Dicas para escrever cartas de amor com Os Beatles

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Posted by Léo Luz on 21 Jun 10 - 6 Comments

            Pra começo de conversa, esse texto vai ser grande e sem piada. Então, se você é preguiçoso, ainda dá tempo de ir ler umas piadas por aí. Bom, vamos lá.

            Hoje mesmo recebi um e-mail de um sujeito – cuja identidade não será revelada – me pedindo, nas palavras dele, “dicas para escrever bem. Principalmente escrever uma carta de amor pra minha namorada”. Farei melhor. Vou ensinar o jovem mancebo a escrever uma carta de amor dando como exemplo ninguém menos que a maior banda de rock de todos os tempos e foda-se se você não acha: os Beatles.

            Os Beatles – e não só o John e o Paul – foram a banda que mais revolucionou a música na história da humanidade. Não vou dar aula de Beatles aqui, vou falar só do que interessa. Os Beatles – os quatro – eram ótimos letristas e, cada um ao seu jeito, construíram músicas geniais a granel, como diria vovô. Gênios da música ecoam em uníssono a também genialidade das letras da banda. E isso tudo sem intelectualce, sem ser pobre, de maneira simples e descomplicada. Só os gênios sabem ser simples.

            Então, farei o seguinte: escolherei algumas letras e as analisarei. Espero não cometer sacrilégios contra os três Beatles mortos, John, Paul e George. Vou pegar somente alguns versos, pra não fazer o texto ficar maior do que já vai ficar. Vamos lá, moçada? Ah, e pros que fugiram da aula de inglês, vou traduzir os trechos.

 

Dica Escutem as músicas antes ou durante a leitura. Os links estão do lado dos títulos.

 

 

 Exemplo 1

Música: For no One (http://migre.me/R7Cu)

Tema: Separação

             

Your day breaks, your mind aches, (seu dia nasce, sua cabeça dói)

You find that all her words of kindness linger on, (você descobre que todas as palavras de ternuna dela perdem o sentido)

When she no longer needs you. (quando ela não precisa mais de você)

She wakes up, she makes up, (ela acorda, ela se maquia)

She takes her time and doesn’t feel she has to hurry, (ela não tem pressa e não acha que deva se apressar)

She no longer needs you. (ela não precisa mais de você)

 

            Uma das minhas músicas preferidas. Combinação perfeita entre a letra e o clima que a melodia passa. Você sente as cenas.  Fosse uma banda emo ou algum desses sertanejos universitários, ia fazer uns versos como “ela faz sua cabeça doer”, “ela não liga mais pra você” e “tudo o que ela disse era mentira”. Porém, senhores, era o Sir Paul McCartney. Ao invés de frases batidas e expressões desgastadas, ele nos fez não entender, não sentir, mas ele nos fez VER o que ele quis passar. E quando digo ver. Não digo ver somente a cena, digo VER OS SENTIMENTOS. Nós vemos o sujeito acordando arrasado porque não é mais amado; nós vemos a moça cuidando dela mesma, sozinha, vazia de amor pelo homem. Nós não sentimos, nós VEMOS.

            E fazer o leitor ver o que você quer passar é muito mais eficaz do que fazê-lo sentir. Um sentimento é esquecido em algum tempo. Uma imagem não. Tivesse Paul nos feito sentir o clima da canção, seria mais uma canção que faz chorar. Mas Sir Paul McCartney nos fez ver, nos fez entrar na canção, nos fez sofrer junto com o homem e nos fez sentir a liberdade da moça que se maquia sem pensar em ninguém. Uma carta de amor não deve fazer o leitor sentir, pensar nem refletir: deve fazer o leitor ver o seu sentimento de tal maneira que ele consiga descrever a cena, sem que você a tenha descrito. Ou vai dizer que vocês não imaginaram a cor do lençol da cama, o tamanho do espelho onde ela se maquia ou a cor dos cabelos dela. ISSO, amigos, é o que deve fazer um belo texto.

 

 

Exemplo 2

Música: Something (http://migre.me/R7Fx)

Tema: Declaração de amor

 

Something in the way she moves (alguma coisa no jeito como ela se mexe)

Attracts me like no other lover (me atrai como nenhuma outra)

Something in the way she woos me (alguma coisa no jeito como ela me seduz)

-

Somewhere in her smile she knows (em algum lugar em seu sorriso ela sabe)

That I don’t need no other lover (que eu não preciso de nenhuma outra)

Something in her style that shows me (Alguma coisa em seu estilo me mostra)

I don’t want to leave her now (Que eu não quero deixá-la agora)

You know I believe and how (Você sabe que eu acredito e muito)

 

 

            Nada mais nada menos que a mais bela canção de amor de todos os tempos, eleita por diversas revistas e artistas renomados. A autoria é do meu Beatle preferido, George Harrison. Bem ao meu estilo: uma declaração de amor que não se declara. Não diz que ama deslavadamente e que quer pra sempre. Nem fala que não pode viver sem ela pra sempre, que morreria sem ela nem que traria a lua pra ela. Direta e cotidiana.

