Categoria: Sem Categoria 23/03/10
Bom, negada, é chegada a hora. Os dois primeiros capítulos do meu romance. Já tinha postado o capítulo zero. Estes são o I e o II. É um texto longo, então, se você não gosta de textos longos, não leia. Os capítulos são versões diferentes do mesmo fato. Sempre se intercalarão as visões do Pedro e da Júlia. Espero que vocês gostem. Dúvidas, críticas, elogios, pedidos de casamento e fotos nuas serão bem vindos.
p.s.: o texto não está revisado. Portanto, se encontrarem um erro, ao invés de fazerem um Porra Léo Luz!, me avisem.
Prólogo
Eu queria começar este livro dizendo que esta é a história de amor mais triste já escrita. Ou a mais bonita. Mas não tenho essa pretensão. Sendo eu um leitor voraz e visitante constante das páginas dos clássicos, não teria a pretensão de dizer sequer que ela é, genericamente falando, a melhor história de amor que já vi. Já vi dezenas de histórias de amor, e já vivi outras tantas. Entretanto, e isso é a mais pura verdade, talvez ela seja a história de amor mais verdadeira da qual tenho notícia. Não pela minha habilidade como narrador, longe de mim tamanha falta de modéstia, mas pela sua natureza. E antes que me perguntem, a segunda versão da história não foi inventada por mim. E como, infelizmente, ainda não fui agraciado com o dom da telepatia, ela me foi transmitida à moda antiga: através de longas e esparsas conversas.
Sua natureza, dizia eu, é o que me parece que lhe dá a autenticidade. É uma história de amor contada pelos dois lados, ainda que me tenha doído bastante ouvir as divergências entre a minha versão e a dela. E em virtude da minha falha memória, não serão todos os trechos que terão esse tratamento especial. Somente os mais importantes. Por favor, não pré-julguem nenhum dos dois personagens desta história. Toda humildade, empáfia, timidez, ingenuidade, maldade, enfim, toda a sorte de sentimentos que povoa essa história deve ser analisada a luz do momento, como um todo. Jamais isoladamente. Porque é exatamente disso que se trata isso tudo: de um todo. Isto que venho lhes apresentar é muito mais que uma história de amor, é o todo, o conjunto que vai desde meses antes do início da história até muitos anos após o seu final. Ou seu então final. Ou o seu não final. Não vou adiantar nada, pois o narrador tem família para criar e precisa que você, caro leitor que está lendo este prólogo em pé na livraria, compre o livro, o leve para casa, o leia e fale bem dele a todos os amigos.
Deixo a critério de vocês decidir se esta história é a mais bonita, a mais incrível, a mais romântica ou a melhor história de amor que já viram. Não que eu ache que ela seja, nem que eu ache que não seja, pois falsa modéstia não é das minhas qualidades preferidas. Só posso lhes garantir – repito – que tudo o que vocês lerão nestas páginas é um complexo raio X – com o perdão da má comparação – de uma bonita, singela e em alguns pontos muito engraçada história de amor.
Capítulo um – Foi assim (Pedro)
Eu tinha dezenove anos. Ou dezoito, talvez vinte, por aí. Naquele dia eu estava de péssimo humor, e se fosse hoje em dia eu não me preocuparia, pois todo mundo sabe que história de amor que se preza sempre começa com um dos dois de muito mau humor, até que os dois se encontram. De péssimo humor, dizia eu. Eu fazia aulas particulares de inglês há cinco anos. Havia feito alguns cursos, coisa e tal, mas nunca havia me adaptado a nenhum deles, e agora eu precisava de um diploma. Procurei um curso qualquer, só pra freqüentar uns meses de aula, pegar meu diploma e voltar pro meu mau humor rebelde sem causa adolescente. Nada demais.
E de péssimo humor eu cheguei o primeiro dia de aula no curso novo. Aquele clima de secretaria de curso de inglês já era o suficiente pra me fazer desistir, mas me distraí com algumas meninas que saracoteavam por lá e fiquei. Principalmente uma gostosa de casaco de tricot com a cara mais blasé do mundo, que estava conversando com o segurança do curso. Ela tinha a bunda e os peitos mais sensacionais que eu já tinha visto. Recuperei o foco e fui à secretaria, me identifiquei e uma moça bem simpática – que mais tarde vai virar personagem dessa estória – me disse que esperasse a professora, pois as aulas já haviam começado e eu deveria conversar com ela. Talvez com pena da minha cara mais entediante que itinerário de elevador, a menina me adiantou que na minha turma havia sete mulheres e somente um homem. Dois agora comigo. Bom, pelo menos isso.
