Categoria: Textos Semanais 08/02/11

Bom, pra provar a minha teoria de que inspiração não existe, a partir de hoje vou postar um texto por dia aqui no Ego. Só postar não, escrever, porque eu não tenho textos de backup. E o texto de hoje vai ser exatamente sobre isso: mitos do ato de escrever. Que fique claro que vou dar a minha opinião, o que não significa que elas sejam a verdade absoluta. Não neste caso.
O primeiro mito é o mito da inspiração. Ok, eu sei que é legal falar isso, que as mulheres adoram um escritor que encontra inspiração na natureza ou no meio da rua. Eu sei que falar “pô, hoje eu não to inspirado” é bacana e te livra de ter que escrever. Mas desculpa acabar com a sua ilusão: inspiração não existe. Não neste sentido de ser algo anterior e necessário ao ato de escrever. Inspiração existe para músicos e poetas, e mesmo assim, ela não é condição sine qua non.
Conheço compositores que escrevem letras de música a hora que querem, sem mistérios nem charminhos inspiracionais. Amadores podem se dar ao luxo de ter inspiração para escrever uma carta para a namorada ou um poema. Escritores profissionais fazem o que deles se espera: escrevem. Eles sentam e escrevem. Pode demorar, pode ser trabalhoso, árduo, mas isso nada tem a ver com inspiração. Imagine a seguinte cena:
- Emergência! Perfuração por arma de fogo no tórax, doutor. O pulmão direito foi perfurado e a bala está a dois centímetros da coluna. Vamos levar para a sala de operação!
- Olha, não vai dar.
- Não vai dar o que?
- Pra operar ele.
- Como assim, doutor Guedes?
- É, não vai dar. Não to inspirado. Sei lá, me deu isso de repente. Eu pego o bisturi e não vem nada. Nadinha. Eu olho pra esse sangue todo, o buraco da bala e nada. A inspiração me abandonou…
Consegue imaginar a cena acima? Nem eu. Então, se você é escritor, senta a bunda na cadeira e escreve. Deixa o papo de inspiração pra mesa do bar ou pra usar como desculpa pra ir pro bar encher a cara.
O segundo mito é que se você não sofre escrevendo, você não é um escritor. Esse mito é embasado em algo que eu chamo de A Aura do Escritor. É a aura que, quando alguém diz que é um escritor, automaticamente todos o vêem como mais inteligente e perdoam suas excentricidades. Mais uma vez: escrever pode doer se você está escrevendo um desabafo, uma carta para a namorada. Mas se você é ou pretende ser pago para isso, nem comece a alimentar esse mito.
Escrever dói na medida em que qualquer atividade intelectual é árdua na maioria das vezes. Mas não precisa causar sofrimento. E, ao contrário do que muita gente pensa, o fato de o escritor dizer que sofreu escrevendo não faz a obra melhor do que se ele tivesse escrito no ônibus ou enquanto jogava poker online com os amigos. Ter que sofrer para escrever é mais ou menos isso:
- Ô Paulo, que que você tem?
- Cara, to acabado. Aquela declaração do Imposto de Renda do Dr. Cézar acabou comigo.
- Como assim? Foi muito grande?
- Não, não, mas cara, acabou comigo. Porra, to exaurido. Mas me livrei, parece que tirei um peso das costas. Não agüentava mais.
- Paulo, o Dr. Cézar é ambulante e vende Bíblias. A declaração dele é de isento e nosso escritório só faz porque ele é da Igreja do dono do escritório. Ele não tem nada pra declarar, você deve ter demorado quinze minutos!
- E daí, cara? Foram vinte minutos de pura exaustão! Ah, acho que vou sair pra tomar um chop.
Então, se você é ou pretende ser pago pra isso, deixe esse papo de sofrimento pra tirar onda com menininhas em aniversário de prima adolescente.
O terceiro mito é um dos meus preferidos: escrever bem é escrever difícil. Esse mito advém dos intelectualóides que sempre dizem estar relendo os clássicos que nunca leram. Esse mito é interligado aos anteriores. Para os pseudo-intelectuais, quanto mais o escritor sofrer para escrever e mais complicada for sua escrita, melhor. Minha dica é: só use uma proparoxítona depois de pensar durante dez minutos em um sinônimo. Escrever bem é escrever claro, e não escrever complicado. Os grandes mestres escreviam de maneira simples e clara, como Machado, Drummond, os Verissimos – pai e filho – e muitos outros.
Infelizmente as pessoas acham que algo direto e claro é sinônimo de má qualidade pois, se seu texto é acessível ao público médio, ele não é bom. Quem pensa assim é leitor de resumo, que lê comentários na internet sobre um livro e sai vomitando críticas sem embasamento. Então, seja simples, direto e, acima de tudo, claro. A não ser que você esteja escrevendo um suspense ou algo do tipo e queira propositadamente confundir o leitor, não o confunda. Ele vai te agradecer, e você vai ganhar leitores de verdade, e não leitores de resenha.
Bom, é isso. Vocês sabem mais algum mito sobre o processo de escrever? Manda pra cá que eu falo disso amanhã, ou depois. E se você concorda ou discorda, deixe seu comentário aí embaixo.







