Dizem os chineses que é através dos pequenos detalhes (com pleonasmo) que se descobre um mentiroso, uma pessoa apaixonada e um mau cirurgião plástico. Mentira, nenhum chinês nunca disse isso mas eu precisava corroborar minha tese. Enfim, continuemos. A idéia central deste ditado chinês do camelô é que as grandes características e traços são fáceis de fingir e falsear. Mas os detalhes, amigos, estes são as verdadeiras provas do crime.
Em todos estes anos como Narrador Onipresente, admito que aquela foi uma das cenas mais cheias de significado que já presenciei. Era uma simples viagem de ônibus entre Porto Alegre e Caxias do Sul. Eu estava rondando por lá, procurando estórias em busca de um narrador, quando a vi. Ela jamais chamaria a atenção de uma pessoa normal. Mas eu, como Narrador Onipresente e com um ótimo faro para estórias interessantes, logo vi que ali estava uma personagem ímpar de uma bela estória. Bom, como todo narrador que se preza eu devo fazer uma descrição bem bacana da personagem e eu não vou fugir à regra.
Eram umas onze da manhã e poucas pessoas dormiam no ônibus, apesar de a viagem ser um pouco longa – em torno de duas horas. Em uma poltrona no corredor, uma senhora tentava fazer uma criança parar de chorar, no que fracassou durante todas as duas horas da viagem. Do lado desta senhora, estava, como a denominei, a Menininha Ruiva. Ela estava com o banco recostado, como que deitada. O rosto colado no vidro, de olhos fechados. Era muito, mas muito branca. Poucas vezes vi uma pele tão branca. E seus cabelos eram vermelho fogo, e estavam presos em um coque no alto da cabeça. Até aí, uma pessoa normal que jamais chamaria a atenção de um Narrador Onipresente como eu. Mas dois detalhes me fizeram querer me embrenhar naquela estória: o sorriso e o casaco.
Ela vestia um moletom horroroso, listrado, roxo com preto. Não combinava em nada com ela. Nada. Parecia mais um moletom de um mendigo ou de um desabrigado. Feio mesmo. Mas a maneira como ela o vestia era uma coisa simplesmente incrível. Ela estava, como disse, vestida com ele. Porém, as mangas, longas, ficavam sobrando nas mãos. E esta sobra de tecido, os punhos, estava embolada e servia como uma espécie de travesseiro. Mas não era só isso. Era um travesseiro que ela acariciava com a cabeça, como se fosse a mão ou o ombro do amado. Ora ela acariciava o tecido com o rosto, ora se afastava um pouco dele para olhá-lo com uma ternura que poucas vezes presenciei. Quando o sol começou a incidir sobre o ônibus, ela tirou o casaco, o embolou como um travesseiro gordo e o abraçou. Quem olhasse de relance acharia que ela abraçava um gatinho. Ela abraçava e acariciava o casaco com o rosto, com as mãos… E o sorriso? Durante as duas horas e doze minutos da viagem ela manteve no rosto o mesmo sorriso que somente as pessoas que estão pensando no ser amado são capazes de sorrir.
Chegando o ônibus ao seu destino, ela vestiu o moletom e saiu andando pelas ruas. Volta e meia ela esfregava a manga comprida no rosto e semicerrava os olhos. E isso se repetiu durante todo o dia. Como sou um Narrador Onipresente de boa estirpe, posso lhes dizer que aquele era o moletom do namorado da Menininha Ruiva, e eles haviam acabado de passar um fim de semana intenso e maravilhoso juntos. E, quando fui pesquisar mais sobre a estória dos dois, descobri que detalhes – como o sorriso ou o casaco – não só são importantes como são a tônica deste amor recente mas fiel.
Detalhes, como o email que ela envia TODOS OS DIAS, há exatos 25 dias, para ele, um pela manhã e um à noite. Um para ele ler no engarrafamento de ida para o trabalho, outro para ser lido na volta. Detalhes, como o fato de ambos que sempre foram completamente avessos a fotos, terem tirado algo perto de 100 fotografias juntos durante o fim de semana, e agora estarem as exibindo aos quatro ventos, para quem quiser ver que eles estão felizes. Detalhes que as pessoas não percebem. Que eles não percebem. Que ninguém percebe. Mas que, para um Narrador Onipresente como eu, são o suficiente para previr que esta estória do casaco ainda vai ver contada na mesa do jantar, para os netos, e vai ser motivo de boas gargalhadas e sorrisos de cumplicidade. Só espero que não se esqueçam deste humilde Narrador, que lhes prestou um serviço honesto e de coração, e ainda arrumou uma utilidade poética praquele moletom horroroso.