Voltei pra minha cadeira e fiquei lendo um pouco. Quando levantei a cabeça, uma mulher de uns vinte e poucos anos estava conversando com a menina da secretaria, e olhando pra mim. A tal mulher se afastou da secretaria, foi em direção à porta de uma das salas e fez sinal para que eu fosse até ela. Catei minhas coisas e fui até lá, com a maior cara de entediado do mundo, pra ver se ela já percebia que eu não tava pra muita conversa. Ela parou na porta da sala e falou comigo.
- Olá! Você deve ser o Pedro. Bom, meu nome é Kátia, eu sou a professora. As aulas começaram semana passada, mas você não deve ter problemas pra acompanhar a turma. Vamos entrar?
- Vamos, né – Eu tinha opção?
Ela entrou na sala e parece que todo mundo já estava lá. As pessoas estavam sentadas meio juntas, em grupinhos de dois ou três. Perto da porta tinha uma menina morena, bonitinha até. Entre ela e a porta tinha duas cadeiras vazias. Pra não parecer chato, deixei a do meio vazia e me sentei na outra. Sentei, botei minha mochila no chão e já ia puxar assunto com a menina do lado quando tudo ficou em câmera lenta. As vozes foram diminuindo e começou a tocar “Aint she nice”, dos Beatles. Aí eu percebi que aquilo era uma cena romântica e fiquei quieto pra não perder nada. Foi quando entrou – ainda em câmera lenta – Ela. Lembram da gostosa de casaco tricot conversando com o segurança lá no segundo parágrafo? Então, era ela. Ela entrou com um chocolate e uma garrafa d’água nas mãos, soltou o cabelo – sempre em câmera lenta, claro – e botou a bolsa e a água na cadeia que ficou entre mim e a outra menina. Enquanto acabava de prender o cabelo em um rabo de cavalo ela olhou em volta e me viu. Me desculpem o linguajar, mas quase me mijei nas calças. Ela fez uma cara de “que porra é essa?” quando me viu, e eu desviei o olhar. Foi quando a professora salvou a minha vida.
- Olá, Júlia. Senta, senta. Bom, pessoal, esse é o Pedro. Ele vai fazer esse semestre com a gente.
Enquanto a professora falava eu fitava os peitos de Júlia como se tivesse hipnotizado, que nem um tarado. Júlia virou pra mim agora com uma cara meio de dúvida, com um rápido sorriso debochado. A professora, mais uma vez, me salvou.
- Pedro? Pedro? Pedroo! – Ela tentou me tirar do transe
Eu me virei desesperado e só tive reflexo de balbuciar um “oi, pessoal… Desculpa, é que eu tava pensando em outra coisa…”. E a professora, que de tanto me salvar já merecia uma medalha, falou com Júlia.
- Júlia, o Pedro está sem o livro, você pode sentar com ele pra ele poder acompanhar a aula.
- Uhum – Júlia balbuciou mexendo na bolsa, sem nem olhar pra professora, muito menos pra mim.
Júlia sentou, pegou o livro na bolsa, abriu em uma página qualquer e falou comigo como se me conhecesse há anos.
- Oi, Pedro. Então, como ela já falou, eu sou a Júlia. Eu ia falar com você antes, mas não quis atrapalhar seus “pensamentos”. – Eu queria deixar claro aqui que ela falou a palavra “pensamentos” virando a cabeça meio de lado e dando uma piscadinha. Ou seja: ela não só me viu querendo mergulhar dentro da blusa dela como ela queria que eu soubesse disso e desejasse morrer.
- Er… Oi, Júlia. Tudo bom? Pô, desculpa, eu tava distraidaço mesmo. Pode deixar que essa semana mesmo eu vou comprar o meu livro, ta? Desculpa te atrapalhar.
- Que nada, relaxa. Pode ler comigo. Mas se eu precisar me levantar e você resolver “pensar na vida” de novo, só cuidado pra não babar em cima do meu livro. – Nem preciso falar da piscadinha no “pensar na vida”, e depois deu o sorriso mais lindo do mundo. Eu não tinha onde enfiar a cara. Aliás, pelo que ela disse, ela sabia muito bem onde eu queria enfiar a minha cara…
Eu fingi que não entendi, sorri sem graça e comecei a procurar uma caneta na mochila, abaixei a cabeça e disse “Pode deixar, vou tomar cuidado”, completamente constrangido. Ela riu e eu ri também. De nervoso, mas ri. Foi quando a professora, pela quarta vez, me salvou da morte por envergonhamento.
- To atrapalhando vocês? Se vocês quiserem eu paro a aula pra não atrapalhar a conversa. – Ela disse, meio que sorrindo.
