinha um poder especial. Ela não tentava mudar o mundo nem combatia o mal. Ela resolvia problemas trabalhistas como indenizações, demissões e essas chatices. Mas ela tinha esse poder. Ela sempre usou seu poder de forma comedida e discreta, tanto que nenhum dos seus ex-namorados soube do seu segredo.

Até que ela conheceu Joel, e eles ficaram noivos e se casaram. Um dia, depois do trabalho, ela resolveu contar a verdade ao seu futuro marido. Ele ficou atônito, não entendeu direito, mas se você é homem você sabe muito bem qual foi a primeira coisa que veio à cabeça dele. E no começo era sensacional: ele ficava em casa com Maria Helena enquanto um clone dela fazia compras no Shopping. Maria Helena usava clones para pagar contas durante o dia, para preparar a janta de Joel antes de ele chegar do trabalho e coisas do gênero. Até que um dia tudo mudo.

Um belo dia Joel chegou em casa e, como encontrasse sua mulher de avental, calcinha e blusinha transparente, decidiu cumprir naquele exato momento suas obrigações maritais. Depois de meia hora de trabalhos iniciados, toca o telefone e Joel atende. Era Maria Helena. Ela ligara para avisar que iria passar no mercado para fazer compras, e que ia demorar um pouco. Enquanto falava com Maria Helena ao telefone e Maria Helena beijava seu corpo e falava ao seu ouvido coisas que fariam o Millôr corar, Joel se sentiu um pouco mal. Ele estava falando com a esposa ao telefone e havia outra mulher em sua cama. Ou ele estava com a sua mulher na cama e falando com outra, tanto faz. Pela primeira vez, Joel não estava confortável com aquela estória de clones…

Quando Maria Helena chegou em casa, perguntou se ele havia se divertido com a outra Maria Helena. Constrangido, Joel lhe explicou a situação. Não era confortável ele estar fazendo sexo com uma mulher e falar com a esposa ao telefone, ainda que elas fossem a mesma pessoa. Maria Helena explicou a ele que as duas eram ela, que ela tinha consciência de tudo. Mas mesmo assim Joel não se sentia confortável. Foram dormir e Joel não parava de pensar naquilo.

No sábado era aniversário de casamento deles. Joel acordou Maria Helena com café na cama, e aquela manhã foi recheada de sexo, daqueles que um casal só faz em aniversários. Na hora do almoço, Maria Helena se levantou para tomar banho. Trinta segundo depois Maria Helena entrou no quarto, arrumada. Joel se surpreendeu por ela ter tomado banho tão rápido, mas Maria Helena explicou que havia saído cedo para ir ao médico e deixara um clone para comemorar com ele. Foi o fim da picada. Joel ficou furiosíssimo. Como ela podia deixar um clone para comemorar com ele o aniversário de casamento? Não importava se era ela, o que importava é que não era ela! Ela estava no médico, e não com ele na cama!

Depois daquela noite o casamento deles não foi mais o mesmo e, depois de algumas semanas, chegou ao fim. Joel não conseguia conviver com uma mulher que era várias mulheres, e Maria Helena não conseguia conviver com um sujeito que ficava culpado achando que estava traindo a mulher com ela mesma. Se separaram amigavelmente. Joel ficou tristíssimo. Maria Helena ficou decepcionada. Com tantos homens no mundo com a fantasia de transar com duas mulheres, ela havia encontrado um que não gostava muito da idéia se as duas fossem a mesma mulher.

Meses depois, sozinho em seu apartamento, Joel não conseguia entender. Ele havia se apaixonado por um dos clones e se sentia, ao mesmo tempo, culpado e precisando de tratamento psiquiátrico. Mas ele tinha quase certeza de que, em alguns momentos, o clone era mais carinhoso. Quase certeza.

Dias antes, Maria Helena enxugava o cabelo em seu quarto, quando Maria Helena entrou. Na verdade, a que enxugava os cabelos era Maria Helena, e a outra era Maria Cristina, sua irmã gêmea. Elas não conseguiam entender o que havia dado errado! A parte mais difícil, convencer Joel de que aquilo era um super poder, elas haviam conseguido. Mas na parte mais fácil, de poder transar com várias  mulheres a hora que ele quisesse –  mesmo elas sendo A MESMA – ele não havia aceitado. Elas não conseguiam entender. Elas eram muito ciumentas e não conseguiam ter relacionamentos sem que a outra se apaixonasse pelo namorado da uma. Então decidiram inventar a estória do poder, para poder dividir o marido. Elas eram idênticas em tudo: aparência, gostos, roupas, cheiro, modo de andar e falar, tudo. E elas fingiam tão bem que enganaram até o narrador desta estória. Mas elas encontraram o único homem do mundo que não gostou da idéia de ter, legalmente e com consentimento, várias mulheres, mesmo que elas fossem a mesma.

