Sobre Didi, Sarney, criolos, bonecas e corruptos.

Archived in the category: Crônicas, humor
Posted by Léo Luz on 12 Jul 09 - 5 Comments

                      Em se tratando de humor, eu tenho duas grandes influências, que de tão fortes às vezes chego a usar nominalmente suas palavras e expressões, beirando a cópia barata. Umas delas, mais aparente, é o Verissimo filho. A fluência do texto, o humor que não se explica, a ironia feita em tom sério e a abordagem de assuntos aparentemente sem importância como se fossem mudar o mundo, enfim, quase todas as características encontradas nos meus textos são encontradas nos textos do Verissimo, mas lá dá certo.

                    Minha outra influência é mais velada, não tão nominal. É um sujeito que atende pelo nome de Renato Aragão, vulgo Didi. Ou, como prefiro, Didi, vulgo Renato Aragão. Contrariando os entusiastas do Chico Anysio e do Mazaroppi, eu acho o Renato Aragão o melhor humorista que este país já viu. Não desmerecendo, claro, sou fã de carteirinha do Chico. Mas o Renato Aragão foi, pra mim, tudo o que um humorista deve ser.

                  Tachado pelos puristas e pelos politicamente babacas de hoje em dia como homófobo ou racista, por usar termos como criolo, negão, urubu, moçoila, pilombeta ou boneca para tratar gays e negros, nada poderia ser mais distante de realidade. Quem acompanha a carreira dele como eu, sabe muito bem que, antes do escárnio alheio, Renato sempre foi o rei do auto-escárnio. Ele mesmo vivia fazendo referência ao tamanho de sua cabeça ou ao fato de ser cearense.

                   Ao lado de seus companheiros Dedé, Mussum e Zacarias, Renato Aragão fazia um humor debochado, sem tanta preocupação panfletária ou de crítica social. Era um humor puro, inocente, entre amigos. Não raro o personagem do Didi representava o sujeito nordestino, fraco e que não era bonito, levar vantagem pela inteligência. Era uma brincadeira entre amigos, onde, como verdadeiros amigos fazem, um zombava do outro, sem se preocupar com a crítica externa. Fosse nos dias de hoje, nenhum programa dos Trapalhões exibido desde o primeiro seria transmitido às crianças, sob alegações de diminuir negros, homossexuais ou de diminuição da figura da mulher.

                   Perto do humor inócuo, oco e baseado em clichês simplórios e em piadas velhas remontadas, os Trapalhões seriam, se transmitidos nos dias de hoje, a maior audiência de qualquer emissora, em qualquer horário. As esquetes eram trabalhadas, tinham uma idéia por trás. Não eram, semana a pós semana, variações do mesmo bordão sem sair do tom. E mesmo não sendo uma repetição de bordões, não é pequeno o número de jovens da geração dos anos oitenta que até hoje diz expressões como “audácia da pilombeta”, “esse aí flutua”, “craro, craro, “oh, really?”, “cafundi”, “bicho bão”, “ô psit”, “biito” e outras tantas criadas pelo mestre, mas sempre usadas com inteligência e sabedoria, nunca como bengala ou como mote na falta de assunto.

                   Renato Aragão é uma prova viva de que, mais do que politicamente correto, o humor deve ser engraçado. O humor popular se torna mais atraente quando é exatamente o que o Renato Aragão fazia: uma brincadeira entre amigos, uma releitura do que fazemos, realçar as características de cada um e zombar delas, onde um chama o outro de quatro olhos, criolo, magricelo, gordo, e ninguém acha isso preconceito, porque são amigos e porque está claro que isso é uma brincadeira. Não que seja ruim ser preto, gay ou cearense. Mas também não o é usar óculos, ser branco ou magro, mas mesmo assim apelidos como magrelo, quatro olhos ou branquelo são tão freqüentes quanto urubu, boneca ou cabeça chata.

