Eu gosto pra caramba de andar de ônibus. Tá, pra caramba não, mas gosto. Não é arroubo de populismo. Não vou começar a abraçar pobre na rua e beijar criança melequenta pra me lançar candidato a nada. É só uma constatação que fiz hoje pela manhã. Meu carro está no mecânico, e como moro em Niterói, qualquer lugar fica a no mínimo
Minha atual defesa da viagem de ônibus tem uma explicação sociológica e antropológica. As sociedades modernas fizeram das pessoas máquinas de trabalhar. Se trabalha um terço do dia, e se você dorme pelo menos quatro horas por dia, passa mais tempo acordado no trabalho do que
Na Europa e na América que realmente interessa, a de lá de cima, é comum pessoas que trabalham a quatro, cinco quadras ou mais irem a pé para o trabalho. No Brasil, dois quarteirões já é motivo pra ir de carona ou pegar um ônibus, mas nesse caso a teoria não se aplica, porque não dá nem tempo de sentar. No bom sentido. Quando digo andar de ônibus quero dizer no mínimo quinze minutos de viagem. Bom, voltemos à defesa história. Então, na Europa e nos Estados Unidos, essas pessoas que vão trabalhar ou estudar andando por quatro, cinco quadras, exercitam o Ócio Inspirador Produtivo. E são felizes, evoluídas, ricas e podem comprar um BigMac com refrigerante e batata por quatro dólares e cinqüenta centavos. Quer mais civilidade e qualidade de vida que isso?
Então, nessa sociedade em que trabalhamos feito para nos tornarmos europeus ou estadunidenses, poucos são os que conseguem se dar ao luxo do Ócio Inspirador Produtivo, que vou explicar agora o que é. O Ócio Inspirador Produtivo é quando você não está fazendo nada – nada mesmo – mas que de tanto não fazer nada você acaba começando a pensar, a refletir, e em alguns casos, a produzir na cachola grandes idéias. Então, nesse Brasil iu iu de hoje, quem pode se dar ao luxo de não fazer nada e ficar só pensando, livre, lépido e fagueiro? Eu respondo: quem está em um ônibus.
No ônibus não temos opção a não ser esperar chegar. E até lá, fazemos o que? Uns escutam música, uns lêem, uns que merecem morrer de hemorróidas obrigam os outros a ouvir música, enfim, temos que fazer algo para não enlouquecermos durante a viagem, principalmente se você é ansioso e fica fazendo o trajeto mentalmente assim que entra no ônibus. Eu já tentei ouvir música ou ler, mas o que quer que eu faça, em cinco minutos eu estou olhando para a janela, imóvel, pensando nas coisas mais absurdas e sem sentido, e esqueço da música, do jornal ou do decote da gostosa do lado. E é aí que começa a mágica do Ócio Inspirador Produtivo: eu começo a pensar coisas aleatórias e desconexas que, no fim, vão me inspirar para um texto, um trabalho ou para a próxima história que eu vou inventar pra me gabar com os amigos.
Metade dos meus textos, por exemplo, teve seu início em um destes momentos. E muitas das boas idéias que eu tive em várias áreas também foram. O Ócio Inspirador Produtivo não só deve ser praticado como é mister que seja incentivado. E não precisam se preocupar com funcionários estáticos nas suas mesas babando e pensando na morte da bezerra. Basta as empresas mandarem ônibus buscar seus funcionários em casa! É simples e genial! Os funcionários chegariam ao trabalho cheios de idéias boas e frescas. Claro, haveria de se proibir a libertinagem dentro do ônibus, senão ao invés de idéias algumas funcionárias chegariam grávidas ao trabalho.
Se você mora longe então, se prepare para virar um gênio da noite pro dia. Experimente. Pegue um ônibus e passe trinta minutos só pensando. Quer dizer, se você não mora em Niterói, provavelmente você não leva trinta minutos para chegar ao trabalho, mas pode ser menos tempo. Com menos tempo também se obtém um bom resultado. Claro, se você não mora em Niterói nunca vai ter uma idéia genial nos seus dez, quinze minutos de viagem. Nossas horas de viagem para o trabalho por dia nos fazem gênios criativos, cheios de idéias pululantes loucas por ser tornarem realidade e ansiosas por um dia serem lembradas na Oprah ou no Jô. Que Hitler não me ouça, mas morar em Niterói faz de nós seres superiores. Mas não se preocupem, somos seres superiores porém compreensivos e solidários, e não temos problemas perpetuar nossa carga genética para além dos limites de Niterói. Gostamos de dar oportunidade a outros lugares de terem genes niteroienses na sua população. Somos caridosos, humanitários e altruístas. Por isso a única exceção ao Ócio Inspirador Produtivo é puxar assunto com a gostosa do lado, para que ela tenha a oportunidade de ser a feliz portadora de nossa carga genética, e com ela dividir todo o nosso altruísmo e solidariedade. E sem puxar a brasa pra nossa sardinha, o altruísmo dos niteroienses costuma ser bem grande. Ah, e toda essa bobagem aqui foi pensada em um ônibus, o que me livra do espôrro da patroa, pois se tive tempo para pensar nisso tudo, fica provado que o exemplo da gostosa é mera ficção.