E Joel tinha certeza quase absoluta de que um clone havia feito cafuné nele durante a transa. Maria Helena nunca fazia cafuné. E enquanto Maria Helena pensava no que podia ter dado errado, Maria Cristina estava pensativa, passando a mão pelos próprios cabelos, com o olhar perdido.

 

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Quando o samba acabou 10/11/10

Este conto é uma versão para a música do Noel Rosa "Quando o samba acabou". Leia a letra neste link. As letras dos sambas foram escritas pelo Leonardo Lanna, AKA @microcontoscos. Mas na época ele não era famoso e foi uma honra pra ele escrever pra mim.

 

 

Naquela última sexta-feita de um outubro marcado pelos fins de semana chuvosos, não havia chovido. Claro que a chuva não fazia parar o samba, mas naquela sexta, sem chuva, o samba teria rolado mais alegre que de costume. Teria. Naquele dia o sol, ao raiar, sentiria falta do que viria buscar nas primeiras horas da manhã: o samba. O sol iria subir, absoluto e, depois de anos e anos no mesmo ofício, naquela manhã não poderia, ao nascer, levar embora o samba. Ainda que ninguém soubesse disso no morro. Mas outra coisa seria levada pelo sol naquela manhã de primavera. Coisa essa tão estimada pelos moradores do morro quanto o próprio samba. E por mais que o sol fizesse sempre a tristeza dos malandros ao levá-lo embora, o que ele levaria naquela manhã haveria de entristecer o morro como jamais se havia visto. E ao se levantar para anunciar o novo dia, traria consigo não a euforia por mais uma noite de samba, mas sim uma enorme cruz de madeira, enorme, bem no alto do morro.

 

Esta estória começaria a tomar contornos dramáticos há algumas horas. Rosinha era dessas negas de parar passeata do PT. Secretária em uma agência de publicidade na zona sul, andava sempre nos trinques: cheirosa, cabelos com cachos compridos cuidadosamente esculpidos toda manhã, roupas que não chegavam a ser vulgares, mas que também passavam longe de esconder todo o material. Era conhecida por não dar bola pra ‘vagabundo’, como ela mesma dizia. No caminho de casa pro trabalho, descendo o morro, em menos de quinhentos metros andando a pé, sua passagem causava dezenas de torcicolos, centenas de assovios e alguns beliscões das esposas enciumadas. E se pra trabalhar ela se arrumava assim e causava esse efeito, imagina o amigo como essa mulher ia pro samba às sextas-feiras.

Rosinha era responsável por pelo menos metade da lotação do samba. Todos os homens – e algumas mulheres, maldita modernidade! – esperavam ansiosos a chegada de Rosinha ao samba para, enfim, tomarem parte na festa. Sempre desacompanhada, Rosinha se fazia de desentendida e se acabava de sambar, se rindo toda por dentro sabendo do furdunço que causava. E nem adianta. Nada abalava as estruturas de Rosinha: engomadinho, nego perfumado, sambista cheio de ginga, nada disso merecia sequer dois dedos de sua prosa. Mas naquela sexta-feira, sete dias antes da cruz no alto do morro, isso haveria de mudar.

 

Dois malandros resolveram sair mais cedo do samba. Um, um nego engomado, cordão de outro e anel com brasão, com a fome que tava teve que ir embora mais cedo pra matar um angu no Seu Chico. O outro, um branco com ar de vagabundo, cabelo desalinhado, jeans e regata branca, se cansou das mulheres cheias de pompa lá naquela noite, se empombou e foi-se embora. Estavam os dois, um tomando um refrigerante depois de comer o angu, e o outro fumando um cigarro antes de tomar o rumo de casa. Estavam, sem se conhecer, a menos de dez metros de distância um do outro. Foi quando o destino, morrendo de inveja das peças de Nelson Rodrigues, resolveu criar uma situação com os três que eu não vou falar qual é pra não estragar o resto da estória.

