/Últimos posts

Desglobalização 15/02/09

Tava na cara que não ia dar certo. Desde o começo eu torço o nariz pra isso. não era um nomezinho e meia dúzia e reuniões e Fóruns que iam unir um mundo que tenta se destruir há dezenas de milhares de anos. A Europa sempre se achou a única parte civilizada do mundo, e não ia ser com uma palavrinha criada pra se ter assunto nas revistas semanais que isso ia mudar. Desde que se começou a falar em globalização, essa palavrinha que nunca quis dizer nada de concreto, veio esse papo de aldeia global e blábláblá sociológico de conversa de botequim. Alguém achava mesmo que os Europeus iam achar legal os imigrantes “roubando” os empregos deles, tanto os de baixa quanto os de alta qualificação? Algum imbecil tinha a ilusão de que os EUA iam afrouxar a lei de imigração e aceitar de braços abertos os latinos e os asiáticos? Algum cretino em algum momento máximo de imbecilidade achou que povos que tentam se matar a milênios iam agora se dar as mãos, brincar de roda e ficar amiguinhos? Alguém se iludiu que eleger um preto, filho de africano que cresceu na Indonésia como presidente lá de cima ia mudar alguma coisa? Essa crise financeira serviu pra acabar de vez com esse papinho de globalização. Fronteiras fechadas, protecionismo e o auge da cretinice – o patriotismo – voltaram à moda e se esqueceu a palavrinha mágica do parágrafo anterior. Vão sobretaxar as importações, arrochar a entrada de imigrantes e fomentar esse câncer dos imbecis que é o nacionalismo. Sabem o pacote de estímulo à economia que a América lá de cima liberou? Então, tem uma cláusula chamada “buy american”, que só disponibiliza o benefício se as empresas se comprometerem a só comprar produtos americanos, e VETA, repito, VETA, a compra de aço e ferro estrangeiro pras obras americanas. Bacanão, né?! Enquanto isso, no mundo civilizado do Velho Continente, uma lei italiana obriga médicos a delatar imigrantes ilegais que forem atendidos por eles, skinheads espancam imigrantes pelas ruas e na França, o governo vai recompensar com vistos os estrangeiros que denunciarem redes ou grupos de imigrantes. Isso sem falar no povo do Oriente Médio. Eles pelo menos são constantes: a globalização nem abalou a matança deles. Eles não tão nem aí. Se matam sem preconceitos de cor, nacionalidade ou conta bancária. E aliado a isso ainda tem os idiotas idealistas, que acham que o Getúlio não foi um ditador, que Che não foi um assassino e que Fidel e o Chavez se preocupam realmente com o povo. Aí fazem Fórum, reunião e o escambau, achando que isso vai mudar alguma coisa. Vai nada. Ainda mais agora que eles acharam a desculpa ideal pra voltar à desglobalização. Enquanto tiver babaca pra sair daqui e ir lavar chão na Europa ou cortar grama nos EUA isso vai acontecer. Enquanto tiver idiota sonhando em morar fora só pra ter carimbinho no passaporte, isso vai acontecer. Sou totalmente contra o patriotismo, sempre fui e sempre vou ser, mas daí a ir lavar pratos ou ser babá em outro país já são outros quinhentos. O Brasil é uma merda, mas lá fora também é. A diferença é que eles não deixam a merda entrar, enquanto nós vivemos engolindo a merda deles e achando que a merda deles é mais cheirosa. Se o Brasil fosse protecionista como eles são e não deixasse qualquer estrangeiro de bosta fazer o que quiser aqui dentro, eles iam se incomodar. Não é patriotismo. Patriotismo é uma idiotice. É só um pensamento antigo de que se eu tenho dez, você tem mil e a gente junta, você levou vantagem. Então porque achar que quem tem mais vai querer juntar alguma coisa? É aquela velha estória: filho, peido e crise financeira, cada um só agüenta o seu…