            A letra fala de coisas simples, mas que denunciam um homem apaixonado: o embasbacamento pelo andar da mulher amada, pelo jeito como ela o olha, pelo seu sorriso. Assim, simples e sem poetice nem palavras difíceis e verbos decassílabos rimados. E é assim que deve ser uma carta de amor: simples, sem exageros poéticos bobos, sem chavões, sem proparoxítonas desnecessárias. Assim, como George: simples, sincera e bonita. Com acontecimentos do cotidiano, porque é ISSO, camarada, que vai fazê-la acreditar. A lua você não pode pegar, muito menos você vai mesmo morrer de fome se seu amor não for correspondido. Mas se encantar para sempre com o olhar e o jeito de andar da sua amada, ISSO sim vai fazer diferença pra ela.

 

 

Exemplo 3

Música: When I´m Sixty Four (http://bit.ly/a8Qjq)

Tema: Declaração de amor eterno

  

When I get older losing my hair, (Quando eu ficar mais velho, perdendo meus cabelos)

Many years from now. (Daqui a muitos anos)

Will you still be sending me a Valentine. (Você ainda vai me mandar um cartão de Dia dos Namorados)

Birthday greetings bottle of wine. (Parabéns de aniversário e garrafas de vinho)

If I’d been out till quarter to three. (Se eu ficar for a até quinze para as três)

Would you lock the door. (Você vai trancar a porta)

Will you still need me, will you still feed me, (Você ainda vai precisar de mim, você ainda vai me dar de comer)

When i’m sixty-four. (Quando eu tiver 64 anos)

 

You’ll be older too, (Você também vai estar mais velha)

And if you say the word, (E se você disse a palavra)

I could stay with you. (Eu poderia ficar com você)

 

Até mesmo os gênios caem no lugar comum de quando em vez. E Sir Paul McCartney conseguiu, com maestria, entrar no lugar comum sem cair no lugar comum. Coisas que só um Beatle consegue. Porém, por incrível que pareça, a letra de uma das músicas mais dedicadas a meninas em todo o mundo não foi escrita para uma mulher. Mas se tivesse sido, teria o mesmo efeito em nós.

Paul cai no lugar comum de prometer o amor eterno mas o faz com uma destreza ímpar. Ele não fala nominalmente em ficar para sempre ou nunca abandonar. Mais uma vez, as coisas e promessas simples encantam muito mais do que promessas de matar dragões ou catar estrelas. São promessas que podem ser cumpridas e, ao mesmo tempo, estão longe, o que demonstra a vontade do autor em permanecer com a amada. Coisas como envelhecer juntos, dar de comer e cartão de Dia dos Namorados, ao SESSENTA E QUATRO ANOS, formam uma declaração de amor quase irresistível. Portanto, mulheres gostam do lugar comum, mas sem cair no lugar comum. Entendeu?

 

 

              

Bom, meninada, é isso. Por mim eu citava todas as músicas deles, mas vocês não têm tempo pra isso, nem eu tenho paciência. Essas dicas são importantíssimas. Sério. Eu as uso nos meus textos. Em todos. Façamos um acordo: escrevam uma carta de amor para a sua namorada, esposa, noiva, amiga colorida ou manicure, se você for metrossexual. Depois venha aqui e me diz o resultado. Pode acreditar que você vai se surpreender.

E pros Trolls de plantão não rosnarem que na teoria é muito fácil, vou botar aqui embaixo três textos de amor meus, onde eu uso exatamente tudo o que eu digo aí em cima. Leiam e me digam o que acharam:

 

 

Detalhes

E, se…?

Como tudo começou

 

 

 

 

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6 comments for “Dicas para escrever cartas de amor com Os Beatles”

2

Eis uma das coisas que eu acho interessante de ler, de onde as pessoas tiram as suas idéias de como escrever, o modo como elas elaboram o seu processo criativo e acima de tudo o ideal que o autor busca a o escrever. Belo texto e valeu pelas dicas.

June 22nd, 2010 at 01:12
3

ótima interpretação Leo, como sempre.

Lembrei que uma declaração que não esqueço foi o simples comentário de um ex-namorado quando começamos o relacionamento. Ele, assim, do nada, disse que gostava de me ver andando. Tão simples, tão inesquecível.

June 22nd, 2010 at 15:30
4
matheus raddi

Não tenho idéia de como vc resolveu escrever isso e qtas pessoas realmente vão ler, mas aprovo muito. Muito bom o texto, a linguagem, as dicas… Musicas fantasticas!

June 22nd, 2010 at 15:36
5
Bizonho

os tres beatles mortos foi ótimo…hahahaha

June 23rd, 2010 at 11:59
6
=O

Pq matou o Paul, que q ele te fez? Tadinho dele!

June 23rd, 2010 at 21:07

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