 

Pois então. Enquanto o branco abaixava a cabeça pra acender o cigarro a salvo do vento e o preto limpava uma gota de refrigerante que caíra na sua blusa, Rosinha despontou lá na esquina. Estavam os dois tão absortos em seus afazeres que nem perceberam a aproximação da beldade. Mas quando ela estava bem pertinho, mas bem pertinho mesmo, eles levantaram a cabeça ao mesmo tempo. Parece que foi pelo cheiro. E Rosinha, encantada com os dois, fitou a ambos: primeiro o preto, depois o branco. E ambos corresponderam, porque nenhum dos dois era do tipo que passava esmalte nas unhas pra ir pro samba. E assim ficaram, os três se olhando: eles pra ela, e ela pra eles. Cada qual achando que era para si. Só depois que ela parou de olhar, jogou o cabelo e saiu andando chacoalhando os quadris mais que Milk shake de fastfood é que eles perceberam a presença um do outro. E aí os sorrisos se desmancharam, o refrigerante foi jogado no lixo e o cigarro apagado num poste.

 

Prevendo uma briga mais feia que mudança de pobre se aproximando, Seu Chico sugeriu o seguinte: se eram os dois do samba e do morro, que resolvessem à velha maneira: aquele que improvisasse o melhor samba poderia ir atrás de Rosinha e, se já a houvesse perdido de vista, seria dono único de seus olhares na próxima sexta-feira. Mas claro que eles ainda não sabiam que não ia ter samba na próxima sexta, isso é um segredo meu e de vocês. Pois como num raio, o cigarro se acendeu de novo nas mãos do branco e um copo de cachaça foi pedido pelo preto. E com mais uns sete ou oito sujeitos ao redor, teve início a peleja.

 

Como não houvesse acordo de cavalheiros – nunca há quando um lombo daqueles está em jogo – Seu Chico declarou: – estamos no morro, então começa o preto. Nada pessoal, rapaz, nada pessoal. E começou o preto, num ritmo cadenciado de samba de Cartola, cantando quase sussurrando:

 

"Na zona sul ou no samba

Eu sou tudo que ela pode querer

Preto, do samba, alinhado

E não um branquelo como você"

 

No que o branco, pra espanto geral da pretaiada sambista ali presente, respondeu de bate-pronto:

 

"Pelo que se vê no samba

Preto alinhado não faz seu tipo

Lá ela passa a noite sonhando

"Não há nesse samba um só branco pro meu bico?"

 

O preto agora tava com mais pressão em cima do que zagueiro que fez gol contra. O branco mostrou que, apesar de branco, de samba também entendia. Mas sem muito pensar, o preto já engatou:

 

"No samba ela fica sozinha

De tanto branco pomposo que fica em cima

Mas isso é porque ela ainda não encontrou

Um preto assim tão bom de rima"

 

E o branco, calmo que só caixa de banco gorda lixando as unhas com os óculos no nariz, não se fez de rogado, e, rápido no gatilho, deixou o preto embasbacado (a rima aqui foi sem querer, mas modéstia a parte, se o narrador entrasse na disputa não tinha pra nenhum dos dois):

 

"A preta não procura rima

Nem linho nem adereço

Mas sim alguém que lhe aqueça as entranhas

E é aí, camarada, que eu a ganho com meu apreço"

 

O preto quase teve um troço. Tentou começar uma frase, mas gaguejou em três tentativas. Seu Chico teve que intervir. Declarou vencedor o branco, que em respeito e medo da pretaiada, nem comemorou. E antes de se virar para ir atrás da sua prenda, foi interrompido pelo preto, que lhe dera os parabéns e lhe pedia um cigarro com paga para o dia seguinte. O branco, humilde e se borrando de medo da cara de decepção dos presentes, falou antes de ir:

 

- Queísso, meu irmão. Toma lá o maço. Já tive minha alegria de hoje. Carece de paga não, pode ficar.

 

E se virou, mais alegre que criança em dia de Cosme e Damião. Que sua alegria contrastasse com a tristeza do preto, era de se esperar. Mas o que não se esperava é que os olhares de raiva e de frustração não fossem dirigidos a ele, mas ao preto. O preto havia envergonhado a todos e perdido a preta mais cobiçada prum branquelo de fala mansa. E no que, num canto da rua o branco sumia numa esquina atrás do que lhe era devido, o preto acendia um cigarro, com olhar distante, e se dirigia à outra esquina. E ficaram, no meio do caminho, os outros pretos, envergonhados e cheios de ódio do seu irmão de samba, de morro e de cor. A raiva era tanta que o punhal que estava guardado para uma eventual reação violenta do branco fora guardado e desistiram de usá-lo, tamanha decepção.