                   Tá na hora de a expressão “politicamente correto” ser utilizada de uma maneira mais eficaz, e já está mais do que na hora dessa gente que defende o politicamente correto começar a se indignar com o Senado, com a violência, com a subcultura em forma de capítulos diários que chegam a nós em três ou quatro horários diários. Politicamente incorreto é o que acontece no Senado, é o que os viciados de classe média fazem por serem contra a repressão do uso de drogas nas universidades, é fazer o que os políticos do interior fazem de empregar família e amigos, e comprar votos e prejudicar pessoas inocentes só porque votam com o adversário político. E contra isso ninguém se levanta? Entram com ações contra programas de humor e/ou peças de teatro, mas e contra esses políticos ninguém entra? Ninguém denuncia os viciados que usam droga dentro das universidades.

                            Se tivéssemos mais exemplos “preconceituosos” como o Renato Aragão e menos exemplos “corretos” como certos políticos presidentes de comissões em câmaras, como Senadores e “líderes” de movimentos estudantis sendo contra a “repressão” nas universidades, o Brasil seria um país bem melhor. É por isso que o Brasil é a merda que é, por exaltar os “corretos” e condenar os “não-corretos”. Por via das dúvidas, prefiro que meus filhos chamem os amigos de criolo ou boneca em tom de brincadeira do que que eles defendam uso de drogas em universidades ou fiquem do lado de políticos podres e corruptos só pra arrumar um empreguinho meia boca. Coitadas das crianças de hoje que não têm esse exemplo que eu tive, e podem crescer corruptas, violentas e sem caráter, mas nunca politicamente incorretas. Isso nunca. É a prioridade do brasileiro: melhor um canalha de terno do que um cara inocente, engraçado e amigo de terno azul com ombreiras com trejeitos de palhaço. Como se não tivéssemos exemplos suficientes de que esse julgamento não funciona muito…

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5 comments for “Sobre Didi, Sarney, criolos, bonecas e corruptos.”

1

Infelizmente ,eu não pude na minha infância assistir muito aos Trapalhões justamente porque minha mãe achava as piadas ofensivas e discriminatórias contra os negros (como minha coroa odiava o Mussum) — e veja que era uma época pré ditadura do politicamente correto.
“[...]mais do que politicamente correto, o humor deve ser engraçado.” Exatamente, o maior problema para qualquer piada é não ter graça, até porque o humor é quase sempre ofensivo para quem é o alvo do ridículo. É compreensivo que pessoas que estejam emotivamente ligadas aquilo que é o motivo do escárnio tenham dificuldades de achar graça, na verdade, se fôssemos levar em consideração a sensibilidade de todas as pessoas, seria impossível achar graça de qualquer coisa que seja. A comicidade guarda uma certa violência e só pode produzir o efeito do riso quando a pessoa consegue se desprender e olhar a piada de uma forma quase puramente racional. Acho que Bergson foi quem melhor formulou essa característica da comicidade em seu livro O Riso: “Parece que a comicidade só poderá produzir comoção se cair sobre uma superfície d´alma serena e tranqüila. A indiferença é seu meio natural. O riso não tem maior inimigo que a emoção.” O riso é um trabalho da inteligência, é impossível achar graça de uma piada quando se está ligado emotivamente ao motivo do ridículo. Por isso, acredito eu, rir de si mesmo é um sinal de superação intelectual dos próprios problemas, posto que é necessário se separar daquilo que é puramente emotivo e ver o problema com um olhar sóbrio, sem as afetações emotivas. Citando Bergson novamente, “num mundo de inteligências puras, totalmente desprovido de emoção, talvez não tivéssemos mais motivo para chorar, mais ainda teríamos motivo para rir.”

July 13th, 2009 at 11:29
2

[...] e meu ego grande – Sobre Didi, Sarney, criolos, bonecas e corruptos. O Banquinho – Catarse ha ha ha Não dois, não um – Resposta padrão para qualquer problema de [...]

