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Um texto para as mulheres que não querem ser homens 08/03/13

 

feminism    Minha experiência com as mulheres é muito curiosa. Minha primeira experiência sexual foi aos catorze anos, com a vizinha da frente, de 31 anos. Minha primeira experiência sexual estando a mulher também presente no ato foi somente aos dezoito. Um pouco tardio para um jovem da geração dos anos oitenta/noventa. Eu era tímido, mais magro do que sou hoje, nerd, não levava o menor jeito com mulheres. Até que lá pelos vinte e dois tudo mudou.

Quando comecei a escrever profissionalmente percebi que escrever atrai bastante as mulheres, principalmente as nessa idade. E foi assim que começou a minha carreira de escritor: escrevendo para comer mulher. Se hoje eu escrevo bem, devo agradecer àquelas que foram para a cama comigo levadas pelas minhas palavras escritas. Tal qual um flautista de Hamelin eu usava meu talento somente pra isso. E acreditem, funcionava. Não com todas, mas com a maioria. Até que eu percebi que eu podia, alem de usar aquilo com as mulheres, viver disso. Não viver de mulheres, mas viver de escrever.

E hoje eu vivo de escrever. Dá pra perceber que as mulheres já têm uma importância vital na minha vida. Mesmo me fazendo escrever “vital na minha vida” em um texto aos 33 anos de idade. E eu gosto muito de mulher. Não no sentido maníaco tarado, mas no latu sensu. Prefiro amigas mulheres, chefes mulheres, colegas de trabalho mulheres. Na pior das hipóteses você não vai apanhar se brigarem, e você não vai se sentir gay por fazer sexo com elas para se reconciliar.

Infelizmente as mulheres hoje em dia se preocupam muito com essa bobagem de quererem ser iguais aos homens. As mulheres nunca serão iguais aos homens por um motivo muito simples: elas são diferentes. E vejo mulheres copiarem homens nas coisas mais negativas, como a promiscuidade, a infidelidade compulsiva etc. Não lutem pelo direito de poderem ser imbecis como muitos homens são. Acreditem, nós gostamos mais de vocês como vocês são.

E não venham com esse papo de que homens se intimidam com mulheres independentes. Balela. Homens gostam de mulheres independentes, só não gostamos de mulheres que se comportam como homens idiotas. Até porque, nós também não gostamos dos próprios homens sendo idiotas. A diferença existe sim e é isso que faz tudo valer a pena. Não lutem pelos mesmos direitos nossos, lutem por direitos somente de vocês, mas sem deixarem de ser quem vocês são. Não lutem pelo direito de poderem ir para a cama com dezenas de homens sem serem julgadas. Lutem pelo direito de serem bem resolvidas e não precisarem ir para a cama com dezenas de homens, até porque, homens que fazem isso também não são tão bem resolvidos com eles mesmos.

Não lutem por coisas idiotas que a sociedade aceita em nós homens. Ser uma mulher feminina não faz de vocês inferiores. Muito pelo contrario. É preciso uma boa dose de autoconfiança para ignorar esses conceitos feministóides e se assumir assim. Mulher pode sim chorar com filme, pode sim chorar com flores, pode sim sonhar em casar de branco. Mulher pode sim esperar que o cara ligue no dia seguinte, pode sim fazer charme e pedir para a amiga dar o telefone dela “sem querer” praquele cara bonitão, e pode sim fazer dengo pra ganhar cafuné. Não lutem pelo direito de poderem agir como homens, ajam MELHOR que os homens. Acredite, é bem mais fácil do que vocês imaginam.

 

p.s.: Uma última homenagem e um agradecimento à Irene, minha namorada, por me aturar, me ajudar e estar sempre do meu lado quando eu reclamo. E eu reclamo bastante. Eu te amo, mas me frustrou não ter te conquistado com um texto, e somente pela minha beleza, charme e sensualidade.

 

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Também existe gatos e comida fora do Instagram 04/03/13

exibicionista_portugal-porreiro     Dia desses eu estava conversando com a minha namorada. Falávamos sobre o fato de ela usar o Facebook somente para ler algumas coisas e nunca postar fotos e informações pessoais. Como profissional de mídias sociais há anos, logicamente não só não entendi como a interpelei, como se ela tivesse admitido que votaria no Silas Malafaia para presidente. Eu não via motivos para aquilo, para essa conversa de não postar fotos, não se expor etc. E ela quebrou todos os meus argumentos com somente uma resposta, quando perguntei por que ela não gostava de postar fotos e coisas pessoais no Facebook: ela me perguntou, calma: “Mas pra que postar?”. Pois é, para que?