Ler o Restante

Videogame, Freud e Peitos 12/02/09

Depois que Freud, Lacan e seus amiguinhos deram o ar da graça, o mundo nunca mais foi o mesmo. Há de se admitir que o ramo da psicologia tornou a nossa vida muito mais divertida, além de ter criado boas desculpas. Nada melhor, por exemplo, do que justificar aquela clássica troca de nome da namorada pelo da ex em momentos impróprios com o bom e velho Déficit de Atenção, ou explicar que aquilo que a amiga dela viu na noite anterior era tão somente um caso de Síndrome de Estocolmo e que aquela loira pendurada no seu pescoço havia te seqüestrado horas antes, e tudo não passara de um surto da rara síndrome. Você não teve culpa.
Mas de todas essas síndromes, distúrbios e taras, a minha preferida é a síndrome de Peter Pan. Todo mundo sabe que nós homens somos idiotas, não crescemos nunca, mas agora temos justificativa médica: temos síndrome de Peter Pan. Mas isso não é nenhuma novidade, como eu disse. Jogar videogame, colecionar carrinhos ou ver e rever e rever e rever e rever Indiana Jones, De Volta para o Futuro ou Rocky são coisas que milhões de homens fazem todos os dias. Até porque, como todo mundo sabe de novo, videogame é que nem peitos: foram feitos pras crianças, mas os adultos se divertem muito mais com eles. Eu por exemplo duvido que qualquer criança no mundo se divirta mais que eu com um belo par de… er… com um bom videogame. Duvido.
A diferença entre ser adulto e ser criança é que quando a gente vira adulto, os brinquedos ficam mais caros. E mais divertidos, não resta dúvida. Mas qual o problema disso? Um sujeito não pode ser um profissional respeitado e competente e jogar videogame em casa? Essa cultura do funcionário do Banco do Brasil que chega em casa e janta com a família vendo o Jornal Nacional anda meio fora de moda. Com a chegada da internet, é muito mais fácil encontrar pessoas que compartilhes dos mesmos gostos e hobbies que a gente, e então esse hobbies ficaram mais profissionais, por assim dizer.
Eu coleciono brinquedos, leio quadrinhos, tenho um copo do filme Madagascar aqui no trabalho, vejo desenho animado, jogo videogame quase todo dia e entro em um estado de transe profundo vendo jogos do Fluminense. E não sou nenhum idiota por isso. Até sou, mas não por isso. Até por que, no fim das contas, como eu disse lá em cima, todo o nosso trabalho é só pra bancar os brinquedos, que ficam mais caros com a idade. Ah, e também temos que guardar algum pro analista quando a namorada começar a reclamar que nós somos doentes pelo nosso time de futebol ou que não pega bem ficar andando com camisa de desenho animado. No fundo no fundo, é tudo culpa dos psicanalistas. Menos a parte dos peitos, claro.

Ler o Restante

O turista diário 05/02/09

Apesar de nunca ter parado pra pensar nisso, sempre que paro pra pensar na minha relação com a cidade do Rio de Janeiro me lembro daquela antiga piada que acabei de inventar, da prostituta que queria mudar de vida e arrumava um namorado de 87 anos com Alzheimer, porque todos os dias ela dizia pra ele que só tinha tido um homem na vida, e todos os dias ele tinha prazer em ser o segundo. Sem conotações sexuais, claro, mas é assim que me sinto em relação à cidade do Rio de Janeiro.
Explico: podem anotar o que eu vou dizer. A melhor maneira de se amar e conhecer a cidade do Rio de Janeiro é NÃO tendo nascido na cidade do Rio de Janeiro. É isso mesmo. Eu nasci e moro em Niterói. Pra quem não conhece, Niterói fica entre a ilha de Lost e o Triângulo das Bermudas, há doze quilômetros do Rio. Sendo Niterói uma cidade relativamente pequena, vizinha de porta do Rio e com menos de um milhão de habitantes, os moradores de Niterói, via de regra, trabalham no Rio de Janeiro. Excetuando-se, claro, as profissões que existem em qualquer cidade, como médico, professor, advogado ou acessor fantasma de vereador. E eu não fujo à regra.

