Já que está na moda escrever sobre humor na internet, não vou poupar o mundo das minhas geniais e modestas opiniões. Bom, pra começar, vamos botar um pingo que fugiu do “i” e foi parar em um desavisado “o”. Há de se diferenciar humor de comédia. Humor é qualquer coisa que faça rir: uma piada, uma historinha engraçada, uma imitação, isso é humor. Daí HUMORISTA Stand Up. Por isso Ary Toledo era HUMORISTA. E comédia? Bom, comédia é o uso do humor de maneira dramatúrgica. É o uso do humor na dramaturgia. Uma novela, uma série, um livro, uma peça de teatro etc. Definido isso, vamos pra frente que atrás tem gente.Logo, o “manifesto” do Danilo Gentili é o manifesto de um HUMORISTA, não de um COMEDIANTE. E já que ele falou do mercado americano, uma “pequena” diferença entre lá e cá: lá, geralmente, um humorista de sucesso migra para a comédia, e vira roteirista ou redator. Por isso não cabe a comparação que ele faz, já que aqui o buraco é mais embaixo. Por aqui, são poucos os humoristas que migram para a comédia, mas estes poucos fazem valer a pena, como o Bruno Mazzeo, o Fernando Caruso, o Nizzo Neto, o Fábio Porchat, o Marcelo Adnet, o Gregório Duvivier, o Cláudio Torres Gonzaga etc. Mas, infelizmente, muitos deles – como parece ser o caso de quase todos os membros do CQC – ficam somente no humor. Eu disse parece porque não sou profundo conhecedor de suas biografias. E disse quase todos porque o Tas não entra nesse balaio. O Tas é um nível acima.
Por isso os “humoristas” fazem mais sucesso nas redes sociais do que os comediantes. E o motivo deste sucesso na verdade, é também motivo do meu mau humor e da minha implicância com eles (humoristas). O humorista de internet – vamos especificar: do Twitter – não é um cara que vive escrevendo dramaturgia, histórias, contos etc. Os profissionais – que ganham a vida com isso – vivem de fazer piadas. E deles se espera – pelo menos os fãs esperam – piadas! Então o Twitter dos humoristas só tem piada. Todo dia, o tempo todo, sobre qualquer assunto. Já o comediante não. Ele vive de comédia, não de piadas pontuais. Imagina o Mazzeo escrevendo microcenas do Cilada no Twitter? Nem ele faria nem o faz. Esses caras que citei aí em cima são pessoas físicas no Twitter: torcem pelos seus times, fazem elogios, reclamam, conversam. Eles não fazer to Twitter um palco virtual de um show de piadas.
Mas aí você, leitor fã do Gentili, do CQC e do Pânico, me pergunta: mas piada é chato? Não, claro que não! Minha maior frustração na vida, depois de não ter ganho meu primeiro milhão antes do trinta e nunca ter comido a Luana Piovani, é não saber contar piadas. Se eu contar uma piada eu vou enfiar tanto detalhe nela que no final você nem vai lembrar do que se trata. Mas como se diz lá na minha terra, tudo demais é muito. Tudo que você faz muito enjoa. Menos ter um milhão e comer a Piovani. Imagino. Pra gente é muito bacana ouvir piada do Ary Toledo, mas se ele for como esses caras do Twitter, imagina ser filho dele? Piada de manhã, de tarde, de noite, piada no dentista, piada no carro, piada na oficina, piada no restaurante. Além de enjoar perde e espontaneidade.
E isso provoca um fenômeno que eu acabei de batizar de “Assunto Pouco Minha Piada Primeiro”. São as chamadas piada obrigatórias. Dia da Consciência Negra, Dia dos Namorados, Dia das Mães, Dia da Amante, tudo é motivo de piada, o que acaba resultando em um sem número de piadas iguais e sem graça. Inclusive as do nosso amigo Gentili e de seus irmãos de preto. E aí, morre alguém, piada, nasce alguém piada, alguém engravida, piada, alguém é preso, piada. Mas então esses caras não fazem sucesso? Todo mundo acha eles uns malas? Qual nada, eles têm dezenas de milhares de seguidores, que retuitam e passam o dia rindo deles. Mas esse público não é o público da comédia de teatro, do Cilada, das sitcons mais elaboradas. É o público do Casseta e da Praça é Nossa, que também têm, claro, o seu valor, mas é um público que quer ouvir piada, sem tirar. Um público que não quer dramaturgia, que achou Os Aspones chato, que prefere stand up e piadas a uma peça ou um seriado de humor mais denso. Algo errado com isso? Lógico que não, eu acho o stand up dificílimo, e não tento por achar que não tenho talento pra isso. Mas que são públicos diferentes, são.
E eu, como cara de texto, prefiro comédia a humor. Humor é legal, mas pra fazer boa comédia é preciso muito mais do que ser só engraçado. Você tem duas opções: ou você é filho do Chico Anysio ou você é um gênio. Estilo Monty Python. E fazer piada no Twitter não faz de ninguém comediante. Nem de um CQC nem de ninguém. E Twitter potencializa o que eu falei do público alvo. Com cinco, dez mil seguidores no Twitter, os perfis de humor se vêem na necessidade – cada vez mais – de fazer graça com tudo. E ter cinco, dez mil pessoas lendo e achando o que você escreve muito engraçado mexe com o ego das pessoas. Eu, por cem leitores por dia, já tenho o ego do tamanho dum bonde. Eu, por exemplo, só sigo um perfil de humor no Twitter, que é o @microcontoscos, que faz piada mas é meu amigo de infância, aí a gente releva, sabe como é. Os outros, se eu quiser ler piada compro o livro do Ary Toledo. Até porque, fazer piada é uma coisa, escrever uma peça, um roteiro de série de quarenta minutos por semana ou um filme são outros quinhentos. E antes de vir com a conversa do “eu tenho dois bilhões de seguidores. Se eu não fosse bom não tinha”, se lembre de que um dos maiores fenômenos da música brasileira, com milhões de discos vendidos, é a Banda Calypso, por exemplo…