Aposto que você, incauto e exibicionista leitor, também nunca se perguntou isso. Para que postar fotos? Com que objetivo? Com que intuito? Eu não admiti na hora, claro, mas até agora não achei uma resposta. Vejam bem, antes que me chamem de reacionário ou qualquer chatice do tipo, deixo claro que não estou criticando tal fato, principalmente pelo fato de que eu também o faço. Somente estou lançando uma reflexão. Por que nos expomos?

Não é por ego, tendo em vista que pessoas com egos menores do que sapato de jóquei também se expõem, e expõem exatamente sua baixa auto-estima, sua falta de ego. Tampouco é porque são felizes, pois o que não falta nas redes sociais é gente reclamando e postando coisas relacionadas às desgraças sofridas por elas. Então por que fazemos isso? Não faço a menor idéia. Só admito que me incomodou um pouco eu fazer algo diariamente e não saber o porquê.

Minha namorada não entende porque eu sempre digo onde estou (Foursquare), digo o que sinto/penso (Twitter e Facebook) ou posto fotos de coisas do meu dia a dia (Instagram). E, infelizmente, hoje eu também não entendo. Admito sem nenhum pesar que depois dessa conversa eu diminuí bastante tudo isso. De uma média de 23 tweets por dia, nas duas semanas depois da conversa, diminuí para 7,5 tweets por dia. Idem para Facebook e Instagram. Não pretendo abandonar as redes sociais, não sou nenhum ermitão maluco. Mas devo admitir que essa reflexão me fez muito bem, assim como descobrir que há comida e gatos que não chegam ao Instagram e que há idéias que jamais conhecerão o Twitter e o Facebook. As minhas, no caso, pretendo que conheçam cada vez menos. Afinal, para que?

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Um governo do povo, para o povo 28/02/13

 O ano é 2051. Depois de oito mudanças consecutivas na constituição, Luís Inácio Lula da Silva é eleito presidente pela décima vez, aos 106 anos. O presidente segue os passos de um dos seus ídolos, Fidel Castro, que só deixou o governo de Cuba aos 116 anos, sete anos após a sua morte. Atualmente, 98% da população é alcançada pelo bolsa-família e pelo bolsa-escola, o que refletiu em uma taxa de desemprego de 86%. Com tanta gente desocupada, a barbárie se instaurou e o Brasil virou um caos.

Pensando, como sempre, no bem estar da população e em resolver os problemas na sua raiz, o presidente baixou oito medidas para controlarem esta barbárie e para resolver de uma vez por todas o problema do mau comportamento do brasileiro. Em apenas seis meses com tais medidas em vigor já se pôde notar as mudanças. Estas são as medidas tomadas pelo presidente:

1. Foi implantado um novo sistema nos elevadores brasileiros: quanto mais você aperta o botão, mais rápido ele vem. Se você chutá-lo, ele entra no modo expresso e te leva ao seu andar sem nenhuma parada;

2. Foram espalhados pelas ruas do Rio os chamados “Cata-Xixi”. São funcionários da prefeitura que, no momento em que alguém se prepara para mijar na rua, rapidamente encaixam uma garrafinha no instrumento do sujeito, evitando assim, que ele urine na rua;

3. Para conter o impacto da criminalidade na vida dos cidadãos, o governo criou o programa “Bolsa ou a Vida”, que consiste em um kit que todo cidadão brasileiro ganha por mês, contendo um telefone celular vagabundo, vinte notas falsas de 50 reais e um cartão de crédito com R$ 1.000 de bônus para o cidadão entregar ao assaltante no momento do roubo;

4. Seguindo o modelo da vizinha Venezuela – que hoje em dia tem a propriedade de 100% das empresas do país – o presidente Lula resolveu estatizar todas as montadoras de veículos, acusadas pelo governo de serem responsáveis pelo caos no trânsito, ao repassarem para o consumidor os descontos da isenção total de impostos dada pelo governo alguns anos antes. Após a estatização, um sobrinho do ministro dos transportes foi nomeado presidente da EMBRACU (Empresa Brasileira de Carros Urbanos), que fundiu todas as montadoras em uma só. Com o controle estatal sobre a produção de carros, em 3 anos foram produzidos somente 14 unidades, o que acabou gerando a CPI da EMBRACU;

5. Depois do famoso Apagão de 2026, que deixou o país inteiro sem luz durante dez meses, o presidente resolveu tomar uma medida drástica e proibiu a venda de chuveiros elétricos e condicionadores de ar em solo nacional;

