Um amigo me mandou esta carta-email e pediu para que eu publicasse. Me autorizou a mexer no texto, e eu, claro, mexi, adaptei, tirei seu nome e romanceei um pouco, pra vocês. Espero que gostem. Vamos lá.
“Camarada,
Você sabe que terminei meu noivado faz alguns meses. Foi um pouco traumático, como você mesmo sabe. Prometi para mim mesmo que não iria me envolver com ninguém por um bom tempo, mesmo sabendo – como todos os que prometem isso sabem – que essas promessas nunca duram muito. Inclusive prometi lhe visitar, mas mais uma vez não consegui ir.
Ah, claro, a promessa. É, amigo, a promessa, como era de se esperar, foi por água abaixo. Não só me envolvi como, em seis dias, estou perdidamente apaixonado por uma pessoa que conheci, como já disse, há seis dias. Isso mesmo, seis dias. Logo eu, que sempre demorei a aceitar a idéia de tentar um namoro, que sempre pensei cinco vezes antes de deixar alguém entrar na minha vida. Como esta carta vai para o seu blogue, não vou nomeá-la. Vamos chamá-la de, hhmm, a Italiana. Não, camarada, ela não é italiana de verdade, é só descendente, como o sobrenome denuncia, e como você saberia, caso eu lhe contasse seu sobrenome.
Quer dizer que eu me apaixonei em seis dias? Não, não. Foi em duas horas. Três e meia, pra falar a verdade. Eu e a Italiana já nos conhecíamos, mas não pessoalmente. Nos conhecemos em um fórum sobre fotografia do qual ambos somos habituées. Isso há anos. Mas um belo dia, estávamos conversando e chegamos a conclusão de que ela morava há menos de quinhentos metros do meu trabalho. E decidimos sair para comer alguma coisa. Não comi o que você pensa que comi, mas essa noite foi fatídica.
Como quase recém solteiro, em um dado momento o papo descambou para a minha ex e as outras ex e por que eu, com trinta e cinco anos, ainda não era um sujeito casado e sossegado. Falei dos problemas que tivemos, dos meus problemas, dos problemas dela, problemas estes que você já está cansado de saber, amigo, e não preciso elencá-los aqui. Mas enfim, durante a conversa, percebi que a Italiana era uma compilação de tudo o que eu gostava em uma mulher, e que abominava, tanto quanto eu, certas características que foram primordiais para o não sucesso de meus relacionamentos anteriores. E ela? Bom, ela se encantou quase que igualmente por mim. Quase.
O quase fica por conta de um simples motivo: ela tem vinte e três anos, e está em uma fase prática – nas palavras dela – e não quer se deixar envolver, pois tem planos de viajar para a Europa no meio do ano e planos profissionais, que ela acha que seriam, digamos, atrapalhados, caso uma paixão a arrebatasse a alma, como diria o poeta. Simples assim amigo. E sabe quando você tenta me convencer a gostar mais dos Stones que dos Beatles ou quando sua mulher tenta me convencer a acreditar em Deus? Pois é, ela está tão irredutível com relação a isto quanto eu sou nessas situações. Ela acha que eu seria um ótimo namorado, que eu sou um sujeito sensacional, que ela seria feliz ininterruptamente vinte e quatro horas por dia; mas não é o que ela quer agora. Veja que azar, amigo. É como se eu encontrasse um Pontiac GTO 1972, lindo, conservadíssimo, e tivesse o dinheiro para comprar, mas o dono não quisesse vender porque iria desmontá-lo e usar algumas peças no seu Chevette. Além de azar, um desperdício completo.
E você me pergunta se ela não é assim? Uma pessoa avessa às coisas do coração. Qual nada, camarada, qual nada. Ela é como nós. Ela precisa estar apaixonada para ser feliz. Logo, como você espertamente deduziu, ela não está feliz. Mas não quer estar agora. Ela tem essa idéia fixa de que um amor agora atrapalharia seus planos, no que eu discordo – como eu costumo dizer – cento e cinqüenta por cento. Acho que ela seria muito mais feliz em todos os setores de sua vida caso se deixasse levar. Mas não adianta. Ela é cabeça dura como só uma menina de vinte e três anos com planos de vagar pela Europa fotografando pode ser. Nós entendemos, já tivemos esta idade. Já tivemos este sentimento Born to Be Wild. Mas passou. E o dela também vai passar. Mas eu, do alto do meu egoísmo, queria que passasse agora, amiguinho.
Caso passe agora ambos concordamos que seria o relacionamento mais promissor de nossas vidas. Mas, mesmo sabendo isso, ela não quer. E, com medo de ceder, me pediu para não tentar mais fazê-la adiar ou compartilhar seus planos comigo. E foi o que aconteceu. E isso em sete dias. Tá bom pra você, camarada? Te surpreendi desta vez, hein?! Mas fica tranqüilo, tá tudo bem. Quanto menos se sobe na árvore, menos se machuca quando se cai. Eu queria muito subir mais e me machucar mais, mas não depende só de mim. É isso, amigo. Como disse o poeta, Um beijo na família, na Cecília e nas crianças, o Francis aproveita pra também mandar lembranças. Obrigado pelos ouvidos atentos e sempre dispostos a ouvir os lamentos deste amigo mais azarado que massagista da seleção Sueca de bronzeamento com a mão quebrada. Nos vemos em breve. E, se o destino quiser, conhecerá a Italiana pessoalmente. Aí você vai entender tudo.
Ósculos e amplexos, do amigo, J.R.”














