Jovem, aliste-se na sua tribo ou A Ditadura das Tribos (com trocadilho)

Autor: Léo Luz 10/02/11


            Foi-se o tempo em que a vida era fácil, as mulheres eram menos independentes e mais acessíveis e as balas de Tamarindo não derretiam dentro do carro. Quando eu era moleque havia – como sempre houve – as “tribos”. Havia os boleiros, os playboys, os nerds, e os caras como eu era, sem tribo. Eu era um pouco nerd, um pouco boleiro, um pouco playboy, e isso era socialmente aceito. Não existia um Serviço de Alistamento em Tribos onde você era obrigado a escolher a sua aos 12 anos, como é hoje em dia.

            Hoje em dia se aceita o sujeito ser viciado, ser veado, ser negão e virar judeu, ser árabe e virar evangélico, ser torcedor do Botafogo, se aceita até o cara ser comediante stand up, mas experimente não ter uma tribo definida. Você será um pária na sociedade. É terminantemente proibido gostar de coisas que façam parte de diferentes grupos. Você não pode gostar de Raimundos (roqueiros) e jazz (nerds cults).

            Outro dia me aconteceu uma coisa no mínimo curiosa. Eu entrei em um lugar – que não vou dizer onde é para preservar a idiotice das pessoas. E neste lugar havia pessoas que mais pareciam manequins de lojas temáticas do que pessoas de verdade. Tinha a manequim da loja hipster, de wayfarer verde, all star vermelho cano longo, cabelo avermelhadom calça apertada e chapéu. Tinha também um manequim de loja gay: óculos da vovó com brilhantes na haste, camisa coladinha no corpo, calça no meio da canela, cachecol e anel no polegar. (Não é preconceito, mas segundo um estudo da University of South Pelotas, 76% dos homens que usam anel no polegar são gays, e 24% ainda não são porque estão atrasados pra exposição de arte moderna iraniana onde vão encontrar os amigos do grupo de poesia). Ou seja, estereótipos não faltavam.

            E eu tava lendo um livro chamado Game of Thrones, que é uma epopéia estilo Senhor dos Anéis que tá chegando no Brasil, ou seja, bem popzão mesmo. E eu estava vestido como me visto todo santo dia: calça jeans, all star, um rayban aviator (porque eu acho que sou o Stallone Cobra) e uma camisa listrada qualquer. Foi quando fui interpelado:

 

- Por que você tá lendo esse livro?

- Oi?

- Por que você tá lendo esse livro?

- Porque eu quero?

- Não combina com você.

- Como você sabe? Você me conhece?

- Não, mas não combina com seu estilo.

- Meu estilo? Eu to de all star e calça jeans. Que estilo?

 

- Ah, você parece inteligente. Do tipo de gente que lê (aqui ela falou cinco autores que eu não achei nem no Google depois)

- Ué, mas eu não posso ser inteligente e ler um livro comum? Eu sou escritor, tenho que ler tudo.

 

- Mas você não vai escrever essas coisas, né? (a título de curiosidade, a série já vendeu dezenas de milhões de livros no mundo todo)

- Não. Vou escrever livros pseudo-intelectuais pra babacas que lêem coisas que não gostam pra parecer inteligentes e rotulam as coisas como boas só quando são complicadas e difíceis de encontrar.

- Essa gente é fogo, mesmo. Não agüento esse pessoal que rotula tudo. Fico putíssima.

 

            Nessa hora eu fingi que meu telefone tocou e me levantei. Cacete, cadê o meu direito de ler Harry Potter e ouvir Miles Davies? De torcer que nem um retardado pro Fluminense, xingando e berrando, e depois ver Monty Python? Eu quero usar all star e ouvir Leo Jaime sem ser incomodado! Qual o problema em não ser 100% alguma coisa? Só tem duas coisas que eu sou 100%: homem e Tricolor. Só. Mas sabem o que é pior? Muitas dessas pessoas devem fazer coisas de fora dos seus nichos escondidas. No recôndito de seus lares, adolescentes punks escutam Justin Bieber, encantadas. Aposto que milhares de cult moderninhos escutam Rihanna e Lady Gaga. Não tenho dúvidas de que muitos cineastas wannabe adoram comédias românticas e vêem todos os blockbusters.

            Enfim, antigamente era muito mais fácil gostar das coisas. Não tínhamos que preencher cadastros em tribos e provar que somo verdadeiros cult-moderninhos pra comprar um Wayfarer, nem provar sermos gays pra usar brincos. Quando só o Sting e a Funai se preocupavam com as tribos, o mundo era um lugar melhor…

 

             

 

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