 

E por horas ficou o preto lá, sentado na esquina, com um olhar vago e o cigarro queimando entre os dedos. E assim o sol chegou, levando consigo o samba e jogando por terra o sangue do preto. Fora encontrado estirado na ribanceira, com uma estocada no coração, caído ao lado de um maço de cigarros. Naquele início de manhã ninguém cantou o fim do samba. E naquela manhã de primavera, a vida do preto havia sido levada pelo sol, junto com o samba. O preto era querido no morro. Amável, prestativo e educado. E hoje, sete dias depois, o sol subiu solitário. Não teve o samba como companhia. O morro ainda estava de luto pelo preto. A única coisa que fazia companhia àquele sol minguado era uma enorme cruz de madeira, fincada no alto do morro, perto da ribanceira. Fora Rosinha que a havia posto lá para homenagear o preto. E o branco? Bom, o branco não conseguiu beliscar a rosinha. Sabe como é, brasileiro adora ficar do lado de quem perde…

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Esse sou eu 24/09/10

Esse sou eu. Esse aqui, sentado escrevendo, pensando em você, te amando. Esse sou eu, te fazendo cafuné, cosquinha na barriga e massagem no pé. Esse sou eu de verdade, vendo você dormir aninhada no meu peito, te cobrindo porque ta frio mas você não admite que o frio do Rio de Janeiro é capaz de fazer uma gaúcha da serra pedir um cobertor. Esse te ligando, mandando mensagem e mandando flores, é que sou eu. Não aquele, mas esse.

Quando aquele brigar com você, sentir ciúmes ou reclamar sobre tudo, lembra que aquele não sou. Esse sou eu. Esse morrendo de vontade de te dar um abraço e de ver um filme bobo com você. Esse. Não aquele. Quando aquele for relapso, passar muito tempo sem te escrever e sem falar que te ama, não liga. Ele é um impostor. Eu sou esse aqui. Esse escrevendo um texto pra você às três da manhã quando deveria estar dormindo.

Se por acaso aquele outro parecer distante e distraído, tenho certeza de será sem querer, mas nem esquenta a cabeça, e sabe por que? Porque aquele não sou eu, esqueceu, burrinha? Eu sou esse bem aqui! Esse que quis escrever esse texto só porque o último você ficou sabendo antes e perdeu a surpresa. Esse bem aqui, que acha que a maior utilidade pra minha habilidade de escrever é essa: fazer você feliz. Esse sou eu. Não o outro.

Se algum dia você enjoar de mim, tiver vontade de ir pra bem longe e arrumar outro namorado, larga o outro. Não larga esse. Se um dia você estiver cansada de mim, lembra que você está cansada do outro, não desse aqui. Pensa sempre nesse, lembra sempre nesse. Porque apesar de o outro fingir muito bem que sou eu, ele é um impostor. Eu sou esse aqui. Não o outro, mas esse aqui. Esse bem aqui.

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“Get up stand up Comedy”, ou Dos Humoristas 10/08/10

   Quando eu tava vindo pra cá tava pensando numa coisa bem interessante. Humorista é uma raça engraçada. O humorista vive a profissão a cada minuto, como um advogado que bate carteiras por aí ou uma psicóloga que fica analisando amigos e conhecidos. Ao contrário do comediante – aquele que escreve comédia, e não necessariamente encena ou faz o stand up – o humorista não faz humor. Ele É humor. E o resultado disso é exatamente o contrário do que deveria ser: algo deveras sem graça. Não é nada engraçado um sujeito que faz piada na fila do banco, no restaurante, no futebol, no trabalho, na igreja, na cama, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê. Nada.


    E o humorista full time vai além disso. No Twitter, nada que ele fala é algo normal. Sempre tem uma piada. “Vou na padaria. Espero que o padeiro não seja incompetente e não tenha queimado a rosca”, “que fome. Acho que vou tirar os farelos do meu teclado e fazer uma farofa” ou “indo pra academia fazer supino pra ver se consigo que alguém faça um agachamento no fim de semana”. TUDO é piada. E como se diz na minha terra, tudo demais é muito. E na vida normal, ele já anda com aquela cara de “sabe a última do pintinho que não tinha cu?”, e está sempre pronto a fazer imitações inéditas como Sílvio Santos, Faustão ou Michael Jackson.


    Isso sem falar que o humorista acha que tem uma “licença humorística” pra fazer piada com QUALQUER COISA. Morte, doença, desgraça, suicídio, mulher dos outros. E eles acham isso muito normal. É normal um sujeito que eu NÃO CONHEÇO falar – ainda que seja “piada”, como eles dizem – que a minha namorada é gostosa ou fazer piadinhas sexuais com ela? Não, não é. Se eu fosse ginecologista seria normal eu encontrar a sua mulher na rua e falar “Opa, Glória, tudo bom? E a bucetinha, tá boa? Tava uma beleza da última vez, hein. Usa aquela lingerie vermelha na consulta da semana que vem”. Ou então se eu fosse personal trainer, encontrasse sua mulher na rua, desse um apertão na bunda dela e falasse “Queísso? Que bunda flácida! Amanhã quero você às seis da manhã no spinning!”. Não, não seria. Ser humorista NÃO te dá licença para se meter na vida dos outros, fazer piada com namoradas/esposas alheias ou com o sofrimento também alheio.