Mas quanto a nascer aqui ser a melhor maneira de se amar e admirar o Rio de Janeiro, vejam se não faz sentido. Desde criança, pra mim Copacabana nunca foi logo ali, eu não via o Cristo Redentor da janela da cozinha nem ia todo fim de tarde caminhar no Aterro do Flamengo. Essas coisas pra mim eram como pontos turísticos. Mas aí vem a parte boa: pontos turísticos que eu visitava todo mês, alguns toda semana, na pior das hipóteses uma vez a cada dois, três meses. E era o suficiente pra eu sentir saudades e me maravilhar a cada uma das duzentas vezes que eu ia ao Pão de Açúcar ou à Praia de Ipanema. Morando em Niterói nunca se corre o risco de achar o Rio um lugar banal, corriqueiro.
Todos os dias eu pego meu ônibus e vou pro trabalho, no Rio. Eu nem trabalho tão longe, sem trânsito, ou seja, nunca, leva uns trinta minutos pra chegar. E na ida, ainda de dia, eu raramente vou fazendo alguma coisa. Geralmente eu vou ouvindo música e olhando pela janela. É bacana, o ônibus vai pela orla, vou vendo a praia, o Cristo lá longe, um assalto li na calçada, a praia na esquina do meu trabalho… Mas eu não fico lá. Eu volto pra casa, e no dia seguinte vejo tudo de novo. E no fim de semana que eu não vou trabalhar (não que eu esteja reclamando, eu posso viver com isso), a viagem na segunda-feira parece a primeira em meses. E às vezes eu vou pro Rio no fim de semana, e apesar de já ter estado ali algumas dezenas de vezes, me sinto um turista, e o assombro e o arrebatamento, e “How Insensative” tocando baixinho lá no fundo, são sempre os mesmos.
Se você sai de Niterói e vai pra Barra da Tijuca, por exemplo, pela orla, você se sente em um videoclipe de uma música do Tom e do Vinicius. É sensacional. Pra quem não é do Rio, a distância entre Niterói e a Barra de Tijuca equivale àtrês vezes a distância entre a Terra e a Lua . Você passa por metade da cidade: Flamengo, Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon, Acre, Fernando de Noronha, aí depois chega na Barra. E ao mesmo tempo que eu to lá, andando pela rua por onde andaram Drummond e Vinicius, almoçando no restaurante onde um dia almoçaram Noel Rosa ou Chico Buarque, aquilo não é corriqueiro pra mim. Eu vou voltar pra casa, e voltar lá pra visitar no dia seguinte.

Por isso eu me considero um carioca mais sortudo que os cariocas, porque eu tenho a honra e o prazer de visitar o Rio de Janeiro todos os dias, mas não o vejo o tempo todo. O Rio é a cidade mais bonita de todas as que eu conheço, e melhor ainda do que viver nela é visitá-la todos os dias. Não se corre o risco de achar aquilo corriqueiro ou de deixar passar despercebido. É como se apaixonar pela mesma mulher todos os dias. Ou, na pior das hipóteses, é como namorar uma mulher que é ninfomaníaca de noite e maníaco-depressiva de dia, e só ir visitá-la todos os dias depois do trabalho. E do jeito que anda o Rio, visitar a ninfomaníaca só de noite diminui os riscos de ser assaltado em um sinal onde um dia já atravessou Pixinguinha ou ver seu time perder pro Duque de Caxias por três a zero no mesmo estádio que já jogaram Rivelino, Washington e Assis…

* Esse texto é um exercídio para um curso que eu estou fazendo. Opinem, por favor, e me ajudem a ganhar meu primeiro milhão antes dos trinta. Só falta um ano.

Ler o Restante

Os apelidos arruinaram a década de 80 03/02/09

Quando eu era criança na década de oitenta – sim, apesar de não existir provas, de fato existiu uma década de oitenta – os apelidos começavam a se tornar sucesso de público e crítica. Restritos aos mafiosos, criminosos, jogadores de futebol e bailarinos nas décadas anteriores, nos anos oitenta os apelidos começaram a invadir a classe média. Apelidos como cabeção, dentinho, mosquito, fininho, quatro-olhos, roliço, capacete, alemão, negão, tiziu, entre outros, subiam os elevadores da classe média e se alojavam entre os Master System e as TV acopladas com vídeo-cassete.