6. A solução do governo para o problema do transporte público fez tanto sucesso que foi copiada por mais de 53 países só na América Latina: todo cidadão foi proibido – sob pena de reclusão de vinte a setenta anos –  de trabalhar, namorar, estudar, ir ao médico, abrir conta em banco ou praticar o seu lazer a mais de três quilômetros da sua residência. A solução, simples e sem custos para o governo, rendeu ao presidente o seu sétimo prêmio Nobel;

7. Em 2041 foi criada uma Lei Federal que obriga as universidades a reservar 10% das vagas nos cursos para alunos brancos. Até então a lei exigia que 99,45% das vagas nas universidades fossem destinadas a estudantes negros, pardos e índios;

8. Em 2050, 85% da população brasileira é analfabeta funcional. A lei da aprovação automática foi ampliada, alcançando também os cursos universitários, MBAs, mestrados e doutorados. Tal fato reduziu drasticamente a produção de lixo no país, uma vez que, dois anos antes, a última editora fechou suas portas devido à lei que proibia a venda de livros, jornais e revistas com conteúdo para ler, sob acusação de preconceito com os analfabetos (que segundo a lei também eram cidadãos e tinham seus direitos), e de não serem acessíveis para a população não-letrada.

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Trair e kibar é só começar 29/08/12

Eu lembro que meu primeiro texto com pretensões literárias era uma cópia descarada de um texto do Millôr chamado Supermercado Millôr. Era um texto onde ele falava sobre ele mesmo, mas com tanta genialidade, que copiei grande parte e fiz o meu próprio texto. Logicamente que na terceira relida percebi o absurdo que tinha cometido e reescrevi tudo. Mas, no começo, todo escritor copia seus ídolos. É até um bom treino tentar imitar alguém que você admira. Mas os bons escritores sabem que isso é somente um treino, e que não é de bom tom sair por aí copiando os outros.

Infelizmente, na internet o buraco é mais embaixo. Hoje em dia a frase que antigamente era anedota, de que “se tá na internet não tem dono”, está se transformando em uma dura realidade, repetida aos quatro ventos por gente boa (?), até. É muito triste ver um garoto de dezenove anos, como o rapaz que criou o perfil Gina Indelicada, dizendo que “na internet as piadas quase nunca são criadas”, para justificar o fato de que a maioria absoluta das piadas de sua personagem serem conteúdo de uso comum ou de autoria de outras pessoas.

E quando as pessoas o defendem pela sua criatividade de ter criado a personagem, e por isso o absolvem de ter se apropriado de conteúdo alheio, me dá ainda mais medo. É o fim justificando o meio. É o famoso “estão com inveja de mim porque eu sou famoso e eles não”, tão repetido por muita gente por aí que copia conteúdo de outras pessoas sem nenhum pudor. E no final, ainda vejo gente zombando de quem reclama que teve seu conteúdo indevidamente roubado, que se ele é bom, o autor deveria agradecer pela “divulgação”. É o mesmo que querer que uma mulher estuprada agradeça ao estuprador por tê-la estuprado e ter provado que ela era gostosa.

Uma vez um programa de rádio do Rio Grande do Sul chamado Pretinho Básico leu um texto inteiro meu no programa. Reclamei com eles por e-mail, não fui a público. Não obtive resposta durante duas semanas e os questionei em público, no Twitter. A resposta deles foi que “você deveria agradecer por a gente ter divulgado o seu trabalho”. Divulgado o meu trabalho sem me dar os créditos? É algum tipo de piada? O único integrante do grupo a interceder em meu favor foi o Piangers, que colocou os créditos no site e veio conversar comigo. Os outros, do alto da sua empáfia de quem faz um programa de rádio semanal com conteúdo catado na internet, se limitaram a fazer piadas.  E esse tipo de comportamento não só não é questionado como é admirado, e cada dia vemos mais e mais pessoas fazendo isso, vide o caso da Gina Indelicada.

Houve uma inversão de valores e hoje em dia o que se valoriza é o “empreendedorismo” e a “visão” da pessoa que “compilou aquele material”. Nunca ouvi uma piada tão boa, mas parece que, aos poucos, esse pensamento é cada vez mais recorrente. Eu achava que aos poucos esse pensamento ia mudar, mas não é isso que está acontecendo. Infelizmente. Espero sinceramente que essa tendência seja passageira, e que, no futuro, ao invés de vermos “curadores de conteúdo” fazendo sucesso, vejamos os próprios criadores. Porque hoje em dia, o máximo que eles ganham é a fama de chatos por reclamarem do roubo de seu conteúdo. E la nave va.

