Dormindo com um olho só

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Posted by Léo Luz on 14 Dec 09 - 10 Comments



- Amor, chega pra cá… – disse Glorinha, meio dormindo.

      Era a primeira noite de Élcio e Glorinha depois da decisão de Élcio de se separar. Haviam conversado durante o dia, ele havia admitido que tinha uma amante. E depois de meses sem poder cumprir com suas obrigações maritais, ele agora estava tendo um caso com a menina do financeiro, Beth. Claro, ele contara da maneira mais educada possível. Nessas horas Élcio se orgulhava de ter uma esposa bondosa e equilibrada: certeza de que não haveria escândalo.

     Apesar de arrasada, Glorinha parecia resignada. Como uma pessoa que recebe a notícia ruim e fica meio aérea por alguns instantes. Depois do susto, vieram as perguntas de praxe: quando? Por que? Como? Quem saiu do Big Brother hoje? Mas apesar de tudo, foram civilizados. Ligaram para Almeida, advogado do casal. Almeida ficou espantado, embora um pouco pensativo, pois sabia o quanto Glorinha era frágil e sensível. Visitariam o advogado no dia seguinte. Glorinha ainda chorava quando propôs que fossem dormir, pois ainda teriam um longo dia pela frente. Ele se ofereceu para dormir no sofá, mas Glorinha disse que não havia necessidade. Afinal, eles dormiram juntos por quinze anos, uma noite a mais não mataria ninguém.

     —-

- Amor, chega pra cá… – disse Glorinha, meio dormindo.

- Hmflghmchsm! – Respondeu Élcio instintivamente. Antes mesmo que ele pudesse pensar no que estava acontecendo, Glorinha já o estava puxando para perto pela gola do pijama.

- Glorinha, melhor não. Você está abalada, não vai te fazer bem. – Tentou argumentar Élcio

- Cicinho (apelido carinhoso de Élcio, ainda não apresentado até aqui)… Vem pra perto, esquece isso…

- Mas Glorinha… Melhor não… Já resolvemos tudo… 

      Mas de nada adiantaram os apelos de Élcio. Glorinha logo se aproximou e foi aquele Deus nos acuda. Uma noite como não tinham desde o dia em que pegaram o caçula vendo filme pornô e decidiram confiscar a fita e, “sem querer”, Élcio deixou o videocassete ligado. No dia seguinte, arrependido da decisão que havia tomado, Élcio ligou para Beth e terminou tudo. Disse que havia se precipitado, que percebera que Glorinha ainda o amava e que ele também ainda gostava muito dela. Levou café na cama para a esposa, e juntos foram ao advogado comunicar que haviam desistido de se separar, e que agora comprariam uma casa maior, em Iguaba, para poderem se curtir mais.

      Élcio se lembrou que tinha que ir ao banco e deixou Glorinha resolvendo os detalhes da compra da casa com Almeida. Assim que Élcio saiu, Almeida falou alto, quase gritando:

- Que porra é essa, Glorinha? Não tava tudo resolvido? Que merda foi essa de você voltar atrás?

- Mas Tchuco (apelido carinhoso de Almeida que não tinha entrado na história até  aqui), eu não voltei atrás. Eu falei dormindo, não lembro de nada. Ele disse que eu pedi pra ele chegar perto e depois fui pra cima dele, mas eu não lembro. Você sabe que eu sofro de sonambulismo.

- Puta que pariu, Glorinha, agora vamos ter que esperar esse paspalho (adjetivo nada carinhoso que não havia entrado nesta história desde a década de oitenta) resolver se separar de novo. E enquanto isso continuamos nos vendo escondidos?

- É, Tchuco. A gente deixa como estava, por um tempo, tá!?

- Tá, né, fazer o que?!  

      E Glorinha o abraçou ternamente, como alguém que esperava ansiosamente pelo final feliz. Ela ama Élcio, mas não conseguiria mais viver sem Almeida. Eles a completavam de maneiras diferentes. Glorinha não podia deixar Élcio ir embora dessa maneira. E também não queria perder Almeida. E depois de muito pensar, achou uma saída. Não é que aquele sonambulismo que ela inventara anos atrás pra poder assaltar a geladeira agora tinha sido realmente útil?


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10 comments for “Dormindo com um olho só”

1
Alan

“- Que porra é essa, Glorinha? Não tava tudo resolvido? Que merda foi essa de você voltar atrás?”

uashuhsauhsauh, bem legal :D

December 15th, 2009 at 06:43
2

[...] e meu ego grande – Dormindo com um olho só O Banquinho – A roda viva da redação escolar Controle Remoto – A emancipação do [...]

December 20th, 2009 at 07:11
3
Anniele

eu e glorinha temos tanto em comum….

hahahahahahahahahaha

muito bom!

December 20th, 2009 at 15:55
4

Taí, o final me surpreendeu. Gostei.

December 21st, 2009 at 00:12
5

Bem “A vida como ela é”!

December 29th, 2009 at 08:35
6
Pamela Assis

A cada vez que eu entro neste blog eu me encanto mais! (E olha que eu só o descobri há 2 dias…) Cara, você escreve muito bem, e com muitos dos seus textos eu me identifiquei, (não com esse). Ja li a maioria dos mais antigos e percebi a tamanha paixão que você tem por escrever… Não pare nunca, seus textos agora fazem uma grande diferença no meu dia!!! Deus abençoe esse seu dom, talento ou do que você preferir chamar, homem ego. Um grande beijo e sucesso…

December 31st, 2009 at 15:04
7
bia

vc me desanima.. vim aqui ler um texto novo e cade? chatoooooooo. rs

January 2nd, 2010 at 15:10
8
Queca

Faço minhas as palavras acima… vai perder sua fã nº 1. Humpf…

January 4th, 2010 at 17:19
9

Cara, fazia tempo que eu não ria tanto com um texto. Muito bom!

January 14th, 2010 at 14:09
10
Carolina

Nada esperta essa Glorinha. Amei a crônica! Como sempre!hahhaha
Beijo

March 4th, 2010 at 21:46

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