Categoria: Destaque 08/11/11
Osíris era um vidente. Ele era capaz de adivinhar com precisão os acontecimentos do futuro. Não fosse por um quase insignificante detalhe – em suas próprias palavras. Durante toda a sua adolescência, logo após o seu poder se manifestar, Osíris tentara, sem sucesso, cobrar por consultas públicas aos astros para ler o futuro das pessoas. Sua empreitada durou poucas semanas. Por fim, Osíris desistiu de tentar levar o bem ao mundo através do seu poder e virou revendedor da Avon.
Um dia Osíris vendeu hidratante de pele e creme adstringente para um produtor de um dos maiores programas de auditório na TV brasileira. Durante uma conversa corriqueira sobre óleos aromatizantes e esfoliantes, Osíris comentou sobre seus poderes. O produtor ficou estarrecido. Osíris conta que havia acertado o placar de todos os jogos da última rodada do campeonato brasileiro, bem como adivinhara os nomes dos dois ministros que caíram e dois artistas que morreram de forma repentina. O produtor estava maravilhado com a precisão dos poderes de Osíris! Com apenas uma ligação o produtor já havia acertado a ida de Osíris ao programa para fazer uma demonstração dos seus poderes. Seria a maior história da TV brasileira desde que aquele ministro caiu porque descobriram que ele tinha um caso com um campeão mundial de Luta Greco-Romana, e os dois foram se casar em Iguaba e abriram uma loja de antenas parabólicas.
Nos bastidores, Osíris estava muito nervoso. Ele iria entrar ao vivo no programa do Horlando Enrique, o maior apresentador do Brasil. Ele iria entrar, fazer algumas previsões e sair nos braços do povo, amado e aclamado como o maior vidente do país, quiçá de todo o mundo. A produção veio avisar. Dois minutos. Quarenta segundos. Entra lá e arrasa, Osíris! Osíris entra no palco e, meio atordoado, vê todas aquelas luzes e todas aquelas pessoas olhando para ele. O apresentador vem buscá-lo no fundo do palco e o conduz até o centro.
- Qual o seu nome? – Perguntou o apresentador.
- Osíris Nascimento – Respondeu nosso herói, tímido.
- E então, Osíris, me falaram que você tinha um poder, uma coisa mística, é isso mesmo?
- É isso mesmo, seu Horlando.
- E qual é esse seu poder, conta pro pessoal que está em casa?
- Eu tenho o dom de prever o futuro.
A platéia fez “óóóóóóhhhhhhh”, e o apresentador fez a típica cara de surpresa do mocinho que pega a mocinha na cama com o vilão.
- Prever o futuro você diz adivinhar os acontecimentos?
- Isso mesmo, seu Horlando.
- Então vamos fazer um teste, a galera de casa já está duvidando desse seu poder aí. Fala aí então quem vai ser o próximo presidente do Brasil.
- Hhmm, bom, seu Horlando, meu poder é meio específico e eu que tenho que escolher o que eu vou ver, entende?
- Claro, claro, essa coisa de astros, espíritos, eles são muito temperamentais. Então vai lá, manda uma de suas previsões.
Osíris se concentra, bota as mãos no rosto, faz força e começar a falar meio enrolado.
- Eu estou vendo. O flamengo. Contra um time azul. O flamengo faz cinco gols no time azul. Três de um jogador que começa com T.
O apresentador olha pra ele maravilhado.
- Meu Deus, que precisão! Produção, quando o Flamengo joga com um time azul, temos que acompanhar isso!
- Mas… – Osíris tenta falar mas é interrompido pelo apresentador com um gesto com a mão espalmada.
O apresentador bota a mão no ponto eletrônico e fica quieto. Ele faz uma cara de estranhamento e fala:
- Como? Ok. Bom, Osíris, esse jogo foi ontem. O Flamengo ganhou do Cruzeiro de cinco a um com três gols do Thiago Neves. Mas faz outra, faz outra.
Osíris se concentra novamente e lasca, implacável:
- Um ministro. Um ministro importante. Seus assessores pediram propina para donos de ONGs fantasmas. Os assessores serão presos e o ministro cai. O governo suspende o repasse de verbas para todas as ONGs.
- Meu Deus do céu! Isso é incrível! Queda de ministro, bloqueio de verbas, não tem como ser mais específico que isso e… (o apresentador bota a mão no ponto eletrônico e fica quieto. Ele olha para Osíris e fala, confuso)
- Olha, Osíris, parece que houve outro engano. Isso tudo que você falou aconteceu semana passada, exatamente como você descreveu. Deve ser um mal entendido, tenta de novo.
- Mas olha, seu Horlando, eu ia explicar e o senhor não deixou. Então, as minhas previsões são um pouco diferentes. Eu prevejo o futuro com muita precisão, mas só o futuro que já aconteceu.
O apresentador olha estupefato para Osíris, que não parece nada envergonhado. Quase podemos ver os palavrões que passam pela cabeça do apresentador. Calmamente, ele fala:
- Como é?
- É, então, eu prevejo o futuro, mas só depois que ele aconteceu.
- Bom, Osíris, então você prevê o passado.
- Não, não. Eu prevejo o futuro, mas só consigo ver claramente depois que ele acontece.
- O nome que se dá ao futuro depois que ele acontece é “passado”.
- Não não não não não. Eu prevejo o futuro, mas só depois que ele acontece. Ele continua sendo o futuro, só que já aconteceu.
- Eu também prevejo o futuro que já aconteceu, e todo mundo que lê jornais consegue. Aposto que qualquer um aqui na platéia pode dizer o nome do último presidente do Brasil ou do último Campeonato Brasileiro.
- Mas eu não li e nem sei o que aconteceu, eu simplesmente vejo o que aconteceu.
- Eu também, na TV
- Você não está levando meu poder a sério. Eu fecho os olhos e tudo vem, tudinho. Eu vejo tudo, com detalhes.
- E qual a utilidade de um poder imbecil desses?
- Eu não sei, só sei que eu prevejo o futuro, eu tenho esse dom. E isso pode ser muito importante para a humanidade.
- VOCÊ NÃO PREVÊ O FUTURO, PORRA, VOCÊ SÓ FALA DO PASSADO! PASSADO! PORRA, PÁRA DE FALAR QUE PREVÊ O FUTURO, SEU IMBECIL! VOCÊ SÓ FALA O QUE JÁ ACONTECEU, GRANDE MERDA! Produção, tira esse idiota daqui, puta que pariu! Da próxima vez comprovem a habilidade do sujeito antes de trazer um idiota desses pro programa! Vamos pros comerciais!
O apresentador chama os comerciais e sai, puto, xingando. Osíris, cabisbaixo, é conduzido pra fora do palco por uma menina de uns vinte e poucos anos. É o fim do sonho de Osíris de ficar mundialmente famoso. Hoje em dia Osíris tem uma barraca de achados e perdidos na Rodoviária de Niterói. As pessoas que perderam alguma coisa vão até ele e dizem o que perderam, e ele diz o que aconteceu e onde o objeto se encontra. Lá, pelo menos, ele pode provar que o seu poder não é uma fraude. É inútil, mas não é uma fraude.