 

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Caiu a ficha 23/04/12

Eu sempre me achei um sujeito muito fácil de lidar, mas descobri há pouco tempo que a verdade é exatamente o contrário. Ainda não tive tempo de teorizar sobre o porquê de diferentes pessoas me aturarem. Amigos, família, conhecidos, colegas de trabalho, namoradas. Namoradas, na verdade, fazem esse buraco ser um pouco mais embaixo, sem trocadilho. Amigos são amigos, e a obrigação deles (os verdadeiros amigos) é gostar de nós APESAR do que nós somos. E os meus, pelo menos os que importam,o fazem. Família é família, e colegas de trabalho me aturam porque eu suborno todos eles com sorvetes, chocolates e massagem nos ombros (das mulheres, logicamente).

 

Mas as namoradas, eu dizia. Bom, todos os meus relacionamentos anteriores naufragaram de uma maneira ou outra devido a este meu, digamos, jeito de ser. Deixem-me antes esclarecer que não sou nenhum porco chauvinista, longe disso. Sou um namorado atencioso, romântico, preocupado, altruísta entre outras coisas. Mas, infelizmente, para quase todas as minhas ex-namoradas, os defeitos falaram mais alto que as qualidades, e conviver comigo se tornou um sacrifício tão grande que o relacionamento se rompeu de tal maneira que cedo ou tarde um dos dois botava um ponto final nele. E uma das minhas parcas qualidades é a de me colocar no lugar do outro. Talvez seja por ter largado a faculdade de direito faltando apenas um ano, eu hoje tenho extrema facilidade em me colocar no lugar dos outros. Mas infelizmente nem todo mundo pensa assim. Foi por isso que quando ouvi dela, pela primeira vez, a seguinte frase, eu não soube o que pensar: “Eu sei que você tava nervoso, mas na hora não quis falar nada pra não te irritar mais ainda”.

 

Pode parecer bobo, mas não é. A minha namorada se calou, ouviu meus desaforos, pelo simples motivo de entender que eu não sou nenhum monstro, só estava um tanto quanto nervoso naquele momento. Ela se sujeitou a isso, a um sujeito chato e reclamão como eu, falando aquelas besteiras, só pra não piorar as coisas. Onde uma namorada normal responderia à altura e teríamos então uma briga daquelas. Mas ela tentou – e conseguiu – me entender. E eu, ignorantemente, não dei a esse fato o devido valor à época. Estou dando agora. Espero que não seja tarde demais. Parando para pensar, essa baixinha fez por mim o que pouquíssimas pessoas já fizeram, principalmente sem serem subornadas com chocolates, sorvetes ou massagens (as mulheres, claro).

 

Ela enfrenta a família, amigos e o meu meu gênio, só pra ficarmos bem. Ela tenta entender defeitos meus que outras pessoas já tacharam como frescura, falta de porrada ou fingimento. Ela não só tenta entender, ela tenta entrar no meu mundo de uma maneira que eu nem sei como deixar, pois isso nunca aconteceu. Ela se preocupa, pergunta, se interessa, me estuda, procura saber. E não somos casados há anos. Ela faz isso tudo por alguém que ela conhece há meros seis, sete meses e que, como já disse, está muito longe de ser o namorado ideal.

 

Como eu já disse lá em cima, o motivo pelo qual ela faz isso me é desconhecido. Ok, ela me ama, mas muitas (ok, não muitas, mas algumas) já me amaram e não fizeram metade disso. Um terço, eu diria. Então por que ela faz? Ela poderia ter um namorado normal, com probleminhas normais. Mas também nem quero fazê-la pensar nisso, vai que ela cai na real. Mas verdade é que se eu não sou um namorado melhor não é por não tentar, porque eu faço o meu máximo. E eu achava que era suficiente, mas pela primeira vez na vida, encontrei alguém que faz mais que o máximo por mim. E eu não reconhecia. Reconheço agora, em público, que é pra me cobrarem depois de um dia eu esquecer. Mas por via das dúvidas vou fazer um estoque de sorvete e chocolate, e aprimorar minha massagem. Vai que o motivo é esse. Nunca se sabe.