No início a gente ficava meio chateado, mas depois se acostumava. Raros eram os apelidos que nos satisfaziam e nos orgulhavam, como cachorrão (sem conotação sexual, gente), martelada ou pé-de-mesa (com conotação sexual, gente). Mas aprendíamos a ser o caniço, o free-willy ou o brinquinho. E os Rambos, Touros ou Rivelinos eram mais felizes que nós, mirolhas, chupetas de baleia, zoinho ou dumbos. E eu cresci sonhando em uma infância mais feliz, onde eu mesmo escolheria meu apelido, e seria respeitado por ele e as garotas babariam por mim, sem sequer me conhecer pessoalmente, só pelo apelido. Qual garota rebelde e louca por aventura não adoraria namorar um Chacal ou um Martelada? Eu por exemplo, que já tive apelidos como sapinho, cabide, mosquito, salsicha, sonhava em com alcunhas como Bruce Lee, Chacal, Dragon, Matador, Léo Alicate, Navalhada ou Long Dong Silver.
Aí veio a internet. No início, nós éramos nós mesmos. Depois, os nicknames ganharam poder nas salas de bate papo de no MIRC (alguém lembra?). E então, nós, jovens humilhados pelos apelidos dados antes de existirem direitos humanos, o politicamente correto e a Márcia é Goldschmidt pra nos defender, agora tínhamos o mundo em nossas mãos: poderíamos ser os senhores do nosso destino! Tínhamos o poder de nos auto-apelidar, e o melhor, todos iam nos chamar assim, pois em pouco tempo os nicknames migraram para a vida real. Com o amadurecimento, eu escolhia Nicks que condisessem com a minha idade, como Sideshow Bob, Tong Pho ou Marty McFly. Coisa de adulto.
Eu não canso de falar que hoje em dia as crianças e os jovens são muito mais felizes. É comum você ver adolescentes se chamando de Red Dragons, King Arthur, Tripé, Killer ou Skywalker. Parece bobagem, mas a minha vida teria sido bem melhor e eu teria poupado anos de análise se em vez e Salsicha ou Mosquito, eu tivesse sido o Rança-Toco ou o Chuck Norris. A culpa do limbo da geração de oitenta é toda dos apelidos. Aposto que se o Leoni, o Silvinho Blau Blau ou a Rosana tivessem tido apelidos decentes e respeitosos, eles teriam tido muito mais sucesso. E se eu tivesse sido o Scorpion ou o Pé de Mesa, com certeza nesse momento eu estaria nas Ilhas Gregas. Tomando Mojitos servidos pela Gisele Bundschen e pela Patrícia Poeta, que teriam tido, nesse futuro paralelo, apelidos como Garça ou Vara de Pescar, e acabariam garçonetes.

Ler o Restante

"África proíbe pretos de cagar na entrada e na saída" 30/01/09

"Candidatos epiléticos se debatem na TV."

"Candidatos gays são tudo na reta final"

"Nelson Ned é o novo Menudo"

Calma, calma. Antes de denunciar o Ego pro google, acionar seus advogados e mandar o Sting e o Bono reclamarem da gente, eu explico. As frases acima, incluindo a do título, foram manchetes do Planeta Dirário.  Pra quem não sabe, o Planeta era uma publicação sensacional, capitaneada pelos Cassetas Hubert e Reinaldo, e pelo Cláudio Paiva. Os caras não tinham o menor pudor nem auto-censura. O tablóide foi publicado entre 1984 e 1992. Pra alguém que deve ter sido processado por Deus e o mundo, oito anos não são pouca coisa. Com manchetes desse tipo,  minha enorme inveja e admiração por eles é compreensiva. Cada época tem o humor que merece Aliás, mais do que inveja deles eu tenho é inveja da época em que as pessoas que não tinham o que fazer iam pra orgias, fundavam clues de chá ou se candidatavam a presidente, e não ficavam por aí reclamando que tudo é imoral, ofensivo, chato, bobo, feio e cara de melão. O humor negro sempre esteve presente nas piadas, e não vai deixar de estar nunca. Depois dessa onda politicamente chata, preto não pode mais ser safado, nem bicha pode ser promíscua, senão é preconceito. Só se pode fazer personagem preto em novela se ele for bomzinho, e gay tem que ser correto, falar melhor que o Pasquale, ser bonito, sincero, fiel e um exemplo de probidade e cidadania. Hoje em dia, ser preto, homossexual ou qualquer outra minoria é sinônimo de coitadinho. Ninguém pode te ofender, te negar um emprego ou não querer namorar você. Porra, eu tenho todo o direito de falar que um preto é safado se ele realmente é safado. Ou se um gay me desrespeita, eu tenho todo o direito de tirar satisfação, como uma mulher faz com um homem que a desrespeita. E tenho dito.