    Mas o engraçado é a falta de auto-ironia dos humoristas. Experimente criticar ou fazer uma piada com um humorista. Eles aceitam tanto quanto um touro aceita ser castrado com uma serra cega. E se você critica, já vem os gritos de “censura”, “invejoso” ou “então vai ver o Casseta”. A classe que mais faz piada não gosta de ser alvo das piadas. É como um pedófilo que bota a filha em um colégio de freira. No fundo ele sabe que o que ele faz é meio chato, para pegar leve.


    Mas fica tranqüilo. Os humoristas modernos gostam de piadas “inteligentes”, com referências modernas etc. Então, dica para se livrar: não há nada, NADA, pior para um humorista do que sua piada não ser entendida. Eles preferem que achem ruim do que não entenderem. Então, essa é a dica. Ao menor sinal de piada, continue olhando ATENTAMENTE para ele quando a piada acabar. Mas não pareça retardado! Depois de uns cinco segundos de terminada a piada, balbucie um “aahhnn”, sem mudar a expressão do rosto. Depois aponte o olhar para o horizonte e franza a testa. Pronto. Ele acha que você não entendeu e nunca mais vai te aporrinhar.só não façam isso se vocês tiverem uma namorada humorista linda, como eu! quando eu faço isso é sempre porque não entendi mesmo. Sabe como é, DDA, falta de memória… É ruim pra entender piada que é uma desgraça…

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Carta de amor generator! Faça você mesmo! 25/07/10

Amigos,


Hoje ouvi de um leitor que ele usara, há algum tempo, uma carta de amor minha para reconquistar uma mulher. Por isso, resolvi falar a verdade. Vou desmascarar esses escritores de araque, que ficam por aí comendo menininhas ingênuas com suas cartas de amor! Neste post vou provar que qualquer um, mesmo você, amigo blogueiro, é capaz de escrever uma carta de amor. E que não precisa talento. Querer tirar a prova? Leiam e usem com a sua namorada/esposa/namorado. Veja como vai funcionar. Vamos lá

 

 

"Fulana (insira aqui o nome da pequena),

 

 Nesta carta eu não vou dizer que te amo (Começo inesperado, pra baixar a expectativa e depois fazê-la subir na próxima frase). Vou falar de porque eu quero ficar com você. Porque se eu só estivesse com você porque te amo, eu não teria outra opção. Mas eu estou com você porque, além de te amar, eu tenho diversos motivos. (Distorça uma verdade já conhecida, como ficar com alguém porque ama a pessoa, neste caso, e a faça parecer muito menor do que a sua realidade) (IMPORTANTE: aqui ela vai ficar com os olhos cheios d´água, mas ainda não vai chorar, senão estraga o resto da carta).

 

E você sabe que eu tenho diversos motivos para não ficar com você. (derrube de novo a expectativa, para valorizar o que você vai dizer a seguir). Seu pai, a distância, seus amigos, a idade, você ser fã do Danilo Gentilli. (escolha a que melhor se encaixar na sua situação, e, na próxima frase, exagere AO EXTREMO a característica escolhida, para frisar). Mas nada, NADA, me faria desistir de você. Nada. - Nem que você fosse filha da Dilma, nem que você tivesse amigos blogueiros, nem que você tivesse sete anos e eu quarenta, nem que você presidente do fã-clube do Danilo Gentilli. (escolha uma) (o ideal aqui é fazê-la sorrir, para baixar a guarda para o próximo parágrafo)

Desde a primeira vez que – nos vimos, que nos beijamos, que nos olhamos, que conversamos, que fomos amarrados juntos no banheiro pelos assaltantes (escolha uma) -, só consigo pensar em – te beijar, te comer, te lamber, casar com você, te pedir pra trazer uma meio calabresa meio mussarela e um maço de Derby (escolha uma).  Quando saí de casa para – ir àquela festa, ir àquele bar, ir àquela igreja, ir àquela suruba, ir àquela sala de chat 18+, ir à clínica de doenças venéreas (escolha uma) - , jamais poderia imaginar que encontraria – a mulher da minha vida, a mulher mais linda do mundo, a mulher mais inteligente do mundo, uma menina interessante como você, a boca mais receptiva e as ancas mais convidativas que já vi na minha vida (escolha uma de acordo com o grau de intimidade/seriedade/putaria do relacionamento de vocês). Aquela decisão mudou a minha vida. Durante a semana seguinte, toda vez que ouvia – Wonderfull Tonight, Something, Morango do Nordeste, Meteoro da Paixão, Dança do Créu, uma sirene da polícia (escolha uma) – eu pensava em você.