 

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O Vidente 08/11/11

Osíris era um vidente. Ele era capaz de adivinhar com precisão os acontecimentos do futuro. Não fosse por um quase insignificante detalhe – em suas próprias palavras. Durante toda a sua adolescência, logo após o seu poder se manifestar, Osíris tentara, sem sucesso, cobrar por consultas públicas aos astros para ler o futuro das pessoas. Sua empreitada durou poucas semanas. Por fim, Osíris desistiu de tentar levar o bem ao mundo através do seu poder e virou revendedor da Avon.

Um dia Osíris vendeu hidratante de pele e creme adstringente para um produtor de um dos maiores programas de auditório na TV brasileira. Durante uma conversa corriqueira sobre óleos aromatizantes e esfoliantes, Osíris comentou sobre seus poderes. O produtor ficou estarrecido. Osíris conta que havia acertado o placar de todos os jogos da última rodada do campeonato brasileiro, bem como adivinhara os nomes dos dois ministros que caíram e dois artistas que morreram de forma repentina. O produtor estava maravilhado com a precisão dos poderes de Osíris! Com apenas uma ligação o produtor já havia acertado a ida de Osíris ao programa para fazer uma demonstração dos seus poderes. Seria a maior história da TV brasileira desde que aquele ministro caiu porque descobriram que ele tinha um caso com um campeão mundial de Luta Greco-Romana, e os dois foram se casar em Iguaba e abriram uma loja de antenas parabólicas.

Nos bastidores, Osíris estava muito nervoso. Ele iria entrar ao vivo no programa do Horlando Enrique, o maior apresentador do Brasil. Ele iria entrar, fazer algumas previsões e sair nos braços do povo, amado e aclamado como o maior vidente do país, quiçá de todo o mundo. A produção veio avisar. Dois minutos. Quarenta segundos. Entra lá e arrasa, Osíris! Osíris entra no palco e, meio atordoado, vê todas aquelas luzes e todas aquelas pessoas olhando para ele. O apresentador vem buscá-lo no fundo do palco e o conduz até o centro.

 

- Qual o seu nome? – Perguntou o apresentador.

- Osíris Nascimento – Respondeu nosso herói, tímido.

- E então, Osíris, me falaram que você tinha um poder, uma coisa mística, é isso mesmo?

- É isso mesmo, seu Horlando.

- E qual é esse seu poder, conta pro pessoal que está em casa?

- Eu tenho o dom de prever o futuro.

 

A platéia fez “óóóóóóhhhhhhh”, e o apresentador fez a típica cara de surpresa do mocinho que pega a mocinha na cama com o vilão.

 

- Prever o futuro você diz adivinhar os acontecimentos?

- Isso mesmo, seu Horlando.

- Então vamos fazer um teste, a galera de casa já está duvidando desse seu poder aí. Fala aí então quem vai ser o próximo presidente do Brasil.

- Hhmm, bom, seu Horlando, meu poder é meio específico e eu que tenho que escolher o que eu vou ver, entende?

- Claro, claro, essa coisa de astros, espíritos, eles são muito temperamentais. Então vai lá, manda uma de suas previsões.

 

Osíris se concentra, bota as mãos no rosto, faz força e começar a falar meio enrolado.

 

- Eu estou vendo. O flamengo. Contra um time azul. O flamengo faz cinco gols no time azul. Três de um jogador que começa com T.

 

O apresentador olha pra ele maravilhado.

 

- Meu Deus, que precisão! Produção, quando o Flamengo joga com um time azul, temos que acompanhar isso!

- Mas… – Osíris tenta falar mas é interrompido pelo apresentador com um gesto com a mão espalmada.

 

O apresentador bota a mão no ponto eletrônico e fica quieto. Ele faz uma cara de estranhamento e fala:

 

- Como? Ok. Bom, Osíris, esse jogo foi ontem. O Flamengo ganhou do Cruzeiro de cinco a um com três gols do Thiago Neves. Mas faz outra, faz outra.

 

Osíris se concentra novamente e lasca, implacável:

 

- Um ministro. Um ministro importante. Seus assessores pediram propina para donos de ONGs fantasmas. Os assessores serão presos e o ministro cai. O governo suspende o repasse de verbas para todas as ONGs.

- Meu Deus do céu! Isso é incrível! Queda de ministro, bloqueio de verbas, não tem como ser mais específico que isso e… (o apresentador bota a mão no ponto eletrônico e fica quieto. Ele olha para Osíris e fala, confuso)

- Olha, Osíris, parece que houve outro engano. Isso tudo que você falou aconteceu semana passada, exatamente como você descreveu. Deve ser um mal entendido, tenta de novo.

- Mas olha, seu Horlando, eu ia explicar e o senhor não deixou. Então, as minhas previsões são um pouco diferentes. Eu prevejo o futuro com muita precisão, mas só o futuro que já aconteceu.

