Categoria: Textos Semanais 15/03/11
Assim como a moda, as eras climáticas e o flash back com ex-namoradas gostosas, o sonho profissional do brasileiro é cíclico. Nas décadas de 30, 40, o sonho era ser algo, digamos, respeitável: médico, advogado, presidente de clube de poesia etc. Nas décadas de 50 a 70, ser artista era o sonho de doze entre dez jovens: músico, cantor, escritor, cineasta, artista plástico, enfim, ser algo que expressasse arte e desapego aos bens materiais era o ápice da realização profissional. Aí essa geração cresceu, dura e falida, e seus filhos perceberam, nas décadas de 80 e 90, que ser funcionário público era o “must”, como se dizia na época. E pipocavam sonhos de ser gerente do Banco do Brasil ou trabalhar em “repartição”. Mas foi no começo dois anos dois mil que começou a se proliferar a praga que hoje toma conta deste país: o empreendedorismo.
Do final dos anos 90 até hoje, abrir seu próprio negócio passou a ser o sonho de 10,5 entre 10 brasileiros. Claro, sem contar os que já gostavam de abrir o negócio antes, sem preconceitos. Gente abrindo empresas das mais esdrúxulas e prestando serviços que nem elas mesmas sabem explicar pipocam nos classificados e nas redes sociais – o Oásis do empreendedorismo. Negócios relacionados à internet e às rede sociais então hoje em dia fazem mais sucesso do que teste de gravidez depois do carnaval. É proibido hoje em dia você não ter vontade de abrir uma empresa. O diálogo a seguir é verídico:
- Fala, Léo, beleza? Tô sabendo que você tá trabalhando como roteirista – Ex-colega de trabalho que vai ter seu nome protegido para não expô-lo ao ridículo.
- Falae, cara. Tô sim, frila. Mas to querendo mais trabalhos e tal.
- Mais trabalhos? Por que?
- Como assim por que? Por que sim.
- Por que você não abre sua empresa, cara?
- Minha empresa? Empresa de que?
- Sei lá, um negócio só seu.
- Pra que?
- Pra ter um negócio só seu.
- Pra que??
- Pra não ter mais que depender de patrão, chefe, pra ter mais liberdade etc.
- Mas eu não quero abrir empresa. Só quero fazer mais roteiros.
- Não quer? Não quer ser seu próprio chefe? Não quer fazer seus horários? Não quer ser dono d seu próprio trabalho?
- Não…
- Cara, eu abri uma empresa. Saí da Jugureba (nome fictício) e abri minha empresa. Eu faço meu horário, não tenho chefe, patrão, nada disso. Eu sou um empreendedor, um empresário. Eu sou feliz
- Você é feliz produzindo separadores de comprimidos feitos a partir de tubos de lubrificantes reciclados?
- E daí? Mas não tenho chefe, ninguém manda em mim!
- Ok então…
E o meu amigo se despediu, dizendo que tinha uma reunião importante e depois ia pra praia, porque não tinha chefe. Claro que o negócio dele não é exatamente esse, mas é igualmente ridículo e absurdo. Vale mesmo a pena abrir seu próprio negócio e abrir mão de fazer o que você gosta só pelo “espírito empreendedor?”. Vale a pena abrir um negócio sem ter maturidade pra isso, só para “ter seu próprio negócio?”. Sinceramente, não ligo de ter chefe nem nada. Caguei. Se eu estiver fazendo o que eu gosto, que diferença faz? Melhor fazer algo bem e trabalhar para outra pessoa, do que ser dono do seu próprio negócio e não saber explicar o que faz. Eu sei explicar o que eu faço em duas palavras: eu escrevo. E os empreendedores de butique será que sabem? Resumindo: empreendedor is the new Atriz Modelo Manequim.