Nós dois balançamos a cabeça negativamente juntos. Eu abaixei a cabeça e fingi que tava lendo o livro e percebi que Júlia estava me olhando fixamente. Claro que eu não tive coragem de olhar pra ela, mas ela com certeza percebeu meu sorrisinho involuntário e eu pude reparar O olhar nela. Um olhar que me fez ter a certeza que ela seria minha, o que mais tarde eu iria descobrir não ser tão fácil assim, muito menos tão verdade. Ninguém notou. Quer dizer, ninguém notou, mas ela com certeza já sabia de tudo. Essa seria a nossa tônica: ela sempre sabendo de tudo, e eu sempre achando que sabia de tudo. Meu pensamento não podia estar mais longe da verdade. E essa tônica seria o nosso fim. E também o começo. E se vocês acham que eu estraguei a surpresa dizendo que já sabia que ela ia ser minha, vocês ainda não viram nada…
Capítulo dois – Foi assim (Júlia)
Eu tinha acabado de terminar o segundo grau, ia me formar no inglês e entrar na faculdade no próximo semestre. Eu tava me sentindo poderosa, linda, prestes a dominar o mundo! Os primeiros dias depois que se termina o segundo grau são realmente mágicos, a gente se sente livre, e sabe que agora que a vida vai começar de verdade. Mas tinha uma coisa na minha vida que atrapalhava essa felicidade toda e despertava a poetisa depressiva dentro de mim: meu namorado, o Ronaldo.
Eu tinha dezessete anos, e só pra ratificar, o idiota lá do capítulo anterior não tinha nem dezoito, nem dezenove nem vinte, ele tinha vinte e um. E eu, dezessete. Mas deixa eu falar do Ronaldo. Nós namorávamos há três anos. No início era perfeito, como todo namoro é no início. Mas depois, por ser mais velho, as rotinas começaram a se desencontrar. Ele saía com os amigos sem mim duas ou três vezes por semana, ficava dias sem me ligar, não queria sair pra dançar ou pra ir ao cinema comigo, só queria me ver para fazer sexo. E como toda adolescente, eu ainda precisava de um namorado amigo, companheiro e blábláblá. E não tinha.
Mas se tem uma palavra que me descreve, como vocês já viram no primeiro capítulo, essa palavra é “blasé”. Eu não ia deixar um namorado chato e provavelmente infiel estragar meu bom humor e a minha vontade de dominar o mundo. E naquele dia eu queria mais do que tudo não deixar isso me incomodar. Cheguei mais cedo ao curso de inglês pra ficar de papo, mas não tinha ninguém conhecido. Então fiquei conversando com Cadu, o segurança. Sem falsa modéstia, eu sei que sou bonita e que chamo atenção, então naquele dia, ficar conversando com alguém bem no meio do pátio de entrada seria um bom começo pra minha semana.
Eu estava acostumada aos olhares incisivos e nada discretos pros meu peitos e pra minha bunda, mas tinha um garoto sentado sozinho que parecia que nunca tinha visto mulher na vida. Ele tava conversando com uma das meninas da secretaria, e depois só faltou pedir uma pipoca e um refrigerante pra ficar olhando pros meus peitos com mais conforto. Mas eu me distraí na conversa e de repente ele sumiu. Claro que eu não tava interessada naquele magricelas de brincos e All Star, mas achei curioso o jeito dele de Dom Casmurro ninfomaníaco.
Alguns minutos depois eu vi que a aula já tinha começado. Me despedi do Cadu e fui pra sala. Peguei um chocolate e uma água na cantina e entrei na sala. Quando eu entrei o pessoal tava conversando, e uma musiquinha chata, acho que dos Beatles, tava tocando baixinho. Entrei, botei a bolsa em uma cadeira e olhei em volta. E adivinha quem tava sentado na cadeira bem do meu lado, quase babando olhando pro meu decote? O magrelo da secretaria. A professora apresentou ele à turma; disse que o nome dele era Pedro, e que ele ia ficar com a gente um semestre. Coitado, deve ter morrido de vergonha quando me viu sorrindo debochada da cara de idiota que ele tava fazendo. A professora me pediu pra sentar do lado dele porque ele tava sem livro e eu falei que não tinha nenhum problema.
Eu sentei, peguei o livro e falei com ele. Tadinho, eu nunca tinha visto ninguém tão sem graça. Ele pediu desculpas e falou que ia comprar o livro aquela semana ainda, mas eu disse que não precisava se preocupar. Aquilo ia ser bem divertido… Até porque, mesmo tendo me comido com os olhos, ele me pareceu meio nerd, meio bicha… E devia pesar no máximo uns 60 quilos! Aquilo ia ser engraçado…