 

O apresentador olha estupefato para Osíris, que não parece nada envergonhado. Quase podemos ver os palavrões que passam pela cabeça do apresentador. Calmamente, ele fala:

 

- Como é?

- É, então, eu prevejo o futuro, mas só depois que ele aconteceu.

- Bom, Osíris, então você prevê o passado.

- Não, não. Eu prevejo o futuro, mas só consigo ver claramente depois que ele acontece.

- O nome que se dá ao futuro depois que ele acontece é “passado”.

- Não não não não não. Eu prevejo o futuro, mas só depois que ele acontece. Ele continua sendo o futuro, só que já aconteceu.

- Eu também prevejo o futuro que já aconteceu, e todo mundo que lê jornais consegue. Aposto que qualquer um aqui na platéia pode dizer o nome do último presidente do Brasil ou do último Campeonato Brasileiro.

- Mas eu não li e nem sei o que aconteceu, eu simplesmente vejo o que aconteceu.

- Eu também, na TV

- Você não está levando meu poder a sério. Eu fecho os olhos e tudo vem, tudinho. Eu vejo tudo, com detalhes.

- E qual a utilidade de um poder imbecil desses?

- Eu não sei, só sei que eu prevejo o futuro, eu tenho esse dom. E isso pode ser muito importante para a humanidade.

- VOCÊ NÃO PREVÊ O FUTURO, PORRA, VOCÊ SÓ FALA DO PASSADO! PASSADO! PORRA, PÁRA DE FALAR QUE PREVÊ O FUTURO, SEU IMBECIL! VOCÊ SÓ FALA O QUE JÁ ACONTECEU, GRANDE MERDA! Produção, tira esse idiota daqui, puta que pariu! Da próxima vez comprovem a habilidade do sujeito antes de trazer um idiota desses pro programa! Vamos pros comerciais!

 

O apresentador chama os comerciais e sai, puto, xingando. Osíris, cabisbaixo, é conduzido pra fora do palco por uma menina de uns vinte e poucos anos. É o fim do sonho de Osíris de ficar mundialmente famoso. Hoje em dia Osíris tem uma barraca de achados e perdidos na Rodoviária de Niterói. As pessoas que perderam alguma coisa vão até ele e dizem o que perderam, e ele diz o que aconteceu e onde o objeto se encontra. Lá, pelo menos, ele pode provar que o seu poder não é uma fraude. É inútil, mas não é uma fraude.

 

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Uma comédia muito romântica 24/10/11


Depois de poucas semanas desde a primeira vez que ficamos, já estamos namorando. Desde lá nos vimos apenas cinco vezes. No total ficamos juntos pouco mais de 100 horas, e já estamos completamente apaixonados, fazendo planos a curto, médio e longo prazo. Juntos, ficamos bobos, esquecemos do mundo, da chuva, dos carros. Enquanto eu fecho os olhos quando ganho cafuné, ela olha para o vazio, aproveitando cada momento um com o outro. Cada cafuné, cada carinho, cada abraço, cada olhar, cada mão segurando a outra, cada gesto é cheio de significado, saudade, sentimento, vontade. Nada é involuntário e vazio. Tudo faz sentido. Como se estivéssemos em um filme.

Se alguém estivesse nos filmando o tempo todo não iria nem precisar mandar repetir as cenas. Nosso namoro é o tempo todo como aqueles clipes com trilha sonora que toda comédia romântica possui, onde o casal anda de mãos dadas, se beija na chuva, corre, deita na grama, se abraça, senta na praia vendo a lua etc. Nosso filme já teve o começo complicado, a mocinha dividida entre o mocinho e outro sujeito, já teve outras mulheres lindas tentando o mocinho, já teve pessoas mentindo e inventando coisas, já teve de tudo nessas poucas semanas.

E o melhor de tudo é que ela é a mocinha ideal. Ela olha pro vazio quando me abraça, bota a mão contra a minha no vidro do ônibus ao nos despedirmos, faz suspense para me pedir em namoro, faz piadas típicas das mocinhas eloquentes e descoladas das comédias românticas, que pedem cafuné na hora certa e são diretas na hora certa. Aquelas mocinhas de filme que são menininhas pra pintar a cara do namorado com hidrocor ou pra sair correndo na rua, mas ao mesmo tempo dão conselhos profissionais e sérios quando seus amados precisam.

