Em se tratando de humor, eu tenho duas grandes influências, que de tão fortes às vezes chego a usar nominalmente suas palavras e expressões, beirando a cópia barata. Umas delas, mais aparente, é o Verissimo filho. A fluência do texto, o humor que não se explica, a ironia feita em tom sério e a abordagem de assuntos aparentemente sem importância como se fossem mudar o mundo, enfim, quase todas as características encontradas nos meus textos são encontradas nos textos do Verissimo, mas lá dá certo.
Minha outra influência é mais velada, não tão nominal. É um sujeito que atende pelo nome de Renato Aragão, vulgo Didi. Ou, como prefiro, Didi, vulgo Renato Aragão. Contrariando os entusiastas do Chico Anysio e do Mazaroppi, eu acho o Renato Aragão o melhor humorista que este país já viu. Não desmerecendo, claro, sou fã de carteirinha do Chico. Mas o Renato Aragão foi, pra mim, tudo o que um humorista deve ser.
Tachado pelos puristas e pelos politicamente babacas de hoje em dia como homófobo ou racista, por usar termos como criolo, negão, urubu, moçoila, pilombeta ou boneca para tratar gays e negros, nada poderia ser mais distante de realidade. Quem acompanha a carreira dele como eu, sabe muito bem que, antes do escárnio alheio, Renato sempre foi o rei do auto-escárnio. Ele mesmo vivia fazendo referência ao tamanho de sua cabeça ou ao fato de ser cearense.
Ao lado de seus companheiros Dedé, Mussum e Zacarias, Renato Aragão fazia um humor debochado, sem tanta preocupação panfletária ou de crítica social. Era um humor puro, inocente, entre amigos. Não raro o personagem do Didi representava o sujeito nordestino, fraco e que não era bonito, levar vantagem pela inteligência. Era uma brincadeira entre amigos, onde, como verdadeiros amigos fazem, um zombava do outro, sem se preocupar com a crítica externa. Fosse nos dias de hoje, nenhum programa dos Trapalhões exibido desde o primeiro seria transmitido às crianças, sob alegações de diminuir negros, homossexuais ou de diminuição da figura da mulher.
Perto do humor inócuo, oco e baseado em clichês simplórios e em piadas velhas remontadas, os Trapalhões seriam, se transmitidos nos dias de hoje, a maior audiência de qualquer emissora, em qualquer horário. As esquetes eram trabalhadas, tinham uma idéia por trás. Não eram, semana a pós semana, variações do mesmo bordão sem sair do tom. E mesmo não sendo uma repetição de bordões, não é pequeno o número de jovens da geração dos anos oitenta que até hoje diz expressões como “audácia da pilombeta”, “esse aí flutua”, “craro, craro, “oh, really?”, “cafundi”, “bicho bão”, “ô psit”, “biito” e outras tantas criadas pelo mestre, mas sempre usadas com inteligência e sabedoria, nunca como bengala ou como mote na falta de assunto.
Renato Aragão é uma prova viva de que, mais do que politicamente correto, o humor deve ser engraçado. O humor popular se torna mais atraente quando é exatamente o que o Renato Aragão fazia: uma brincadeira entre amigos, uma releitura do que fazemos, realçar as características de cada um e zombar delas, onde um chama o outro de quatro olhos, criolo, magricelo, gordo, e ninguém acha isso preconceito, porque são amigos e porque está claro que isso é uma brincadeira. Não que seja ruim ser preto, gay ou cearense. Mas também não o é usar óculos, ser branco ou magro, mas mesmo assim apelidos como magrelo, quatro olhos ou branquelo são tão freqüentes quanto urubu, boneca ou cabeça chata.
Tá na hora de a expressão “politicamente correto” ser utilizada de uma maneira mais eficaz, e já está mais do que na hora dessa gente que defende o politicamente correto começar a se indignar com o Senado, com a violência, com a subcultura em forma de capítulos diários que chegam a nós em três ou quatro horários diários. Politicamente incorreto é o que acontece no Senado, é o que os viciados de classe média fazem por serem contra a repressão do uso de drogas nas universidades, é fazer o que os políticos do interior fazem de empregar família e amigos, e comprar votos e prejudicar pessoas inocentes só porque votam com o adversário político. E contra isso ninguém se levanta? Entram com ações contra programas de humor e/ou peças de teatro, mas e contra esses políticos ninguém entra? Ninguém denuncia os viciados que usam droga dentro das universidades.
Se tivéssemos mais exemplos “preconceituosos” como o Renato Aragão e menos exemplos “corretos” como certos políticos presidentes de comissões em câmaras, como Senadores e “líderes” de movimentos estudantis sendo contra a “repressão” nas universidades, o Brasil seria um país bem melhor. É por isso que o Brasil é a merda que é, por exaltar os “corretos” e condenar os “não-corretos”. Por via das dúvidas, prefiro que meus filhos chamem os amigos de criolo ou boneca em tom de brincadeira do que que eles defendam uso de drogas em universidades ou fiquem do lado de políticos podres e corruptos só pra arrumar um empreguinho meia boca. Coitadas das crianças de hoje que não têm esse exemplo que eu tive, e podem crescer corruptas, violentas e sem caráter, mas nunca politicamente incorretas. Isso nunca. É a prioridade do brasileiro: melhor um canalha de terno do que um cara inocente, engraçado e amigo de terno azul com ombreiras com trejeitos de palhaço. Como se não tivéssemos exemplos suficientes de que esse julgamento não funciona muito…