Sempre deixei claro que ainda sentia alguma coisa – pela Cláudia, pela Regina, pela Samantha, pela Xuxa, pelo Giovanne (escolha uma). Mas em pouco tempo. Admito que fiquei em dúvida (Esta frase vai baixar novamente a expectativa e fazê-a se sentir insegura, para mais uma frase-feita de efeito (ficou bacana isso!) (Aqui ela vai achar que você chegou a pensar em desistir, e vai ficar com a guarda mais aberta que perna de porstituta em dia de pagamento de funcionário público). Fiquei em dúvida se te pedia em casamento naquele mesmo dia ou se ia até a sua casa àquela hora da noite falar que te amava. (Aqui ela vai quase chorar). Naquele momento percebi que tudo o que eu havia vivido até ali havia sido em vão. Eu começava a viver naquele momento. Toda a minha vida só teve a utilidade de, naquele dia, nos botar frente à frente.

E a partir daí, te amo cada dia mais que o anterior, e desejo estar com você cada minuto do meu dia. Cada um deles. Mas como já disse, não quero ficar com você somente porque te amo. Quero ficar com você porque – você me faz rir, você cuida de mim, você curte sexo anal, você curte ménage, você gosta de Wando, você faz eu me sentir o sujeito mais amado do mundo, você me apóia em tudo, você participa da minha vida, você entende que o Jéferson foi só uma vontade passageira, você largou sua vida “fácil” pra trás, você já me contou a verdade sobre aquele vídeo amador seu que eu achei no Redtube (escolha duas engraçadas e duas sérias). E também por um motivo muito simples: você me ama como se eu merecesse. Como se eu fosse tudo o que você pensa que eu sou. E por isso, prometo daqui para a frente fazer de tudo para ser, de verdade, tudo o que você sempre sonhou. Porque com você eu sou isso tudo, mas sem você eu não sou nada. (aqui ela vai chorar. mas garanta o choro na frase seguinte, que vai despertar o instinto materno e protetor dela). Eu te amo. Não me deixa.

 

p.s.: Desculpa se eu tiver exagerado em alguma coisa ou escrito algo errado. Falei praquele ghostwriter cretino não beber Whisky enquanto escrevia. (Touché. Aqui ela vai rir ainda chorando, e pensar “como eu amo esse cara”. E aí, amigo, é partir pro abraço.)"

 

P.s. de verdade: Este post foi idéia da @Deeercy.

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Dia do amigo atrasado, ou, Dia do Irmão 23/07/10

    Eu não sou um sujeito de muitos amigos. Tenho pouco – e bons – amigos. Amigos que, esteja eu onde estiver, ganhando o quanto for, fazendo o que quer que seja, serão sempre meus amigos. Amigos que eu jamais deixaria pra trás, e amigos a quem eu devo muito, e nunca vou esquecer isso. Alguns são o Léo Lanna (@microcontoscos), o Rodrigo (que é normal e não tem tuiter), o Lufe (@lfnoronha), o João Ramalho (@J0A0RAMALH0), a Tayane (@taylarina), a Mariana (@marythoughts), a Raquel (@Loiriz) e mais uns cinco que eu esqueci de citar, mas me conhecem e vão me perdoar.

    Mas apesar de ser um post do Dia da Amigo, quero falar sobre um irmão. Não o irmão que meus pais me deram, mas o que eu escolhi: o Pablo. O Pablo é meu amigo desde uns 10, 11 anos. Dos 10 aos 15, nos víamos todos os dias, sem exceção. A partir daí, ele mudou de escola e nos vemos esporadicamente. Nunca pensei que aquela máxima que diz que não precisamos ver os amigos todos os dias pra serem amigos fosse verdade. É verdade. E uma nota importante: o Pablo me deu o maior presente que eu já ganhei na vida: o Pedro, filho dele, meu afilhado.


    Eu e o Pablo somos, fazendo comparações Lulísticas, A tartaruga (ele) e a Lebre (eu, claro). Não concordamos em nada, a não ser no gosto musical. Um ferrenho defensor dos direitos humanos e das boas maneiras (ele) e um praticante de artes marciais há 15 anos, que sonha em ver o dia em que todos os problemas da humanidade possam ser resolvidos em cima de um ringue, dois rounds de cinco minutos. Um de fala mansa, outro quase gago de tão rápido que fala.