 

Ueeeeepaaaaa!!!! Quérida, eu sou preta, homossexual... Se eu fosse judeu iam criar um pais só pra mim! Não mexam comigo, invejosas! Resumindo: o mundo ficou chato, os pretos ficaram todos honestos e os homossexuais ficaram todos fiéis e honestos. E eu? Me chamar de quatro olhos, magrelo ou nerd pode, mas se quem me chamar for preto e eu xingar ele de viado é racismo? Espero que vocês, nossos leitores, tenham a mente aberta e concordem com a gente. Senão vou começar a torcer pros meus filhos nascerem pretos, veados e torcedores do botafogo. Eles vão ter o mundo pra defender eles dos humoristas malvados e preconceituosos, como nós… 

Ler o Restante

Ver pra crer 25/01/09

Quem já ouviu jogo do seu time pelo radinho, já foi corno ou já ouviu os gemidos tórridos vindos do apartamento de cima há de concordar comigo: uma coisa é SABER de alguma coisa, outra coisa é TER CERTEZA. Explico. Dia desses um chegado meu me contou a vergonha que a namorada sentia ao voltar do motel (Motel) de táxi. Até que um dia, meu amigo, já prevendo que eu roubaria sua estória para uma crônica, resolveu questionar a mulher:

- Mas amor, se a gente pegasse um táxi num Shopping, por exemplo, você acha que o taxista ia achar que eu sou um fiel da Renascer em Cristo e você é a Sandey, e vamos casar virgens? Claro que não, amor! – Interroga meu camarada, que vai ter sua identidade preservada por motivos autobiográficos

- Lógico que não, né! Mas uma coisa é saber, outra é ter certeza. Se a gente pegasse o taxi no Shopping ele não ia pensar “Aahh, safadinhos… Passaram a noite transando, almoçaram em casa e agora tão no Shopping fazendo compras. Aposto que pediram pra deixar eles no teatro pra disfarçar e ir pro Motel de ônibus transar a noite toda”. Porra, agora, saindo dum motel, você quer que ele pense o que??

Meu amigo teve que admitir a derrota. Ela estava certa. Quando você sai do motel o taxista, a recepcionista ou o marido da mulher que estava lá com você, já sabem o que vocês estavam fazendo lá dentro! Aí, camarada, estamos todos a mercê da imaginação deles. Se foi por cima, por baixo, cospe, engole, se tinha algum legume ou chicote no meio. Ele sabe. E tudo o que você disser, vai parecer que ele não para de pensar no que vocês estavam fazendo lá dentro.

- Boa noite, amigo, eu vou pra Rua Não sei das Quantas, 132.

- Pois não. Quer que ligue o ar?

- Pode ser. – Mas no fundo você ta pensando “porra, eu sei que ta calor, não precisa insinuar que eu to suado porque transei a noite inteira”. – E por aí vai.

E você vai ficando puto, porque ele vai imaginando a sua mulher pelada, achando ela gostosa,  pensando nela em cima de você, te beijando, te acariciando… E você já acha que ele ta olhando pra ela pelo retrovisor pensando “ahah, safadinha, hein!”. Aí você pede pra ficar em um restaurante, e ele só responde um “uhum”, mas o que você escuta é “porra, foderam a noite toda, tem mais é que esta com fome mesmo!”. E se tiver engarrafado, você pede pra ficar no meio do caminho e ir andando, e ele fala que sim e pára o carro, mas você já imagina ele pensando que dinheiro pra comer a namorada você tem, mas não pra pagar um táxi.

