Até que o léxico os separe

Autor: Léo Luz 29/03/11

 

- Você é uma piranha!

 - Eu já falei que não fiquei com o Benedito, seu idiota!

 - Claro que ficou, deixa de ser cínica!

 - Não fiquei! E mesmo assim, você já me traiu com a Rosa, esqueceu? Então você é um veado!

 - Veado? Por que veado?

 - Por que você me traiu com a Rosa, já falei!

 - E por isso eu sou veado? Eu te traí com uma mulher, não com um homem. Não sou veado!

 - Ah, então você é um filho da puta, isso sim!

 - Ei, o que que a minha mãe tem a ver com isso?

 - Nada, você é um filho da puta e ponto!

 - Minha mãe não era prostituta, não faz o menor sentido isso!

 - Ah, seu vagabundo, não enche meu saco!

 - Vagabundo? Eu trabalho dez horas por dia, tá de sacanagem?

 - Ah, não enche meu saco! Não tenho culpa de não ter uma palavra na língua portuguesa equivalente a “piranha”.

 - O problema não é meu. O que eu sei é que eu não sou veado, nem vagabundo, nem filho da puta.

 - Você é um escroto mesmo, eu falando sério e você aí debochando.

- Olha só, eu vou trabalhar. Quando eu chegar a gente conversa. Não quero continuar com uma piranha, vai todo mundo ficar falando. Imagina se descobrem no Facebook que eu sou noivo de uma piranha? Vão falar de você o tempo todo, e de mim ninguém vai falar, nem existe palavra pra “piranha” homem, já é normal. Eu não vou ter cara de sair na rua com todo mundo falando que sou noivo de uma piranha. Desculpa.

 

            Jonas saiu para trabalhar. Na verdade ele queria terminar o noivado há meses, e se aproveitou de que Marília havia descoberto seu caso com Rosa para terminar tudo. E como fosse muito egocêntrico e orgulhoso, tentou ofendê-la de todas as maneiras, com ironias e sarcasmo. Foi trabalhar todo cheio de si: iria se livrar da noiva, ficar com a amante e sair por cima. De noite, ao chegar do trabalho, encontrou a casa vazia. Nenhuma roupa de Marília no armário. Somente um bilhete na mesa da sala, escrito o seguinte: “Jonas, depois que você saiu, liguei para o Benedito. Ele veio até aqui e transamos a tarde toda, na nossa cama. Por isso estou indo embora. Não quero continuar com um corno, vai todo mundo ficar falando. Imagina se descobrem no Facebook que eu sou noiva de um corno? Vão falar de você o tempo todo, e de mim ninguém vai falar nada, nem existe a palavra “corna”, já é normal. Eu não vou ter cara de sair na rua com todo mundo falando que sou noiva de um  corno. Desculpa. Beijos, Marília”.

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