É exatamente assim que ela é. A protagonista ideal da comédia romântica ideal escrita por um roteirista genial. Essa é ela. Linda, inteligente, engraçada, eloquente, safada na medida certa, menininha, madura. Daquelas que fazem você se apaixonar no primeiro beijo, e, no segundo, já querer se casar com ela. Mas essas coisas só acontecem em filme. Por isso ela é uma mocinha de filme, para que eu não me sinta idiota me apaixonando no primeiro beijo e querendo me casar com ela já no segundo. E eu, o típico mocinho de comédia romântica: atrapalhado, bobo, infantil, metido a engraçadinho, sem jeito, apaixonado e tentando usar frases bonitas e falas ensaiadas. E ela, como toda mocinha, gosta de mim como se eu fosse bonito, alto, forte, eloquente e esperto. Na verdade ela acha isso, mas toda mocinha acha isso do mocinho.

Enfim, somos o casal ideal das comédias românticas. Um cara normal e uma mulher extraordinária que acha o cara também extraordinário, quando ele é só um cara normal. Bom, o que quer que eu esteja fazendo pra ela pensar isso, não posso parar. Vai que ela descobre que eu sou uma farsa? Não posso correr esse risco.

 

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O Pedido 14/10/11

Ensaio para meu pedido de namoro da Deka Pimenta ao Senhor Pimenta:

 

“Olha, seu Samuel, na verdade é a primeira vez que eu faço isso. Eu tive seis namoradas antes da Deka, mas nunca precisei pedir nenhuma delas em namoro para o pai, então entenda se eu gaguejar. Bom, eu conheço a sua filha há sete meses. Sempre soube que teríamos algo um dia, por isso nunca tive pressa. Demos nosso primeiro beijo há três semanas, e antes dele terminar eu já estava completamente apaixonado por ela. Em duas semanas eu já tinha certeza de que ela era a mulher da minha vida. Com três semanas, eu já escolho a cor das paredes da nossa casa, os nomes dos nossos cachorros e penso que não vamos poder ter tapetes felpudos na sala porque ela é alérgica. Eu amo a sua filha como nunca amei ninguém. Ela é uma mulher maravilhosa, dessas que um homem acha que nunca vai encontrar um dia. Ela é exatamente do jeito que eu sempre quis que fosse a minha namorada, minha esposa, a mãe dos meus filhos.

A sua filha é uma mulher extraordinária, que com pouquíssima experiência com relacionamentos já é mais madura do que a maioria das mulheres que eu já conheci. Ela é carinhosa, atenciosa, madura, séria. Ela tinha tudo pra não aceitar namorar comigo: a distância, o fato de eu ser mais velho. Ela podia arrumar um namorado aqui de perto e ter um namoro normal. Mas ela aceitou e está fazendo tudo pra dar certo. Nós estamos. E exatamente por ser tão difícil agora, eu vou me esforçar como nunca pra fazer a sua filha a mulher mais feliz do mundo. Eu quero namorar, casar, ter filhos e netos com a sua filha. E eu nunca tive tanta certeza de algo da minha vida. E pode ficar tranquilo porque eu vou fazer tudo para fazê-la feliz. E eu que fiquei nervoso por ter que vir aqui falar com o senhor e pedir para namorar a Deka, estou muito feliz de fazer isso, porque a relação de vocÊs, da Deka com a família, é uma coisa que dá gosto de ver. Uma coisa que eu nunca tive, por isso eu dou tanta importância. Por isso é tão importante pra mim vir aqui falar com o senhor.  Mas pode deixar que os filhos nós não vamos fazer agora na sua frente não.”

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Tudo o que ele tem 10/10/11

 

Este texto é da minha namorada, Deka Pimenta. Eu pedi pra ela Ela quis postar aqui como resposta ao meu último texto. Espero que vocês gostem, porque eu adorei! Lóvisindié!

 

Ele tem nome de mocinho de romance adolescente. Me diz se Léo não é nome de namoradinho de livro?

Ele tem um brilho infantil nos olhos, que ele tenta esconder atrás de um constante sorriso de escárnio. É o brilho vivo de uma alma inquieta, que está o tempo todo imaginando e tentando entender o que acontece à sua volta. Talvez toda essa sensibilidade lhe torne vulnerável demais, daí o sarcasmo como proteção.

Ele tem um jeito de ver as coisas, que demonstra uma certa descrença com o mundo e as pessoas. Mas ao mesmo tempo ele não desiste. Não se encolhe em um canto, apavorado, muito menos senta de braços cruzados, resumindo seu descontentamento em um menear de cabeça. Ele vive.