Infelizmente, a namorada do meu amigo do primeiro parágrafo estava certa. Da próxima vez que for à um motel sem carro, vou dizer pra pessoa que estiver comigo que eu tenho uma fantasia de fazer amor vestido de instalador de TV a Cabo. E ela também. Aí quando a gente sair e entrar no carro, eu mando logo um “camarada, me deixa por favor no restaurante Tal. Passamos a manhã consertando a TV nessa merda. Foda que não dá nem pra sentar na cama, mó nojo”. E então ele vai ficar orgulhoso de estar carregando em seu táxi um sujeito trabalhador, que nesse feriado com um calor danado, tava trabalhando, dando duro, ao invés de ficar aí fazendo sacanagem. Ficamos feliz eu, a minha companheira e o taxista.


Ler o Restante

Rodrigo Santoro versus poesia versus dinheiro 21/01/09

Basicamente, há três tipos de mulheres comprometidas que já tem meio caminho andado rumo à felicidade eterna e às cenas em câmera lenta na chuva tocando jazz ao fundo: as que namoram ou são casadas com escritores, com homens ricos e a Ellen Jabour, porque eu sou macho mas o Santoro é boa pinta pra cacete. Mas mesmo esses três tipos de mulheres têm suas desvantagens. E pra nós, escritores, milionários ou o Rodrigo Santoro, também há desvantagens. No caso dos milionários e do Rodrigo Santoro, eu fui pro almoço e voltei e não consegui pensar em nada, então vou falar só nas desvantagens de se ser um marido/namorado/noivo escritor.

Pra começar, a cobrança. Porra, se a gente vive dessa merda, tudo o que a gente escreve, na idéia delas, tem que ser genial. Bilhete dizendo que vai se atrasar, cartão de visitas, mensagem de celular, até assinatura em cheque tem que ter genial. “Anota seu telefone aqui pra mim”. “Ta”. “Porra, que droga de escritor é você? Só isso? Seu nome e telefone?”. Da próxima vez eu escrevo o Soneto da Fidelidade ou a Lira Romantiquinha. Porra. Se uma mulher namora um médico e fala que ta com uma dorzinha da barriga ela pede pra ele puxar um bisturi e tirar uma pedra dum rim? Ou se namora o Marcelo Camelo ela pede pra ele… pra ele… eh… ela pede pra ele… cantar Ana Julia em todas as festas que ele vai?? Claro que não.

Passando essa fase, tem outra: a da comparação. Por mais que a gente tenha a mesma coisa a falar pra cinco pessoas, não vai ser da mesma maneira. Aí fulano acha que o depoimento de cicrano é melhor que o dele, aí Zé acha que o scrap que você mandou de feliz aniversário pra Maria ficou mais engraçado que o dele, e por aí vai. Mas o pior é quando a comparação é dos textos românticos. A primeira namorada é uma sortuda: tudo aqui que a gente sempre sonhou em escrever, é ela quem vai ganhar. Milhares de cartas, texto todo dia… Aí acaba o namoro e vem a próxima. E como inspiração é pros fracos e pros atores pornô, a gente faz cartas e textos mil também, mas o tema não varia, o que varia é a forma de dizer. Aí, camarada, na terceira namorada, fodeu. “Pra sua ex você escrevia todo dia, já tem cinco dias que você não me manda nem uma cartinha”, “Poxa, só um cartão” ou “Os textos pra Rosilene eram muito mais bonitos que os meus” são frases comuns de se ouvir.

Mas também tem a vantagem da punheta de ego. Se você escreve razoavelmente bem, é muito pouco provável que alguma das suas amigas tenha um namorado que escreva como você. E todas elas vão morrer de inveja quando lerem os seus. Se você souber dosar humor com o romantismo então, camarada, é batata. Mas mesmo assim, se prepara. É quem nem ser cozinheiro ou barman. Vai ter que cozinhar e fazer drinquezinhos coloridos com guarda-chuvinhas todo dia. A não ser, claro, que você seja milionário ou seja o Rodrigo Santoro. Se você for rico, me contrata pra escrever, contrata o Olivier Anquier pra fazer o jantar e manda brasa na patroa. Agora, quanto ao Rodrigo Santoro, camarada, se conforme. Se um dia a sua mulher estiver frente a frente com o sujeito, não há dinheiro, poema ou cinto de castidade que dê jeito. Parafraseando alguém que não lembro que, falando a respeito do Chico Buarque, todo homem é corno do Rodrigo Santoro. Menos eu.