    E ele é meu irmão. Me agüenta na casa dele comendo tudo que tem na geladeira. Me confia o próprio filho, mesmo me conhecendo a fundo. Me ajuda quando eu preciso e não mede esforços pra isso. Me aceita na família dele e faz eu me sentir parte da família dele. O filho dele é meio meu filho. A mãe dele é meio minha mãe. O pai dele era meio meu pai. A mulher dele… Bom, deixa isso pra lá. Ele me apóia em tudo, até no que não deveria apoiar. Nós temos dois sonhos em comum: tocar juntos em uma banda, e trabalharmos juntos. Eu to aprendendo bateria e em breve o primeiro sonho vai ser verdade. E o segundo, não vai demorar muito também.


    Então é isso, irmão. É bom um cara que só briga e reclama como eu falar bem de alguém de quando em vez. E de você, camarada, eu não tenho nem nunca tive uma frase para falar mal. Ao contrário de você comigo, que teve motivo e não falou. Obrigado por tudo, irmão. Beijo no Pedrinho.

 

 

p.s.: You and I have memories longer than the road that stretches out ahead.

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Cartinha de amor bonitinha e melosinha (diabéticos, só leiam depois de consultar os seus médicos) 15/07/10

 


Bom, como vocês já sabem eu tenho Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade. Num grau avançadíssimo, que pode me causar demência (de verdade) antes dos cinqüenta anos. É como se eu fosse uma mistura de Papa Léguas com o Rain Man. Isso sem falar que eu tenho essa porra há tanto tempo que meu caráter foi moldado por isso, então eu sou impulsivo, reclamão, ranzinza, insistente, desatento, agressivo, intolerante e etc. Vocês estão pensando que deve ser difícil ser assim? É difícil pra cacete. Mas imaginem namorar alguém assim…


Já escrevi isso em outra oportunidade, mas era outro contexto. Hoje em dia, além disso tudo eu tenho também as aporrinhações da vida adulta: família, emprego, mercado de trabalho escroto, contas, dívidas etc. Eu estava tentando evitar falar da minha vida pessoal aqui, mas abri uma exceção. Faz tempo que a minha namorada não ganha uma carta de amor, então aqui vai:


Eu penso da mesma forma que Grouxo Marx, que disse que jamais entraria pra um clube que o aceitasse como sócio. Eu jamais namoraria alguém que namorasse comigo. Porque diabos eu namoraria alguém que aceitaria um cara turrão, ciumento, machista, agressivo, impulsivo, chato, ranzinza, que vai demorar uns cinco anos pra decorar a data de aniversário deles e uns seis pra decorar o aniversário dela? Essa pessoa não pode estar em pleno gozo de suas faculdades mentais, como dizem os juristas.


Eu amo a minha namorada, naturalmente, mas junto com esse amor tem um profundo e imenso sentimento de gratidão. Não gratidão boba, idiota, de ela ter pena de mim. Isso ela não tem. Mas gratidão por tentar tanto fazer dar certo esse relacionamento com alguém como eu. E por entender cada grito meu, cada ameaça de terminar, cada término, cada crise de ciúme. Gratidão por não ter desistido e ido procurar um garotão de vinte anos sem preocupações nem problemas (até onde eu sei). Gratidão por me amar incondicionalmente, dez minutos depois de uma briga, um dia depois de eu ter dito que não a procuraria nunca mais.


É uma pessoa assim, que me trata bem como se eu merecesse, que me faz ter vontade de mudar, de melhorar. Porque ela merece ter alguém bacana do lado dela, alguém que a trate bem e não a faça se sentir apenas uma enfermeirinha (hhmmm) de um maluco. Ela merece alguém que a trate como a namorada sensacional, carinhosa e atenciosa que ela é.  É muito difícil admitir que precisamos de alguém, mas ela faz isso uma tarefa muito fácil. Ela me ajuda, me ama e cuida de mim como se eu tivesse feito algo pra merecer isso. E eu não fiz, pelo contrário. Mas eu tenho procurado melhorar, por ela e por mim. E essa carta, Princesa, é porque eu quero que isso fique registrado, pra eu não esquecer nunca como você me fez feliz, me ajudou e me amou incondicionalmente que eu ainda não era sombra do namorado perfeito que eu estou tentando ser. Eu te amo e quero ficar com você pro resto da minha vida, mas não quero ser um peso pra você. Quero ser o cara que você merece, e todo dia eu vou vir aqui ler isso, pra que eu nunca me esqueça. Até porque, eu esquecer alguma coisa não é uma coisa muito rara…

p.s.: Quanto ao garotão de vinte anos, se você me trocar por um vai passr uns anos ouvindo Restar, Fresno e Vendo Crepúsculo. Acho que qualquer TDAH é melhor que isso.


p.p.s.: Quanto à enfermeirinha, entendeu o recado? Ham? Ham?

