Eram três da tarde e Jayme acabara de acordar. Como de costume, antes de escovar os dentes ou tomar café, ligou o computador e, enquanto este inicializava, aproveitou pra ver as estatísticas do seu blogue pelo celular. O barulho do seu smartphone de três mil reais se espatifando no chão só não foi mais alto que o grito que Jayme soltara. Noventa e cinco visitas no dia anterior, mostrava o contador. Noventa e cinco. Jayme costumava ter, em média, quinze mil visitas diárias no seu blogue. Enquanto dava o chilique, o computador ligou e ele foi conferir. Como suspeitou, os números estavam errados: foram 99 visitas.
Imediatamente Jayme entrou no Twitter e em Fóruns especializados para saber se houvera algum bug com seu contador, e se deparou com algo estranho: dezenas, centenas, milhares de blogueiros “profissionais” se faziam a mesma pergunta: pra onde foram as visitas do meu blogue? Ao longo do dia, menos de vinte visitas. A maioria vinda de links velhos ou buscas sem sentido. No Twitter, o silêncio dos seus dezenove mil seguidores era tão palpável que dava até pra fazer um nó de marinheiro com ele. Somente alguns blogueiros se falavam entre si, todos comentando o problema das visitas.
Jayme resolveu ligar para Peixoto, seu amigo pessoal e um dos maiores blogueiros do Brasil. Peixoto era analista de sistemas e com certeza descobriria o que estava acontecendo. Qual fora sua surpresa quando, ao telefone, Peixoto lhe dissera que ontem, em seu blogue, só houve 122 visitas, quando a média diária era de vinte e cinco mil visitas. Peixoto havia rodado anti vírus, programas de diagnósticos, entrou em contato com seu provedor, enfim, fizera tudo o que lhe estava ao alcance para, minutos depois, se deparar com a triste e dolorosa verdade: os contadores estavam certos.
Desesperadamente, Jayme e Peixoto começaram a contatar seus leitores fiéis por e-mail, MSN ou twitter, sem sucesso. Nenhum deles havia respondido. Foi quando Peixoto se lembrou de telefonar para uma delas, no que foi atendido pela mãe da menina, aos prantos. A pobre menina, dizia a mãe, foi encontrada de manhã, de frente para o computador, com os olhos vidrados, imóvel, com uma expressão demente, babando e balbuciando gemidos ininteligíveis. Horas depois, em um Shopping com acesso WiFi que os blogueiros costumavam freqüentar, eles perceberiam que o quadro era pior do que achavam: todos os seus leitores foram encontrados catatônicos, praticamente retardados, em frente aos seus computadores.
Certos de que aquilo era apenas coincidência, ou alguma peça pregada pelo Mr. Manson, eles tentaram contatar outros blogueiros do Brasil quando irrompe no ar a música do plantão da Globo. E por mais que todos eles tenham atendido seus celulares ao mesmo tempo, a música era na TV, e não um ring tone. O plantão noticiava um estranho acontecimento: milhares de pessoas ao redor do mundo foram encontradas na manhã da última terça feira completamente débeis mentais, atônitas e com uma espécie fortíssima de autismo, e continuava dizendo que nenhuma delas falava, andava ou demonstrava qualquer sinal de consciência.
Atônitos, os blogueiros ficaram horas ali, parados, sem saber o que fazer. Alguns foram para casa, outros foram beber batida de côco com cidra. Algumas ligações depois, a constatação: todos, simplesmente todos os leitores de blogues do mundo estavam daquele jeito agora. TODOS. Depois de dez semanas, o resultado para estes blogueiros foi devastador: cheques de cinco ou dez dólares no adsense, prestações de videogames atrasadas e mães ameaçando botá-los para fora de casa se eles não arrumassem um emprego. E eis que, para surpresa geral, os blogueiros se levantaram, limparam os farelos de fandangos da barriga e foram à luta.
Mas o que eles sabiam fazer? Escrever? Só uma meia dúzia deles. Então eles tentaram fazer o que sabiam de verdade: blogues. Mas com todos os leitores de blogues do mundo transformados em samambaias, a tarefa seria das mais difíceis. Muitos bateram na porta de grandes empresas para oferecer seus serviços, para criar e alimentar um blogue.
- É, eu faço blogue. – Disse Peixoto, numa humildade não vista desde que fora eleito o aluno mais fedorento da sua classe em 85.
- Blogue? Blogue é tipo um diário na internet, Né!? – Responde o diretor de marketing da empresa
- Não, um blogue é um site, onde você escreve coisas, dá notícias e
- Notícia? Então você é jornalista? – Interrompeu o diretor.
- Bem, não. A gente dá notícias que a gente lê na mídia…
- Isso eu faço sozinho.
- Mas então, num blogue você escreve, faz resenhas, textos.
- Então você é escritor?
- Bem, também não. Eu escrevo, mas não sou escritor.
- Porra, então você quer o que? Um blogue não serve pra nada então!
E esta foi a tônica das conversas. Como as pessoas que liam blogues estavam daquele jeito agora, era difícil explicar para as pessoas “normais” para que servia um blogue. E como elas não sabiam, os “famosíssimos” blogueiros de outrora agora não passavam de um bando de esquisitões que mal sabiam explicar o que sabiam fazer da vida. E, numa dessas ironias da vida, o tempo ia passando sem que se criasse um blogue sequer. E o pior: ninguém estava sentindo falta.alguns blogueiros conseguiram empregos como revisores, outros como digitadores e aos poucos eles foram se acostumando. Para a roda do mundo, algumas centenas de milhares de pessoas não fizeram muita falta. Eram menos de 0,1% da população mundial. Em alguns meses a economia se restabeleceu e tudo voltou ao normal. Menos a vida dos blogueiros.
Sem seus leitores e fãs, eles agora não passavam de anônimos, cuja falta não abalara em nada a economia, a mídia ou a sociedade em geral. Se fossem médicos, arquitetos, advogados ou jornalistas em seus lugares, em alguns dias todos estariam com ocupações novas em algumas semanas. A sociedade reconheceria que, sem eles, não poderia prosseguir, logo os realocaria às suas funções. Mas eles? Por que a sociedade sentiria falta de algo que só era conhecido por uma parcela ínfima da população. E não sendo isso o suficiente, as pessoas que não sofreram a demência súbita sequer sabiam quem eras aquelas pessoas ou o que elas faziam. E cada vez mais, para eles, o cenário era desolador: lan houses vazias, blogueiros com trinta quilos a menos fazendo bicos consertando computadores ou tentando, sem sucesso, fazer com que as pessoas visitassem seus blogues.
Jayme acordou meio tonto. Não se lembrava de nada, só de ver as visitas do seu blogue no celular e depois desmaiar. Noventa e poucas visitas! Isso ele se lembrava! Correu pro computador e soltou um grito de alegria. Elas estavam lá: 18.345 visitas. O susto com o número errado no celular foi tanto que Jayme desmaiou, bateu a cabeça na cadeira do computador e teve aquele sonho maluco. Que medo! Um mundo sem blogues! Onde blogueiros não são conhecidos! Nada de salas de imprensa, viagens de graça nem festinhas de marca de celular! Que horror! Jayme estava bem mais tranqüilo de saber que tudo não passava de um sonho. Mas, por via das dúvidas, fez um concurso público pra trabalhar no Detran. Nunca se sabe.