Ler o Restante

Sobre bebida, Ritalina e a Luciana Gimenez 18/01/09

Há uns dias um amigo de um amigo me perguntou se eu não bebia, numa roda de amigos, e eu disse que não. Eu não bebo porque eu não gosto mesmo, nunca gostei. Mas pra evitar piadas criativas e inovadoras do tipo “não sabe o que ta perdendo” ou “nunca fiz amigo bebendo leite”, geralmente eu falo alguma gracinha, das quais a minha preferida é dizer que sou ex-alcoólatra e ex-dependente químico. Aí nego fica sem graça e o assunto acaba. Mas nesse dia eu tava de bom humor – maldita hora – e resolvi falar que não gostava. E caí na asneira de falar que além de não gostar, não posso beber, pois tomo dois remédios de tarja preta. Depois de uma brevíssima explicação de que sofro de Déficit de Atenção pronto, me fodi. O tal sujeito começou um discurso já bastante influenciado pelo álcool que ele, infelizmente, podia beber, e bebeu. Aí falou que na época dele não tinha isso. que essa frescura de depressão, DDA, hiperatividade, era tudo frescura, e que os médicos inventaram isso pra ganhar dinheiro. Como não tivesse nenhum objeto contundente mais pesado que uma garrafa de whisky a mão pra encerrar o assunto da maneira que ele merecia ser encerrado, tive que me contentar em argumentar verbalmente. Disse que não ia discutir com um imbecil desses, e que se ele continuasse enchendo meu saco eu ia enfiar o meu guarda chuva no rabo dele e abrir ele lá dentro. Aí ele voltou pra cerveja e a discussão acabou. Mas eu dei essa volta toda porque é comum eu ouvir isso. Que antigamente não tinha isso, não tinha aquilo. Mas não é que não tivesse. “Antigamente” não existia a quantidade de estímulos, informação e canais adultos que existe hoje em dia. As crianças não tinham tantas opções de profissões, não tinham tantas distrações nem tinham a possibilidade de ver o programa da Luciana Gimenez apresentando um padre, um ex-travesti e um antropólogo discutindo a influência da televisão (!) sobre as crianças. Haja tratamento. Só eu assino sete revistas, três jornais; tenho 122 canais na TV à cabo, cinco mil músicas no meu computador e/ou no meu celular, leio entre quatro e sete livros ao mesmo tempo e, via de regra, não lembro de porra nenhuma do que li, vi ou ouvi dois dias depois. E haja Roupinol, Alpazolam, Ritalina e o comando vermelho pra nos dopar e nos manter nos trilhos. São outros tempos, outros problemas, outras soluções. O que antigamente era socialmente aceito para se livrar do estresse do dia-a-dia hoje não é mais. Hoje em dia, ao invés de chegar em casa bêbado, meter a porrada na mulher, comer a empregada, mijar no armário da cozinha e ir dormir de sapatos abraçado com o cachorro, a gente toma tarja preta. Uma troca justa, se você for a esposa, a empregada ou o cachorro. Quanto à mim, não trocaria nem a minha assinatura da Japan Sex nem o “Cana do Boi” na TV à cabo para parar de tomar remédios. Como diria o necrófilo, ossos do orifício…

Ler o Restante

O BBB que realmente importa – Papo de Homem na final do Best Blogs Brasil 15/01/09

Bom, vocês sabem que eu nunca faço propaganda, jabá e essas viadices aqui. Mas resolvi abrir uma exceção. A revista online Papo de Homem, da qual eu sou colunista, está participando da final do concurso Best Blogs Brasil. O BBB (o Best Blogs Brasil, não o outro) é uma votação dos melhores blogues brasileiros, divididos por categoria.