 

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Jogando cocô pela grade 28/06/10

Uma das maneiras mais fáceis (e idiotas) de se ser notado e de ganhar a atenção é sendo um babaca. Simples assim. Aposto que vocês acharam que eu ia dissertar, né!? Filosofar, criar fábulas? Até pensei nisso, mas nenhuma fábula africana ou ditado chinês se aproximaria da precisão de “sendo um babaca”. Só que ser um babaca na vida real não é tão fácil. O babaca corre o risco de ser interpelado pela vítima de sua babaquice e acabar com um olho roxo ou algum objeto de formato cilíndrico atochado em alguma cavidade corporal. Mas a internet – sempre a internet – deu aos babacas uma oportunidade que eles esperavam há anos: a oportunidade de serem babacas para um número maior de pessoas, e o melhor (para eles, pior para nosotros): a oportunidade de serem babacas usando máscaras (metáfora para “avatares” e “fotos de perfil”).

E os babacas da internet tem até um nome só pra eles: Trolls. Troll, no jargão da internet (vulgo linguajar nerd) é aquele sujeito que trola, ou seja, destrói, critica, xinga, ofende, faz polêmica, tudo sem motivo. Trol é aquele babaca que vai no seu blogue e comenta que “ah, viadinho. Vai pegar mulher”. Isso é um Troll. Mas por que a internet tornou o ofício do Troll tão atraente? Simples: porque na internet eles não são pessoas de verdade. Eles são fotos, avatares, nicknames com frases do Paulo Coelho etc. E, ainda que você saiba pessoalmente quem é o Troll em questão, ainda há desculpas como “era brincadeira”, “foi só pra animar” ou “ah, eu tava bêbado”. Isso sem falar do clássico “eu sou um personagem lá, relaxa”. Personagem my ass, já diria Charles Bronson.


E na internet – sempre a internet – este comportamento, além de ter sido potencializado, passou a ser motivo de orgulho e, pasmem, de ser “fazer sucesso”. Pessoas se orgulham de serem Trolls. Percebam aqui a diferença entre Troll e ranzinza. Eu sou ranzinza: reclamo de tudo o tempo todo, xingo, berro e me emputeço. Mas o meu temperamento é assim: na internet, com amigos, família, com a namorada. Não é pra aparecer nem chamar a atenção. E outra diferença crucial é que um ranzinza não ofende nem provoca ninguém de graça, só pelo prazer de ser babaca.


Mas que razões levam alguém a ser Troll? O Data Ego realizou uma pesquisa com doze milhões de tuiteiras do mundo inteiro e as respostam foram: 57% disseram que o principal motivo pra alguém ser Troll é que eles têm pau pequeno; 23% afirmaram que eles têm problemas de auto-estima devido à escassez de pererecas em suas hortas; 16% afirmaram que é inveja e 4 % afirmaram que é falta de uma roupa pra lavar, de uma privada pra limpar. Mas o próprio Troll trata de fazer a piada se voltar contra ele. Duas estorinhas ilustram bem isso. Estorinha um: um escorpião estava na beira de um rio e viu um monge. Ele então se virou para o monge e disse: "Monge, podes me dar uma carona através do Rio? Prometo não lhe morder". O monge, bondoso, levou o escorpião no ombro. No meio da viagem, o escorpião tenta picar o monge, que se assuta e joga o escorpião na água. Ao ver o escorpião se afogando, o monge pega um graveto e salva o animal de se afogar. Um coelho que observava tudo, indagou ao monge: "Mas monge, o escorpião mentiu, tentou te matar e você ainda o salvou? Porque fizestes isto"? No que o monge respondeu: "Meu nobre coelho, é simples. É da natureza dele mentir e matar. E é da minha salvar vidas. Não se pode esperar das criaturas algo que não seja de sua natureza fazer". Estorinha 2: Você é um empresário, um advogado, um escritor, um ator. Está em frente à jaula dos macacos. Eles se irritam e começam a jogar cocô em você, sem motivo. Quem é o idiota dessa estória? Portanto, quem nasce pra jogar cocô nunca vai fazer outra coisa além disso…

 

uptade: o @felipeneto fez esse vídeo sobre o tema. Falou muito e falou bunito.

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