Charmosa. Charmosíssima, aliás. Bonita sim. Dona de um belo corpo, sem sombra de dúvidas. Inteligente, culta e simpática. Mas quando se fala Dela, “charmosa” é a primeira palavra que vem à cabeça. Naquele fim de noite na casa de amigos, enquanto uns bebiam na mesa e um Cara tentava não ir para a cama sozinho, no que encontrava resistência de uma menina Sardentinha que fazia cara de nojo; enquanto isso tudo acontecia, Ela estava jogada no sofá. Com o vestido longo quase tocando o chão, ela examinava as unhas com a concentração de um soldado que limpa a botina para a revista das tropas.
Nem a fumaça nem o cheiro da bebida. Nem as exacerbadas discussões na mesa nem o enorme constrangimento causado pelas constantes recusas da Sardentinha aos avanços do Cara no sofá. Nenhum destes elementos dominava o ambiente. O charme dela o fazia. Mediante seu charme, a fumaça se dissipava, o aroma de bebida desaparecia, as vozes se apequenavam e o constrangimento pela sardentinha não conseguia ultrapassar nem mesmo os limites do sofá. Era um charme autoritário. Ele estava ali e fazia questão de se mostrar. Decote? Que decote que nada, olha aqui o charme dessa menina! De que interessa se a Sardentinha vai ceder às investidas do Cara, você não está vendo este charme, homem de Deus? Era um charme espalhafatoso, gritante.
Ao mesmo tempo em que seu charme invadia a sala como um cheiro de comida de desenho animado, Ela não fazia o menor esforço para isso. Pelo contrário. Machucara uma unha e agora estava com um dedo na boca, com uma leve feição de dor. Mas isso só acentuava seu charme, mesmo sem que ela se desse conta. E quando Ela, sozinha no sofá, se perguntava por que não era ela o alvo do arroubo romântico do Cara, seu charme aumentava, inflado por aquele ar melancólico de menina de bochechas rosadas em cartão de Natal de loja de departamentos, que poucas mulheres são capazes de ter. Não que ela desejasse o Cara, mas ela estava se sentindo feia, sozinha.
E Ela, como sempre, avessa a tudo e sem perceber que seu charme já havia feito a conversa na mesa parar, e agora os Três Rapazes estavam falando Dela, enquanto as Quatro Meninas foram ao banheiro. E no afã de aplacar a dor insuportável de ser ter uma cutícula arrancada com os dentes, ela se pôs de cabeça baixa com o dedo na boca, e não reparou quando o Rapaz a fitou com um olhar que faria corar o próprio Marquês de Sade, enquanto a Sardentinha atendia ao telefone efusivamente. Mas era tarde demais. Um dos Rapazes se levantou e sentou ao lado Dela. Nesse exato momento, as dezenas de toneladas de charme que inundavam o ambiente se fizeram mais presentes que nunca e, tal qual o gênio do Aladim em forma de fumaça, se concentraram em sua totalidade no sorriso tímido e no olhar de soslaio Dela como quem pensa “que foi?”, diante do olhar atônito do Rapaz.
Depois de algumas horas de conversa, Ela e o Rapaz enfim se beijaram, no que ela, sem deixar o charme lhe faltar, olha o relógio e diz que já está tarde, que temos que ir embora. E o Rapaz prontamente se oferece a levá-la em casa. E ela aceita, não sem esconder o rosto com os longos cabelos negros, como se pensasse que não merece tamanha honraria. No caminho de casa o Rapaz a confidenciou que todos os outros Rapazes, incluindo o Cara, estavam encantados com Ela, mas diante da sua atitude introspectiva, ficaram receosos de fazer uma abordagem.
- Então porque você veio falar comigo? Também estavam lá a Sardentinha e as Meninas – indagou Ela
- As Meninas eram bem bonitas. A Sardentinha também, mesmo estando ocupada em evitar o Cara. Mas beleza é corriqueira, vulgar até. Em qualquer esquina se acha uma mulher bonita.
- E o que isso tem a ver comigo?
- Tem a ver que eu estava ficando sufocado com o seu charme. Você também é linda, mas o seu charme não estava deixando eu me concentrar em outra coisa. Cada meneio de cabeça, cada movimento seu só aumentava a minha angústia. Até que não agüentei e fui falar com você.
E o Rapaz abraçou Ela, e nesse momento o charme rodopiou, deu três piruetas no ar e mergulhou certeiro naquele sorriso lindo e envergonhado que ela dava por baixo do abraço. E enquanto isso, sem o menor charme, a Sardentinha já estava na cama com o Cara, enquanto os Rapazes e as Meninas se entrelaçavam no sofá de tal maneira que quem olhasse de relance demoraria uns bons dez minutos para contar quantos corpos havia naquele sofá. Também, pudera: todo o charme que havia naquele ambiente agora estava se equilibrando no meio fio, com os braços abertos, e cara de criança que está se imaginando escalando o Everest, sob o olhar apaixonado do Rapaz. E todo este charme agora tinha dono.