banner-bestblogsbrasil

E como eu conto com uma legião de dezenas de milhares de leitores diários, resolvi lhes pedir que votassem na Papo de Homem, pra depois eu poder jogar na cara do Guiherme que ele só ganhou por minha causa. E eles só estão trinta votos atrás do segundo colocado, ou seja, uma barbada pra vocês, queridos e fiéis leitores. É só clicar no banner aí em cima, fazer o cadastro rapidinho e votar. Podem ter certeza que se vocês fizerem a Papo de Homem ganhar, vou chantagear o Guilherme e pedir uma promoção exclusiva pros meus leitores. Ou no mínimo uma compensação financeira pra mim. É isso, galera. Votem, a Papo de Homem merece. E aproveitem pra me ler lá também. Inté.

Ler o Restante

Efeito Caderno Novo 12/01/09

Hoje é meu último dia no meu atual emprego. Amanhã fico na molezinha e quarta já começo no novo. Também é uma agência, só que de internet. Vou trabalhar na mesma área, só que com estrutura e trabalho de verdade. Mas ninguém tem nada a ver com isso, e vocês não vieram até aqui pra ler diarinho. Só falei isso porque tem a ver com outra coisa que eu já queria falar. É o Efeito Caderno Novo. Não procurem no Google, acabei de inventar. E o que esse feito tem a ver com mudar de emprego? Calma, vamos chegar lá.

Desde criança eu sou um cara muito disperso. Nunca gostei de estudar no sentido “escola” da coisa. Gosto de ler, estudar de verdade, mas estudar como se estuda na escola, nunca gostei. Mas tinha uma coisa que me fazia estudar, além de fazer trabalho em grupo com a gostosa da sala e as promessas de recompensas em dinheiro em caso de aprovação: comprar caderno novo. Bicho, era impressionante! Durante o ano eu não usava nem dez folhas do caderno. E se usava, nove eram desenhando guerra de bonequinhos de palitinho. Mas no final no ano o caderno tava chechelento, todo ferrado coisa e tal. Então aquele caderno ia pra pilha de cadernos não-usados e lá ia eu comprar um novo. 

É aí que entra o Efeito Caderno Novo: quando eu comprava um caderno novo, comprava também canetas, livros e toda a parafernalha estudantil junto. E eu saía da papelaria pronto pra conquistar o mundo, pra ir pra Harvard, pra fundar o Google! Porra, eu tava de caderno novo, ninguém me segurava! Aí eu ficava inquieto esperando o começo das aulas, doido pra começar logo e encher meu caderno de equações e fórmulas e textos! Eu só ia tirar dez e ia ser o próprio Ernest Hemmingway com meu caderno debaixo do braço! Aí as aulas começavam e eu enchia dez páginas do caderno na primeira semana de aula, fazia dever de casa e tudo o mais. Aí na segunda semana eu já nem levava mais a porra do caderno pra aula, muito menos estudava qualquer coisa.

Aí depois eu descobri que, em menores proporções, esse Efeito acomete muita gente. E agora, fazendo o linque com o primeiro parágrafo, eu também sou assim no trabalho. Eu gosto de mudanças de ambiente, acho bacana, enriquecedor. Desde o primeiro dia que eu fechei com a nova agência eu já fiquei morrendo de ansiedade pra começar logo, já entrei no site, pesquisei sobre os clientes, a porra toda! Começo quarta feira, mas parece que tenho um encontro marcado com a Angelina Jolie! Vou hegar uma hora antes e sair uma hora depois na primeira semana! Vou me sentir prestes a conquistar o mundo, ganhar um Leão em Cannes, um Oscar e em um ano já comprar meu Jaguar X Type 1967 e em dois anos já estar morando em uma mansão em Malibu com duas secretárias tailandesas que andariam somente de colares floridos (SOMENTE) me servindo. 

Mas nesse caso, eu não vou deixar o caderno em casa. A empolgação vai continuar, até porque, até hoje nenhum leitor quis me pagar uma fortuna pelos meus textos nem fui convidado a escrever um livro que seria traduzido em trinta e oito línguas. Mas pro caso de algum dos meus futuros chefes estarem lendo isso, aquilo de chegar cedo e sair tarde era licença poética, oquei? Mera licença poética.

Ler o Restante