July 19th, 2009 at 18:11
3

Bom… Primeiro parabéns!
Adorava os trapalhões, e tive a oportunidade de ter uma infancia sadia. Concordo em tudo sobre o Renato, mas acho que ele deveria ter se aposentado….

Na verdade, nós vivemos em um dos países mais hipocritas do mundo, onde, por exemplo é proibido o topless, mas no carnaval tudo aqui é liberado. Que tipo de verdade é essa?
Infelizmente o povo não se preocupa com politica, e sinto muito, mas nunca se preocupará. Porque na verdade, as pessoas preferem ver o resumo das novelas e a vida dos artistas na REDE TV do que ver um pequeno resumo da politica e do que acontece com nosso dinheiro no Jornal. Por isso, a elite está pouco se lixando pro que acontece no mundo real.

July 21st, 2009 at 12:29
4
João dos Santos Filho

KARL MARX DENUNCIOU E SARNEY PRATICOU

João dos Santos Filho

O movimento de despolitização, o cultivo do pensamento irracionalista, e negação do movimento histórico existente no interior do modelo neoliberal, aliado aos estampidos arrogantes da baixa academia contra o pensamento marxiano. Levaram alguns intelectuais a considerar a mesma, como uma teoria ultrapassada e de princípio filosófico arcaico para o entendimento da sociedade atual, obviamente, não poderíamos deixar de avocar o oposto. O pensamento de Karl Marx é contemporâneo, atualíssimo e necessário.
Segundo escreve Marx no Manifesto Comunista: “O governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa” (1847), sim para ele o Estado é o gerente dos interesses da classe dominante nacional e internacional, que não simula ou camufla essa essencialidade. Mas sim, explicita seus interesses de classe amparados por meio da montagem de uma burocracia, que mescla relações de sociabilidade coloniais, com a de compadrio aquartelado por meio de leis de cunho repressivo que compõem o quadro jurídico da chamada “legalidade” de Estado.
Esses fatos começaram vir à tona com maior intensidade, quando a classe política brasileira e funcionários com o status ainda de funcionários “régios” tiveram suas condutas e direitos questionados pela sociedade civil. Em decorrência de atritos por interesses políticos entre seus próprios pares, que forjaram esquemas de privilégios financeiro, material e político para beneficio pessoal.
O Presidente do Senado Federal José Sarney comanda literalmente a casa dos senhores senadores ou como poderíamos também chamar a “Casa da Mãe Joana” dentro dos seguintes absurdos:
1. Emprega funcionários segundo interesses do presidente da casa, aceitando pedido de emprego da filha para seu namorado;
2. Nega ter responsabilidade administrativa sobre a fundação Sarney, sendo que José Sarney é fundador e presidente vitalício dessa entidade.
3. Desvio de dinheiro ocorrido pela fundação Sarney;
4. Criação de atos administrativos referentes à nomeação e posse para cargos comissionados e de confiança. Todos possuíam uma característica bastante peculiar, decorrente da prática do hábito de governar o “bem público” em beneficio do parlamentar, por isso tratavam-se de atos administrativos secretos.
5. O emprego de parentes do senador e aliados na área pública.

Marx tem toda a razão, quando denuncia que a classe dominante transforma o Estado em escritório de seus interesses particulares. Na verdade as vantagens salariais desses burrocratas parlamentares são marcadas por dezenas de vantagens moradia; verba de gabinete; verbas indenizatórias (para hospedagem, combustível e consultorias); despesas com telefone e postagem de cartas, além de uma cota para cobrir passagens aéreas.
Por isso, leitor não vote em quem tem a ficha suja ou que ainda não foi condenado, mas praticou ou vem praticando atos nocivos a democracia brasileira, em razão de sua atuação política. Basta de impunidade!!!!!!!!

July 27th, 2009 at 20:19
5
Fabio

Sem querer soar um “politicamente correto” eu achjo engraçado a forma como as pessoas que moram nos grandes centros se referem aos “políticos do interior”.
Como se só os caipiras como eu elegessem corruptos.

July 27th, 2009 at 20:47

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