Ele tem um jeito de abraçar, de deslizar as mãos pelo meu corpo, que me faz sentir ser uma poesia escrita em braile. Ele parece querer me desenhar com as mãos e ao mesmo tempo, me proteger com elas.

Ele tem uma expressão forjadamente indiferente, quando vai fazer arte. Ele te olha com uma cara inexpressiva, mas ali, entre as sobrancelhas, você sabe que ele vai aprontar alguma coisa. Eu adoro quando ele faz essa cara.

Ele também tem os lábios mais doces de beijar. Dá vontade de desligar o resto mundo e se dissolver naquele beijo, só para vivê-lo intensamente.

Ele tem covinhas. Quando ri aquele riso escancarado, jogando a cabeça e o corpo para trás, surgem furinhos lindos nas suas bochechas. Esse riso me disse que eu nunca precisaria impressioná-lo e agora eu fico tentando fazê-lo rir, só por causa dessas covinhas.

Ele tem as emoções à flor da pele. Não as controla e são tão intensas, que você é capaz de senti-las só de tocá-lo. Mas notei na forma como me sentou em seu colo, que sua vontade era cuidar de mim e não brincar de me iludir. E nos momentos em que franzia o cenho, percebi um medo enorme de me decepcionar.

Ele tem defeitos e qualidades e eu me apaixonei por ele inteiro. Me vi desejando conhecê-lo mais do que já conheci qualquer pessoa, para aprender a lidar com seus defeitos e fazer dele o homem mais feliz do mundo. Porque não há ser humano completo sem os pontos negativos e, quando se ama, ama-se o todo, não apenas o que te convém.

Ele também tem mais uma última coisa, mas isso é só consequência de todos esses detalhes: meu coração.

 

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Sempre foi ela 05/10/11

Eu sempre idealizei muito as coisas. Tudo. De uma entrevista de emprego a pedidos de casamento para namoradas que ainda não existiam. E na parte romântica dessa, digamos, característica, eu sempre idealizei até demais para um homem. Eu chegava a ponto de separar músicas e filmes para mandar para namoradas que eu não tinha, eu ensaiava pedidos de namoro para sogros que eu ainda não conhecia, eu escrevia discursos de casamento para noivas igualmente desconhecidas.

Nada disso nunca saiu do papel porque eu nunca havia encontrado a mulher para quem eu havia guardado tudo isso. E do término do meu último relacionamento cheguei a pensar que jamais colocaria todo o ensaiado em prática, porque aquele mulher não existia. E se existisse não ia perder tempo comigo, ela iria atrás do sujeito idealizado por ela, que logicamente não seria eu.

Como diz o Verissimo, Ledo e Ivo engano. Eu a encontrei. Em uma cidade do interior de Sao Paulo, encontrei a mulher dos meus sonhos se escondendo atrás da frustração de relacionamentos passados. Escondendo toda a sua perfeição por causa do medo de sofrer, de se entregar. Doída e machucada por achar que nenhum homem nunca havia lhe dado o devido valor. Claro que não deram, nem podiam! Ela é a mulher dos meus sonhos, não dos deles! Era ela. É ela. Sempre foi ela. Sempre foi pra ela que guardei as músicas, as poesias do Pessoa, do Vinicius e do Drummond. Sempre foi pra ela que eu ensaiei “eu te amo”. Sempre foi pros pais dela que eu li pedidos de namoro na frente do espelho ou durante o banho. Sempre foi.
Sempre foi ela que povoou meus sonhos. Sempre foi essa baixinha de pouco mais de quarenta quilos que me fazia pensar nas loucuras que eu um dia faria por amor e nunca fiz. Sempre foi por ela que eu pensava em passar um dia em outra cidade, sempre foi a ela quem eu queria surpreender de aparecer na cidade dela a 500 quilômetros da minha e dizer “Vem me buscar na rodoviária, vim só pra te dar um beijo”. Sempre foi ela. É ela. Sempre foi com ela que eu queria envelhecer na cadeira de balanço na varanda, de mãos dadas, vendo os netos brincando com os cachorros no quintal. Todas as dedicatórias imaginadas dos meus livros sempre foram pra ela.

Sempre era ela que, nos meus sonhos, não me julgava pelos meus defeitos nem tentava me mudar como se eu fosse um monstro. Sempre foi com ela que eu compartilhei meus sonhos, meus desejos e meus medos. Sempre foi dela o cafuné que eu queria ganhar pra dormir. Sempre. E agora precisamos começar logo, porque tem muita coisa acumulada pra ela.

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